Abre Aspas / Música

A elegância discreta (inquieta) na voz de Duda Brack

A jovem cantora e a necessidade de colocar a arte em movimento

*Por Meiri e Beatriz Farias

Há diversas formas de ser tocado por um artista. Alguns criam grandes espetáculos desde primeiro acorde, e há também quem chegue de mansinho, com cuidado. Uma definição não desmerece a outra, ao contrário, muitas vezes se encontram de forma intensa e cuidadosa como a brisa leve e mar agitado. Duda Brack é assim, um pouco calmaria, um pouco furacão.

Duda 1

Foto: Marcio Nunes

Gaúcha de berço, foi para o Rio para viver da forma como queria: fazendo arte. Duda chegou como quem não quer nada declamando o seguinte verso: ‘o seu desejo é que eu role do morro e morra’, da música Because Ousa, parceria dos músicos Dani Black e João Guarizo. Com apenas 20 anos, a cantora já participou de oito festivais defendendo a canção.

Duda faz parte da nova geração de interpretes que vivem o que catam “Escolho cantar no que posso tocar o intocável intocado. Escolho cantar o queria dizer e não consegui”

 

Armazém de Cultura: Oi Duda, tudo bem? Vimos que você participou da coletânea “Cofee & Novos Compositores”, a música ficou super bonita, parabéns! Pode contar um pouco mais como foi participar?

Duda Brack: Eita, obrigada! Fico feliz que vocês tenham gostado. O convite veio por parte da Dani Gurgel, produtora e curadora deste projeto (que é também cantora, compositora, musicista, fotógrafa, e que tem vários projetos incríveis com o intuito de pôr arte em movimento, como o “Música de Graça”). Ela recolheu faixas dos discos de vários artistas novos que ela gostava, mas queria colocar na coletânea também alguns artistas que ainda não tem disco. Estes foram: Barbara Rodrix, Juca Chuquer, Paulo Novaes e eu. Então ela resolveu nos convidar pra fazer uma faixa especialmente pra este projeto. Gravei “Quero dançar no final” (uma parceria – até então inédita – de Dani com o rei da melodia bonita, Pedro Altério), ao lado de Dani, Juca Chuquer e Gabriel Santiago (violonista solista que abrilhantou a faixa). Foi incrível participar. Só gente muito talentosa e generosa envolvida.

AC: E individualmente, tem planos para lançar um trabalho seu em breve?

Duda: Não só tenho como já estamos trabalhando nisso. Estou em processo de gravação. Acho que ano que vem teremos novidades por aí!

AC: Em 2013 você venceu o Festival Nacional da Canção interpretando a canção “Because ousa” (Dani Black e João Guarizo). Você acha que os festivais de música estão voltando a ser uma plataforma de divulgação para o artista?

Duda: Eu acredito que eles nunca deixaram de ser. As pessoas é que pararam de dar atenção a eles por conta de eles não terem mais tanto espaço e repercussão na mídia. Participei de oito festivais com essa música (entre julho de 2012 e dezembro de 2013) e foi das experiências mais incríveis que já passei nesta minha curta jornada musical. Eles possibilitam levar sua música pra lugares onde ela não chegaria sozinha, formar público nestes lugares, conhecer o trabalho de outros artistas do Brasil todo e estabelecer trocas e, sobretudo, sustentam o interesse pela produção autoral e inédita. Os festivais são das poucas iniciativas que ainda mantém a fagulha da canção brasileira acesa e estimulam a sua disseminação.

Foto: Marcio Nunes

Foto: Marcio Nunes

AC: Ainda sobre “Because ousa”, percebemos que você coloca muita verdade no que canta, mesmo não sendo uma composição sua. Como é a relação com as músicas que escolhe para interpretar?

Duda: É absolutamente passional. Externo aquilo que me atravessa, que me perfura. Escolho cantar o que me faz oxigenar a vida. Escolho cantar o que me faz cuspir a alma pela boca. Escolho cantar no que posso tocar o intocável intocado. Escolho cantar o queria dizer e não consegui. É um desafogamento. É absolutamente visceral.

AC: Além da música, você também posta poesias no seu Facebook, o que é bem interessante mostra o quanto a arte está presente no seu cotidiano nos mais variados aspectos. O que mais te influência nesse sentido, seja na música, literatura e nas demais manifestações artísticas que movem seu trabalho?

Imagem: Página Duda Brack

Imagem: Página Duda Brack

Duda: A música é só mais um braço. O que eu manipulo melhor – ou talvez o que eu me sinta mais segura manipulando. Me interessa o me fazer expressar; o parir sentidos; o significar a minha existência. Me interessa mais o que estou transmitindo e comunicando do que o canal em si. O canal é só o canal, o fio condutor. Acredito mais na arte do que nos ofícios. Escrevo quando preciso vazar o que sinto, e posto na minha página por pura necessidade de colocar arte em movimento e me conectar com as pessoas através disso. O faço despretensiosamente, embora eu tenha muita vontade de poder fazer algo de fato com isso um dia. E é assim que é pra tudo. Quero muito transar teatro, cinema, fotografia, poesia, arte contemporânea, e o que mais me der na telha, com mais profundidade, no futuro. De certa forma, acho que, de alguma maneira, já persigo a sinestesia de todos estes elementos no momento de compor o universo da obra – sendo a obra, aqui, qualquer simplório movimento extensivo que se manifeste a partir da necessidade de expressar. Sabe? Normalmente quando escolho uma música pra cantar, desenvolvo, no meu processo louco de criação, todo um universo daquilo, sabe? A música tem palheta de cor, cheiro, personagem, história, filtro, textura, roteiro, palavras, versos, semânticas. Existe uma rede de sentidos subjetivos e intenções tecida por trás de cada gesto.

AC: Para terminar, uma pergunta que sempre fazemos no Armazém: Se pudesse ouvir apenas um disco para o resto da vida, qual seria?

Duda: Ôxi. Eu li algumas entrevistas de uns amigos aqui no blog e fiquei fazendo figa procê não me fazer essa pergunta sacana e maldita. (risos) Juro que não sei te responder. Se eu escolher só um tem muitos que vão ficar de fora. Mas se a vida toda fosse o dia de hoje, acho que escolheria o novo disco da Rua, uma banda de Recife, que chama “LIMBO”.

Ouça “Because Ousa”:

 

 

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