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Ditadura no escuro

Companhia Teatro Cego propõe uma experiência que explora os sentidos e homenageia Chico Buarque 

 *Por Meiri Farias

50 anos depois do golpe, a ditadura civil – militar voltou a estampar capas de revistas e jornais no país. Mostras temáticas de filmes censurados, exposições e debates promovidos por diversas instituições se dedicaram a desvendar o período sombrio que invadiu o Brasil em 1964. Dentro dessa onda de eventos o espetáculo “Acorda amor”, da Cia Teatro Cego conta a história da resistência de um grupo de militantes. Nada muito diferente do que vem sendo apresentado por outras companhias se não fosse um detalhe: A peça se passa no escuro.

Foto: Divulgação

A proposta do Teatro Cego é aguçar sentidos, e o primeiro é o tato. Para entrar no local da peça, forma-se uma fila indiana, onde o espectador coloca a mão direita no ombro da pessoa à frente. Com a sala praticamente escura (pequenas lanternas ajudam a guiar os mais desastrados sem muito sucesso), pequenos grupos começam a entrar. A guia – que é deficiente visual – ajuda cada pessoa a encontrar seu lugar. O processo é lento e demora pelo menos vinte minutos para que todos se acomodem.

Como avisado pela produção antes de entrar na sala, os primeiros minutos são de desconforto. O escuro deixa o público inquieto e barulhento e aí que o segundo sentido é desperto. A música suave e com percussão marcada da banda Social Samba Fino ajuda a acalmar os ânimos e cria a expectativa do que virá a seguir. Com uma melodia cíclica, o espectador não sabe quando a música vai acabar e o espetáculo finalmente começar, por esse motivo o início da peça acontece de repente.

Foto: Divulgação

O foco é o drama do casal Natasha e Paulo (a atriz que interpreta Natasha é deficiente visual), militantes preocupados com o desaparecimento de César, companheiro de resistência. Os diálogos e conflitos dos personagens se intercalam com músicas de Chico Buarque como Roda viva, Trocando em miúdos e Acorda amor, que dá nome a peça. Do barulho da água escorrendo no meio de um banho a passos firmes subindo a escada, nota-se o esforço para aguçar a audição em todos a todo instante, mas o momento que causa mais surpresa é quando o olfato é requisitado. O aroma intenso de café deixa o expectador na vontade. O cheiro dos alimentos e o bater de talheres cumprem com sucesso a tarefa de criar quadros mentais.

*Entenda e experiência proposta pelo Teatro Cego

Embora o casamento entre música e enredo seja satisfatório, o segundo deixa a desejar em alguns momentos. A intensa preocupação com a experiência sensorial deixa a história em segundo plano e perde a oportunidade de explorar melhor o conflito político. Ainda assim, o final não decepciona. “Acorda amor” trás os dilemas internos de personagens dentro de uma situação limite, em um período onde o cidadão não tinha voz.

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Quem não conseguiu assistir a peça ainda pode conhecer o som do da banda Social Samba Fino em três apresentações com entrada gratuita:

Centro Cultural Cidade Tiradentes. Av. Inácio Monteiro, 6900 – Cidade  Tiradentes, São Paulo, SP

17 de julho (qui), 20h

Centro Cultural da Penha. Largo do Rosário, 20 – Penha, São Paulo, SP

18 de julho (sex), 20h

Teatro Alfredo Mesquita. Av. São João, 473 – 6º andar, São Paulo, SP

19 de julho (sáb), 21h

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