Abre Aspas / Especial HQ / Literatura

Além dos limites da tirinha

Helô Pereira conta sobre sobre a personagem que detesta convenções e suas influências no mundo das HQs

especial hq

*Por Meiri Farias

Ela é inconformada, reclamona e não aceita as imposição de sua criadora. Helozinha (está bem, está bem, Flora!) é um personagem que sonha em sair do quadrinho.

Conversamos com Helô Pereira, estudante de jornalismo de 20 anos, criadora da Helozinha e descobrimos que a ideia surgiu em um momento muito inusitado. (Além das tirinhas, ela é editora-assistente do órgão laboratorial de sua faculdade, a revista Esquinas). Helô conta suas referências e o que acompanha no mundo dos quadrinhos, além nos ajudar a entender melhor o temperamento forte de Helozinha/Flora (melhor assim Helozinha, ops, quer dizer, Flora?). “É uma mistura doida de Mafalda do Quino, com as mulheres de Maitena, o humor de Calvin e Hobbes, do Bill Watterson, e uma pitadinha de Mauricio de Sousa”. Quer saber o que tem por trás dessa mistura?

Foto

Foto: Page Helozinha

Armazém de Cultura: Como foi o nascimento da Helozinha?

Helô Pereira: Acredite ou não, foi numa sessão de acupuntura. Eu vou explicar: odeio agulhas. Então durante as sessões, eu tinha que manter a cabeça ocupada, aí acabei criando a Helozinha como uma forma de me distrair das agulhadas. Parece loucura, mas você não acreditaria em quantas tirinhas eu criei enquanto uma oriental pequenininha enfiava agulhas na minha cara. A ideia da Helozinha em si veio da minha falta de ideias. Vou explicar: é que, já que eu não tinha ideias, pensei “por que não criar uma personagem que não quer estar no papel?”. E foi assim que a Helozinha apareceu. Aliás, coloca na sua matéria que ela odeia ser chamada de Helozinha. Ela prefere Flora. Se eu não falar isso, ela me mata.

Foto: Page da Helozinha

Foto: Page da Helozinha

AC: A Helozinha é inquieta, tem esse sonho de sair do quadrinho e é um pouquinho mal- humorada. Você se identifica com essas características?

Helô: Eu sou o oposto da Helozinha. Sou aquele tipo de pessoa que tenta sempre jogar o jogo do contente; acho que a vida já é cinza demais. A Helozinha é, na verdade, inspirada na minha irmã, que parece estar constantemente na TPM. Muitas frases da Helozinha, como “aff, recalcada” ou “grandes bosta”, vêm da Flá. Claro que, em muitas tiras, eu expresso minha opinião sobre o mundo, geralmente em relação a machismo, política e, agora, com a Copa, em relação a futebol. Mas não, a Helozinha não é alter ego meu, não. Sobre a inquietação e vontade de sair da própria realidade, acho que todos temos um pouco disso. Quer dizer, quem está 100% tranquilo é só quem já está enterrado, não é mesmo?

AC: Nos últimos tempos diversos artistas tem disponibilizado suas tirinhas na Internet. Você acha que esse é o caminho para quem quer trabalhar com quadrinhos?

Helô: Olha, acho que a internet é o céu e o inferno. Céu porque você tem a possibilidade de divulgar seu trabalho e ter retorno rápido. Inferno porque, na verdade, você acaba não ganhando dinheiro e ainda ganha um baita problema de direitos autorais. Então, acho que a rede é uma ferramenta essencial para a divulgação e troca dos trabalhos dos artistas, mas não é a única. Se a pessoa realmente quer trabalhar com HQs, tem que ir atrás de editoras, dar a cara a bater. Claro que a própria internet tem outros caminhos, como o Catarse, site de financiamento coletivo. Acho que depende não da internet, mas de como ela é usada pelo artista. O artista é que tem que sentir o que é melhor para o próprio trabalho. O meio impresso ainda é o favorito para graphic novels, por exemplo. Mas séries longas, como “The Walking Dead”, em que cada volume custa R$45, não fazem tanto sucesso no impresso. Aí, a internet é melhor. Tirinhas funcionam melhor nas redes sociais, mas também podem acontecer em jornais. Tudo depende do “feeling” do artista.

AC: Quais são suas principais influências nos quadrinhos?

Helô: Uau, por onde começar? No Brasil, sou apaixonada pelx (sic) Laerte. Elx é a pessoa mais “que se dane o mundo, sou eu mesmx”. E cada tirinha delx é um tapa na cara (Você conhece Laerte? Um dos principais nomes dos quadrinhos no Brasil é adepto do Cross-dressing, termo usado para designar quem se veste ou usa objetos associados ao sexo oposto. Prefere ser chamada de a Laerte). Fora daqui, muitos quadrinistas me inspiram: Marjane Satrapi* (autora de “Persépolis”), Alison Bechdel (vencedora do prêmio Eisner, dedicado à indústria dos quadrinhos), o Art Spiegelman (autor de “Maus” e também vencedor do Eisner)… mas meu maior ídolo é o Will Eisner, considerado o pai da graphic novel. O cara veio literalmente do nada e montou, no meio da Grande Depressão, um império tendo apenas talento e uma mesa de desenho improvisada num cubículo de 3x4m.
A Helozinha, em si, é uma mistura doida de Mafalda, do Quino, com as mulheres da Maitena, o humor de Calvin e Hobbes, do Bill Watterson, e uma pitadinha de Mauricio de Sousa. Ufa! Acho que é isso o principal. Mas se fosse para falar de referências, eu ficaria aqui a tarde toda!

Foto: Page da Helozinha

Foto: Page da Helozinha

AC: O que costuma ler quando criança?

Helô: Bom, acho que Mauricio de Sousa ensinou muita gente a ler. Eu tenho uma relação de muito carinho com a turminha dele, costumava comprar todos os gibis, os almanaques e os ‘almanacões’ (saudades Parque da Mônica). Mas eu não curtia tanto HQs quando era menor, só comecei a ler mesmo e me interessar quando comecei meu curso de desenho, em 2011. Na literatura tradicional, eu curtia muito “O Pequeno Príncipe” e uns livros meio nada a ver com a minha idade, tipo “Delírios de consumo de Becky Bloom”

AC: Que trabalhos indicaria para quem curte sua página?

Helô: Ultimamente, tenho curtido muito o trabalho das meninas do ZINE XXX, uma publicação independente que reúne quadrinhos e tirinhas de mulheres cis e trans. São delicados e verdadeiros, e muitos deles engraçados pra caramba. Sugiro também a página da lovelove6, a criadora da “Garota Siririca”, e todas as que a Helozinha curte: “Deus, essa gostosa”, “Eloá”, a página da Carol Rossetti e principalmente a “Magra de ruim”. Essas meninas são incríveis e estão mostrando que o mundo das HQs não é mais dominado só por homens e super heróis de colan.

 

Conheça mais do trabalho da Helô: Curta a página Helozinha!

Tirinha 2

Foto: Page da Helozinha

 

* Nem todos os links são de páginas oficiais dos autores. Algumas são de editoras e outras de fãs que divulgam o trabalho

 

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