Abre Aspas / Música

Ana Larousse: A desenhista de melodias

De Curitiba para Paris, de Paris para o mundo, a cantora mostra sua solidão bonita nas canções que compõe

* Por Meiri Farias

 

Arte de Ricardo Galitski

Arte de Ricardo Galitski

A música de Ana Larousse tem a delicadeza de um desenho. Mas não confunda delicadeza com fragilidade, nesse caso é o contrário, aliás. Ana não tem medo e “veste o peito de coragem” em suas composições, também não tem vergonha de desnudar sua alma ou até mesmo o corpo para cantar e contar seus sentimentos.

Em “Tudo começou aqui”, a música transita por diversos temas como amor, desilusão, o tempo, partidas e principalmente solidão. Solidão essa que teve como cenário as ruas melancólicas de Paris, onde Ana morou e compôs boa parte das músicas que estão no disco.

Produzido por Rodrigo Lemos (Lemoskine e ex – A Banda mais bonita da cidade), o primeiro disco tem participações de Leo FressatoUyara Torrente (vocalista da Banda mais bonita). Quer entender o que está por trás dos cachos ruivos de Ana Larousse?

 

Armazém de Cultura: O clipe da música “Vai, menina” é muito corajoso. Não apenas pela nudez física, mas por sentirmos que você de certa forma desnuda sua alma nas canções. Como é esse processo para você? Muitos artistas comentam a dificuldade, e até certo “sofrimento” para compor, você passa por isso?

Clipe da música "Vai, menina"

Ana Larousse: Todo mundo sofre e todo mundo sabe disso. E cada pessoa tem suas maneiras de trabalhar alguma dor e se libertar dela. Mas eu não diria que escrevo para me libertar de alguma dor. É quase o contrário. Eu às vezes cultivo algum sofrimento e vou usando dele pra escrever e compor até alguma coisa bonita sair e, assim, poder jogá-lo fora. É quase um serviço que o sofrimento presta pra mim. Eu não sofro pra compor. Compor é gostoso, é libertador, é divertido, é instigante, é desafiador, é intenso. E não é sofrido. Muitas vezes eu tenho o primeiro contato com uma canção num momento em que estou sentindo algo grande que acho que pode ser interessante prum poema ou canção. Aí, depois dessa intuição, passo a encarar como trabalho mesmo. Pensar, escrever, polir, encaixar, experimentar. A cura dessa dor acaba acontecendo depois que uma obra cresceu dela. A dor toma outra forma e já não é mais minha. É da música, do texto, do público. E não, não sinto dificuldade pra compor. As canções me vêm de forma bastante natural. É claro que eu trabalho nelas alguns dias até sentir que está pronta pra desgrudar de mim. Mas isso não é difícil, é gostoso.

Quanto ao clipe de Vai, Menina… Foi transformador. Desde o momento em que tive a ideia até a execução dele.

AC: Você compôs as músicas do “Tudo começou aqui” em paris. A distância de casa e o contato com uma cultura diferente influenciaram a composição?

 Ana: Muito. No início, estava muito sozinha lá e me aproximei de mim de uma forma muito intensa. E esse excesso de conversa interna acabou tomando vida em milhares de letras e textos e poemas e canções. Foi quando comecei, de fato, a compor. Depois Paris virou casa, mas aí eu já tinha pegado no tranco e o gosto da coisa. Nunca mais consegui parar de compor. Minha fase inicial em Paris impulsionou isso em mim com muita força.

Foto: Página da artista

Foto: Página da artista

AC: Qual a canção que mais gosta do álbum e por quê?

Ana: Impossível responder isso. Mas eu posso dizer que o disco, pra mim, já está cansado. Compus mais de 50 canções desde que comecei a gravar esse trabalho. Então me sinto muito distante do que está no “Tudo Começou Aqui”. Mas existem quatro canções nele que serão imortais dentro de mim: Vai, Menina, Café a dois, A desenhista e A paz do fim. Eu acho que são canções muito boas e que não vão padecer com o tempo que há de passar por mim.

AC: Você é muito amiga e próxima musicalmente do Leo Fressato (que faz participações no seu álbum). Essa proximidade influencia sua musica?

Leo-e-ana

Leo faz diversas participações no disco, assim como a Ana no dele

Ana: Sim. Ele é a pessoa mais importante na minha história como compositora. Por tantas razões que nem me atrevo a tentar conta-las. Ele, apesar de mais novo, foi quase um pai pra mim nesse aspecto. Me incentivou demais demais demais. E me apontou esse lado meu que eu explorava pouco. Já tem tempo que peguei minha estrada e me emancipei (risos) Mas ainda nos inspiramos muito um no outro. Assim como acontece com outros amigos artistas com quem aprendo diariamente tanta tanta coisa. E o Leo me inspira, principalmente, pela leveza e facilidade com que ele compõe. Ele faz compor parecer uma brincadeira despretensiosa. E sempre lembro disso ao criar uma melodia.

AC: Fora o Leo, você já cantou com Phill Veras, a Banda mais bonita e etc. Além deles, quem você indicaria na música brasileira para que gosta das suas canções?

Ana: Lemoskine (a banda do querido amigo e produtor do meu primeiro disco, Rodrigo Lemos), Alexandre França (com quem tenho parceria numa canção que está no trabalho que estou gravando agora e é um compositor sensacional), Ian Ramil, Rodrigo Amarante, Phillip Long…

AC: Com frequência você posta textos na sua página do Facebook. A literatura, poesia, também influenciam seu trabalho? Quais autores e livros são seus favoritos?

Poema de Ana publicado no FacebookAna: Muito. Escrevo muito mais do que componho. Nem de longe me considero escritora. Mas uma “escrevedora” (risos). Gosto de criar imagens com as palavras, de brincar com elas, mas tenho pouca paciência pra elaborar algo mais longo e polido. Escrevo sempre meio que num brainstorm. Mas leio muito. A literatura me inspira muito mais do que a música. Gosto de palavras. Sempre gostei. Amo ainda mais que música. Sou meio caxias. Quando leio algum livro e gosto, quero ler todos os outros do autor (risos). Cristóvão Tezza está no topo da minha lista. Também curitibano e a literatura dele me mata. Garcia Márquez, Georges Perec, Fernando Pessoa (Alberto Caeiro em especial), Manoel de Barros, Zéfere (um grande amigo e o melhor poeta do mundo pra mim), Luiz Felipe Leprevost (também amigo, mas também entra nessa lista como entra o Pessoa. Não é pelo afeto, mas pela genialidade), David Foster Wallace, Baudelaire… Xii a lista é grande. Mas sabe, leio mais livros teóricos do que literatura… Então não conheço a fundo o trabalho de tantos romancistas ou poetas como gostaria.

AC: Para terminar, tem planos para voltar a SP em breve? O pessoal do Armazém de

Cultura está ansioso por um show seu aqui!

Ana: Sem data por enquanto, mas não devo tardar pra estar aí não. 😉

 

Ouça “A desenhista”:

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