Dica de segunda / Uncategorized

Dica de Segunda: Ligue os Pontos – poemas de amor e big bang (Gregório Duvivier)

*Por Beatriz Farias

Caro leitor, para começo de conversa te faço a pergunta: você já ouviu falar do canal Porta dos Fundos? Se a sua provável resposta for um sim, recomendo que deixe de lado os pré – conceitos antes que continue. Hoje falo do segundo livro de um dos criadores da empresa citada acima, também ator, escritor e mais um montão de coisas que as horas vagas permitem: Gregório Duvivier.

Lomogram_2014-07-14_10-30-20-AM

A história com Ligue os Pontos poderia ser apenas memória afetiva de primeiro livro do ano, mas depois de levá-los a tantas consultas (sim, para ler quando o médico não está olhando), e carrega-lo na bolsa como espécie de diário, esse fato torna-se apenas coincidência. O negócio do diário é simples: quando leio esse livro tenho a certeza de que se passa no fantástico mundo da minha imaginação; Gregório Duvivier escreveu todas as coisas que eu jamais imaginava sentir tão profundamente, e fez a loucura cotidiana parecer um lugar comum a nós. Diversas vezes examinei esse livro a fim de entender como 85 páginas podem fazer um livro tão grande para depois perceber que o seu segredo é a facilidade. Se você entende poesia como palavras e termos complicados aqui temos de uma vez por todas essa desmistificação, poesia é para todos.

“no princípio era o verbo10529489_580939215350444_627229359_n

uma vaga voz sem dono

vagando pela via láctea.

depois veio o sujeito

e junto com eles

todos os erros de concordância.”

 

O traço do humor aparece de forma sutil e inteligente como no poema acima, mas não por isso é deixado de lado em horas que a sensibilidade ganha um espaço maior. A primeira parte do livro, Cartografia Afetiva, pode ser considerada uma viagem por cenários. O autor te mostra um Rio de Janeiro que dá gosto de conhecer, por meio de versos que talvez causem certa estranheza a primeiro olhar, e uma vontade mais estranha ainda que ele continue contando daquela forma mesmo; impossibilitando uma leitura difícil ou aquela que a gente empurra com a barriga para chegar logo na parte preferida. Todo poema é o seu preferido depois de umas duas boas leituras. Um susto acontece quando você se depara com a segunda parte, Para Aprender A Gostar Muito. A linguagem simples demais dialoga com palavras absurdas que o farão rir num dia ensolarado no parque, ou em um metrô cheio em São Paulo, e caso a possibilidade pareça pouco provável aqui vai uma amostra de como o aprendizado de gostar muito se torna fácil e crescente a medida que o livro passa.

“enquanto você dormia liguei

os pontos sardentos das suas

costas na esperança de que

a caneta esferográfica revelasse

a imagem de algum ser mitológico

de nome proparoxítono o mapa

detalhado de algum tesouro

submerso formasse quem sabe

alguma constelação ruiva oculta

na epiderme e me deparei

com o contorno de um polígono

arbitrário que não me fornecia

metáforas não apontava direções

simplesmente dizia: você está aqui”

O poema acima é o que dá nome ao livro, e o livro apresentado é uma prova que estamos no século 21 e que a poesia nos alcançou até aqui sem deixar de ser poesia.

 

* Beatriz Farias não é formada, não tem curso superior nem vergonha de escrever em terceira pessoa fingindo que não é ela. Gosta de gostar das coisas e são dessas coisas que ela fala aqui.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s