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Humor e ironia no Will Tirando

Will Leite é cartunista, publicitário, designer e um dos principais nomes para se entender o mundo das tirinhas na Internet

especial hq

*Por Meiri Farias

Will Leite é o cartunista (i) responsável por trás do Will Tirando”, assim que começa a descrição da página no Facebook do cartunista de Porecatu, cidade pequena do Paraná. Página essa que foi criada em 2007 e hoje tem 126.010 curtidas. Mas chega de números e vamos aos fatos: Em sete anos de blog, Will Leite se tornou uma das principais referências quando se fala em quadrinhos pela Internet.

Foto: Página Will Tirando

Fotos: Página Will Tirando

Para continuar nosso “Especial HQ” (Perdeu as entrevistas com Helô Pereira e Fernanda Nia? Veja aqui), conversamos com Will, que além de manter o “Will Tirando”, é publicitário, designer e ilustra a página “Contando Ninguém Acredita”, da revista Mundo Estranho. Ufa! Achou muito? Will também participou em 2011 do “MSP Novos 50”, projeto que traz releituras dos personagens do Mauricio de Sousa por novo artistas.

 Seus personagens são criativos, engraçados e a ironia dita o ritmo do “Will Tirando”. Seja nas tiradas secas da Anésia ou em releituras hilárias com a da tirinha abaixo, Will sempre surpreende a cada post e já foi elogiado até pelo Sidney Gusman, responsável pelo planejamento editorial da Maurício de Sousa Produções e um dos principais nomes dos Quadrinhos no país.

Releitura do conto “A velha contrabandista ” de Stanislaw Ponte Preta

Você não conhece o trabalho do Will? Então não perca tempo e confira a entrevista que ele concedeu ao Armazém:

Armazém de Cultura: Olá Will! Na sua página são publicadas diversas séries: Viva intensamente, Anésia, o Astolfo entre outros, diferente da maioria das páginas de tirinhas criadas nos últimos tempos, onde um enredo ou personagem predomina. Como você administra todas essas tirinhas? Qual foi a primeira que surgiu?

Will Leite: No começo, quando criei o blog, eu não tinha personagem e nem série fixa. No primeiro ano de publicação, havia inclusive cobrança por parte de alguns leitores, que diziam que faltava um personagem fixo no blog. Mas eu insisti em continuar sem esse personagem. Aos poucos comecei a publicar tiras onde eu protagonizava a piada. Tiras “semi-autobiagráficas”. Aparecia nessas tiras a minha esposa (na época namorada). Surgiram ali as tiras do “Pior namorado do mundo”. Em seguida surgiu a série “Viva Intensamente”, onde eu relato o cotidiano (muitas vezes humano) vivido por cães. Essas tiras são publicadas sempre nas quartas-feiras. Depois veio a Anésia, personagem inspirada nas minhas avós. As publico sempre na segunda-feira. Em seguida surgiu o “Entendedor Anônimo”, que é uma sátira às críticas e críticos de internet. Essas não tenho data fixa para publicação. E por último, surgiu o “Astolfo, um gato num mundo cão”, que é um gato preto, azarado, que vive num mundo canino onde ele é o único gato. Essas eu publico sempre (e somente) nas sextas-feiras 13.

TOALHA-ELE-ELANesses sete anos teve algumas séries que eu não levei muito adiante: “Tirando da Cabeça do leitor” (onde eu criava tiras sugeridas por leitores) e “Estranho Ego” eram tiras quase como monólogos, onde eu conversava com minhas sensações.

AC: Entre essas histórias, tem alguma que você mais goste de desenhar?

AstolfoWill Leite: As tiras que aparecem eu e a minha esposa, eu percebo que são as que o pessoal mais se identifica. As da Anésia são as mais “queridas” pelos leitores, então são as que eu mais me sinto cobrado. As do “Viva Intensamente”, na minha opinião, são as mais difíceis de se elaborar. As do “Entendedor Anônimo” soam quase como piadas internas no blog. Quem visita o blog pela primeira vez e a lê, não pega a ideia. Publicar tiras do Astolfo é como fazer uma apresentação especial. Eu gosto muito de desenhar as tiras dele. São fáceis de pensar em ideias e eu procuro caprichar sempre, pois sei que só sairá outra depois de alguns meses. (risos). Mas acho que o carro chefe do blog é a Anésia.

AC: As tirinhas da Anésia são icônicas e as favoritas do pessoal aqui do Armazém! Você já disse uma vez que a Anésia é inspirada nas suas avós. E a Dolores como surgiu?

DoloresWill Leite: A Dolores surgiu para preencher a Anésia. Chegou um momento que eu notei que a Anésia não iria muito longe se não tivesse alguém para ela dialogar e expor sua chatice. O legal foi que as pessoas se identificam com as duas: pensam como a Anésia (na sinceridade) e agem ou tentam agir como a Dolores (na doçura). Sou de uma cidadezinha pequena do Paraná, Porecatu. Lá eu conheci uma senhorinha muito dedicada a vida religiosa, que era viúva, super querida por todo mundo da cidade (em especial a comunidade da igreja) que tinha o cabelo curto, porém liso, usava um óculos fundo de garrafa, com as bochechas caídas por conta da idade e justamente com esse nome: Dolores. Mas quando eu criei a minha Dolores, não tinha em mente de maneira clara essa Dolores de Porecatu. Mas acho que a doçura dela estava no meu inconsciente.

AC: A pergunta que não quer calar: O que a Anésia lê tanto nos últimos tempos? Que tipo de literatura você acha que combina com a personalidade dela? (Entenda aqui)

Will Leite: Pois é. De repente começaram a me perguntar isso no blog e eu me senti contra a parede. Haha. Eu não sei exatamente o que a Anésia lê. Mas como leitor e espectador das minhas tiras, e como quem conhece bem as inspirações da personagem Anésia, eu diria que ela lê aqueles livros escritos por padres, como Fábio de Melo, Marcelo Rossi, etc. É o tipo de livro que sempre vejo na casa da minha avó. Mas é contraditório isso, pois sabemos que não existe ninguém mais orgulhosa e auto-suficiente que a Anésia. Então por que ela estaria lendo esses livros de ajuda espiritual? Então conclui que ela, na verdade, não está lendo nada. Está fazendo de conta que lê, para que não lhe importunem. haha

AC: Além do “Will tirando”, você também já ilustrou a página “Contando Ninguém Acredita”  da revista Mundo Estranho. O que é mais difícil: ilustrar suas próprias ideias ou textos de outras pessoas?

Will Leite: Sem dúvida, disparado, de longe… é ilustrar ideias dos outros. Haha. Além de ilustrador, sou designer e convivo com outros profissionais da área. E somos unânimes em afirmar que, se uma ideia não é apresentada de forma certeira logo de cara, ou seja, se a primeira arte/ilustração não agrada na primeira apresentação, não adianta refaze-la. Ela pode ser aprovada, mas não encantará mais. E isso não acontece quando ilustro minhas próprias idéias. Além de que eu considero uma responsabilidade muito grande em colaborar em outras mídias, que não são minhas.

Revista Mundo Estranho

AC: Quais são suas principais referências? O que gostava de ler quando criança?

Will Leite: Acho difícil encontrar um quadrinista que não cite primeiramente o nome do Mauricio de Sousa. Ele ensinou o “bê-a-bá” do quadrinho para o pessoal da minha geração. Mas admiro muitos outros quadrinistas (principalmente os mais “antigos” na área): Adão Iturrusgarai, Laerte, Angeli, ZiraldoHenfil. Mas tem autores novos que admiro muito também: Fábio Coala, Carlos Ruas, Ricardo Tokumoto.

AC: Você é publicitário e os outras pessoas que entrevistamos para esse especial – Helo Pereira, jornalista criadora da “Helozinha” e Fernanda Nia, também publicitária criadora do “Como eu realmente” – e até o próprio Mauricio de Souza também já foi jornalista. O que acontece com esse pessoal de comunicação? Que encanto é esse com quadrinho? (pergunta a jornalista que queria desenhar, haha)

Will Leite: Pois é. E eu conheço outros cartunistas e quadrinistas que nasceram do meio da comunicação social. Eu acredito que essas áreas (publicidade e jornalismo) instigam e exigem muita criatividade. Além disso quem faz quadrinhos, parece ter a necessidade de expôr idéias, e encontra na comunicação social um caminho para se expressar. Ou de maneira mais pessimista, eu afirmo também que são jornalistas e publicitários frustrados e arrependidos que não deram certo como comunicadores. (risos).

VIVA-INTENSAMENTE-PATAS-SUJAS-PROVAS-DE-AMOR

AC: Muito obrigada pela entrevista Will! Para terminar, que páginas indicaria para quem curte seu trabalho?

Will Leite: Acredito que mais da metade do pessoal que acompanha o Will Tirando conhece o trabalho do Fábio Coala, com o “Mentirinhas”, as tiras do Carlos Ruas: “Um Sábado Qualquer”, e o Ryotiras, do Ricardo Tokumoto. São três quadrinistas que me inspiram muito. Outro quadrinista (esse não é brasileiro) que é referência para mim e para muitos é o argentino Ricardo Liniers, com as tiras do “Macanudo”.

E uma indicação para quem está começando agora no mundo das webtiras, eu recomendo o site “Café com HQ”, um podcast falando de webtiras, com dicas, relatos e discussão em torno do assunto.

Veja o processo de produção das tirinhas:

Conheça mais do trabalho do Will: Curta a página Will Tirando

* Nem todos os links são de páginas oficiais dos autores. Algumas são de editoras e outras de fãs que divulgam o trabalho

 

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