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Garotinha no Castelo

A espera é cansativa e o atendimento levemente hostil. Mas você não vai querer sair

*Por Meiri Farias

– Moço, esse ônibus passa no M…

– Passa sim fia, e vai preparada que você vai passar a tarde inteira na fila.

Foi assim que começou a saga do dia. O cobrador já conseguia prever até a pergunta. Ao descer do ônibus foi fácil entender o porquê. Todos os jovens entre 18 – 30 anos da cidade estavam na porta do MIS, talvez do planeta.

Encarar uma fila dessas é tarefa de coragem. Por algum motivo desconhecido, sol forte na semana do frio e centenas e mais centenas de pessoas enfileiradas ao longo da Avenida Europa. “Respira fundo, coragem”. E vamos lá, tentar esquecer que cerca de trezentas pessoas entrarão antes que você.

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Fila na Av. Europa por volta das 14h

A repórter que vos fala é uma admiradora da vida. Mania, esquisitice, seja lá o que for, mas nós seres estranhos conhecidos como jornalistas gostamos de prestar atenção na vida alheia. Quer lugar mais propício para ‘curiar’ o comportamento humano do que em uma fila demorada? Pois bem, a escolhida da vez era uma garotinha. No alto de seus quatro ou cinco anos ela trajava um vestidinho verde, uma jaqueta marrom e uma curiosidade inocente que só as crianças carregam nos olhos. Sua euforia era palpável e ela não parava quieta. Equilibrava-se em um pé, depois no outro e olhava para os lados com frequência. Seus lábios balbuciavam algo que minha curiosidade tentava decifrar. Não precisei de muito esforço, era fácil prever: “Bum bum bum, Castelo Rá – tim – bum!”

A garotinha não estava sozinha em sua euforia. Todas aquelas centenas de pessoas encararam corajosamente o sol e espera em plena quarta – feira. Um funcionário do Museu passa avisando que tem banheiro e água disponível. Alívio. Ele comenta surpreso que a maior fila que já viu. E olha que estamos falando do MIS, Museu da Imagem e do Som que já contou com mostras sobre David Bowie e Stanley Kubrick.

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Mas voltemos para menina de vestidinho verde. Depois de alguns minutos (horas? Dias?), sua euforia começou a se transformar em irritação. Trinta minutos, uma hora, uma hora e meia. E a fila avança lentamente. Duas, duas e meia, duas e quarenta e a fila vira! A reta final começa! Ainda assim, bem mais de cem pessoas separavam a garotinha de seu destino final. Mas a virar a última esquina em direção à entrada do museu espanto! A fachada do prédio exibe uma imagem enorme do castelo. Seus olhos se arregalam e é impossível não enxergar todo o desejoso deslumbramento infantil daquele momento. E era só o começo.

A fila ainda se estendeu por tempo indeterminado. A expressão da menininha se alterava entre expectativa e impaciência. Depois de algum tempo, cansada, começou a contar os ônibus que passavam na avenida: Dois amarelos, um verde, um laranja. E desses ônibus dezenas de pessoas descendo e se juntando à nossa centopeia humana.

Quer ver a galeria completa da nossa visita a Exposição? Confira na nossa página!

Mais e mais minutos se passam e finalmente a bilheteria. Nossa garotinha está eufórica: praticamente saltitando ela sai do caixa e se encaminha para a próxima fila (sim, outra fila para entrar no castelo). Mas cadê o ingresso? Cadê o bendito ingresso que segundos antes estava na mão dela. Sumiu. Evaporou. Descrença completa e quase desespero. Depois de mais de três horas na fila o ingresso sumiu. A lágrimas ameaçam o olhar desconsolado da garota. E ela respira fundo e do alto da sua sabedoria de quatro anos, não chora. Volta no caixa. Discute com a moça grosseira e volta para o seu lugar na fila. Com seu ingresso recuperado. Mas aí algo estava diferente. A garotinha já não brilhava tanto assim. O cansaço, o medo, e a espera apagaram algo nela. E posso dizer com bastante propriedade que ela não era a única.

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“Klift, Kloft Still, a porta se abriu!”

Mais uns vinte minutos na porta do castelo. Pelo menos uma diversão: Ver as saídas e entradas do porteiro. E depois de mais uma eternidade “Klift, Kloft Still, a porta se abriu!”

Finalmente!

Estávamos lá! Depois de tanta espera, entramos no castelo. Obviamente não me contive e continuei a perseguir a garotinha. Existe algo de insano e comovente em acompanhar uma criança. Faz com que você pare de olhar o mundo e finalmente comece a ver.

Desde o início somos advertidos que devemos ver tudo o possível no térreo porque quando subirmos para o andar superior, não haverá chances de voltar. E mesmo assim, a pressão o tempo inteiro para se apressar, até porque, a fila lá fora já completava quase um quarteirão (os quatro lados do quarteirão, caro leitor). Tudo bem, tudo bem. Desfrutando do início da exposição: Linha do tempo, documentos, prêmios, algumas imagens. Começo discreto, mas interessante. E a garotinha tentava absorver cada palavra que sua mente ainda não havia processado. Com um interesse quase voraz.

Mas a exposição começa mesmo com uma espécie de holografia do Nino. Saudando o público ao lado do seu relógio que nunca falha e é aí que tudo começa de verdade. Os mais diferentes espaços são apresentados ao público: A biblioteca com seu Gato Pintado, a Oficina do Dr. Victor, o encanamento com Mau e Godofredo, a sala de música com a “pianola” e a sala da lareira. Cores, formas e realismo fantástico. A garotinha está em casa e eu também.

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Caminho para chegar ao espaço do Etevaldo

A beleza se dispersa um pouco com os avisos insistentes dos monitores: Não toque nisso, não mexa naquilo. Incomoda. Mas tudo bem, o entusiasmo da garotinha é tão contagiante que prosseguimos. Um túnel, luzes fantásticas e nos deparamos com Etevaldo, o turista universal. Figurino, crôquis e vários objetos decorativos. Logo passamos pelo Telekid e chegamos na cozinha, como não lembrar da tia Morgana e suas receitas? Decoração impecável.

O jardim também encanta e nós faz lembrar da Caipora: quantas histórias sobre a floresta! Continuando esbarrando no Ratomóvel, logo depois a Dedolândia. Relíquias originais expostas, esboço e desenhos faz a alegria da galera. Mas nada surpreende tanto quanto o saguão do castelo. A árvore com a Celeste é o principal destaque, fácil ignorar os manequins com figurinos, o boné original do Zeca. E sabe por que? A cobra se mexe! De verdade, como resistir. Fotos, fotos, fotos. Falando nisso, alguém já pensou o quanto uma cobra que vive em uma árvore centenária deve odiar selfies? Eu odiaria.

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Pobre Celeste! Principal vítima das ‘selfies’ indesejadas

O quarto do Nino é de uma coerência assustadora. Incoerente é os monitores censurarem as crianças que tentaram entrar pela porta giratória. “Poxa tia, não pode?”, “Não não pode. E não toque em nada”.

Mais uma fila, mais inquietação. Demora alguns minutos para conseguir subir a escada. No caminho, fotos do Dr. Victor, capas de jornais antigos. Tudo muito fascinante. Já em cima dá pra ter uma vista deslumbrante. As folhas da árvore refletem na parede, bonito de se ver.

O nosso próximo destino é o quarto da bruxa Morgana. Caldeirão, livro falante, vassoura e mais figurinos bonitos, todos estão lá. Mas nada chama atenção do que a gralha falante: “Adelaáááide”, como não lembrar? No meio de flashes (não permitidos, mas ainda assim…), a irritação surge. Não dá para não pensar “para que tantas fotos? Para que?”, e assim percebo que a garotinha sumiu. Tão preocupada estava em amaldiçoar mentalmente meus companheiros de exposição que me esqueci dela e só voltei a lembrar ao me deparar com espelho. Susto! A garotinha estava lá! Mas as sobrancelhas estavam arqueadas e o olhar irritado, já não havia tanta inocência assim no peso dos anos que se passaram ali. De vestido verde e cabelos escuros, ela era eu. E todos os que estavam ali tinham cinco anos novamente.

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Quarto da Morgana

Foi duro perceber a linha tênue que nos separa daquilo que deveríamos continuar sendo. Da expectativa infantil da fila, a entrada cantarolando, sequer percebi o quanto voltar a infância é inevitável e necessário para entrar no castelo. Você não é mais a aspirante a jornalista de vinte anos irritados. É a garotinha de vestido verde que conversa com uma cobra em uma árvore.

O resto da exposição é beleza e cores. O ninho, o lustre do castelo e o figurino e croquis do Dr. Abobrinha. Tudo acompanhado de fotos e vídeos. A música descontínua trás estranheza, já que castelo Rá – Tim – Bum investia muito em trilha sonora. O fim da exposição deixa aquela sensação bonita de que a viagem nostálgica foi concluída com sucesso. A parte, a falta de organização clara e incomoda da equipe do museu e um sentimentozinho agridoce na tentativa de trazer a garotinha para fora comigo.

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Maquete do castelo

 

** O objetivo dessa crítica foi passar a visão e opinião da autora. Críticas mais pontuais foram publicadas por veículos tradicionais, mas o Armazém tem como objetivo promover discussão, reflexão e questionamento. Para informações oficiais sobre a Exposição, o site do MIS.

5 thoughts on “Garotinha no Castelo

  1. Os olhos cansados com os arranhas céus cinzentos, o semáforo que não abre, o motorista que insiste em buzinar se espanta quando percebe que é possível resgatar o encanto, a magia, a simplicidade de ver a vida que nunca deveria ter se perdido.
    Adorei o texto, e agora mais do que antes, preciso viver esse doce universo paralelo.

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