Dica de segunda / Literatura / Questão de Opinião

Dica de Segunda: Eu Me Chamo Antônio (Pedro Gabriel)

*Por Beatriz Farias

A regra natural é clara: livro com figura é pra criança, texto é pra gente grande, certo? Errado, erradissímo (tão errado quanto essa palavra). Hoje mostro um livro que as únicas palavras que são seguidas de um texto são os agradecimentos: “Eu me chamo Antônio”. O resto é poesia.

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Acho interessante o uso da palavra ‘resto’, acredito que se o nosso querido Orkut ainda fosse habitado seria acusada de algum depoimento do tipo “você é de menos, porque o que sobra é resto, e resto é uma coisa que você não é” (você lembra disso, não negue). Eu me preocupo bastante com o resto e o quão especial é sua função para aqueles que escrevem poesia; seja ela num livro ou em canto da folha, quando não se está nos melhores dias de aula. Arrisco-me a dizer que a poesia só vem do resto, aquilo que não cabe mais dentro da gente, e o mundo precisa tomar ciência.

O livro é compacto, como que para carregar na bolsa e ir se maravilhando com o cotidiano; olhar a paisagem da janela, observar o desenho que as palavras bonitas que Pedro Gabriel escreve formam e perceber que beleza não significa palavras difíceis ou algo muito longe da nossa realidade. O autor que inaugurou a página em outubro de 2012 no Facebook, com a finalidade de compartilhar as frases e desenhos que escrevia no bar na companhia do chope, alcançou visibilidade e carinho o suficiente para lançar o livro no ano seguinte, mostrando que a rede social aproxima também, e alcança pessoas de lugares distintos, na situação em que se encontram. Lomogram_2014-08-18_10-29-20-AM

A minha primeira leitura deste livro inteiro durou mais ou menos uma hora; passei as páginas sedentas quão conclusas me eram: gosto da honestidade de quem não tem medo de escrever que ‘ama com a mais absoluta incerteza’, ou ainda que seja necessário ‘muita alma nessa hora’. Vivemos em tempo de decisões imediatas, tudo há um clique, nos tira o peso quando alguém admite a obviedade que é ser humano, e penso que a segunda leitura não acaba nunca, é exercício contínuo de coragem e identificação.

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Ao terminar, a sensação não se difere do que nos conta os vários estágios do amor, vivemos tanto quanto o moço apresentado, desde a ‘encantação’ até o momento de ‘despertar’ são muitas as decepções e encontros. Mas se por acaso nos demos o prazer de transbordar, a última página é uma oportunidade de deixarmos o nosso resto aqui também.

* Beatriz Farias não é formada, não tem curso superior nem vergonha de escrever em terceira pessoa fingindo que não é ela. Gosta de gostar das coisas e são dessas coisas que ela fala aqui.

 

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