Bienal do Livro / Especial Bienal do Livro / Literatura

“Sempre vai precisar que alguém conte histórias”

O encontro “Primeiras leituras para todas as idades” discutiu a importância da literatura infantil na 23º Bienal do Livro

* Por Meiri Farias

Com capacidade para receber 160 pessoas, o Salão de Ideias ficou repleto de rostos ansioso. Rostos esse que passaram cerca de uma hora na fila para conseguir ingressos. Rostos que variavam de idade, ideias, repertorio, mas com a mesma ânsia: Encontrar três nomes que representam a literatura infantil e infanto- juvenil brasileira: Eva Furnari, Pedro Bandeira e Ziraldo.

1 Cadeira

A primeira das quatro cadeiras (uma delas dedicada a João Luís Ceccantini, professor de literatura da Unesp e mediador da conversa) foi preenchida por Pedro Bandeira, que foi recebido euforicamente pela plateia. Uma garota com seus nove, dez anos de idade olha aflita para o escritor. Desvia para a mãe que balançava a cabeça incentivando e abraçava o livro que trazia em mãos “O mistério de Feiurinha”. Depois de alguns segundos de hesitação ela decide avançar e estende o livro para o autor. Ele sorri e autografa. Meio minuto depois, cerca de vinte pessoas seguem o exemplo da garota para horror da equipe de organização do evento.

3 - Ziraldo

Ziraldo

Eva Furnari é a segunda a chegar e também é recebida com entusiasmo. Falta apenas Ziraldo e Pedro brinca com a dificuldade do colega de passar  incógnito pelo Anhembi “Só se ele vier de Black bloc” Todos riem e quando a porta finalmente se abre, o criador do Menino Maluquinho é recebido com tanta ou mais euforia que os demais. Ao sentar comenta animado com a recepção “a gente sempre acha que não vem ninguém”, o ‘awnnn’ enche a sala.

Os avisos e normas de segurança são solenemente ignorados como sempre, e dezenas de celulares estão erguidos na tentativa de capturar qualquer fragmento da conversa. Ceccantini começa apresentando uma breve biografia dos convidados e trechos depoimentos dos mesmos para dar inicio ao debate. Eva é a primeira a falar, contando sobre seu método de ilustração e comunicação visual baseado na expressividade. A ilustradora abre então, caminhos para a discussão em torno do papel da imagem como elemento para narrar histórias. Ziraldo resume: “Desenhar é ver aquilo que ninguém vê”.

Pedro Bandeira

Pedro Bandeira

Para Pedro os personagens nascem ao pensar em uma imagem. Cita o.exemplo de Telmah, do livro “Agora estou sozinha”, sua versão adolescente de Hamlet. Quando criou a personagem, o autor visualizava a atriz Fernanda Torres. Sobre os Karas, série que começou a escrever em 1984 com o livro “A Droga da Obediência”, Pedro conta que os personagens nunca são bem definidos nas ilustrações “Eu quero que eles sejam desenhados na cabeça do leitor”, diz.

 Enquanto a discussão exalta a importância da imagem, Ziraldo declara o papel fundamental do texto verbal “Desenhar é muito bom, mas escrever é impossível”, conta explicando a dificuldade de terminar um texto, já que este sempre pode ser aprimorado.

Pedro insiste que o melhor da literatura é imaginar “Eu quero que meu personagem se desenhe dentro de si”. O autor ressalta que o personagem quando é publicado deixa de ser do autor e passa a pertencer ao leitor. Quando o tema muda para a discussão contemporânea que é a sobrevivência do papel, Pedro é enfático “Sempre vai precisar que alguém conte histórias”. Ziraldo completa falando sobre a mudança de plataforma “O livro vai sobreviver, o papel não”. 

4 - Eva

Eva Furnari

Um dos momentos mais tocantes da conversa é quando Pedro emocionado conta da época em que trabalhava como jornalista na ditadura e ao chegar cansado e estressado em casa, encontra o filho lendo Flicts, livro do Ziraldo. “Aqui tem dois grandes artistas e um fã” e para Eva “Você é a maior artista do texto sem texto”, completa.

Quando Ceccantini finalmente abre para perguntas, as frases não são interrogativas. Mais do que tirar dúvidas, o público quer agradecer e reverenciar os aristas presentes. Dentro desses agradecimentos, chama atenção uma senhora que assiste o debate pela janela, já que não conseguiu entrar. Ela ergue um cartaz onde se lê: “Pedro, obrigada a me ajudar a educar meus filhos”.

 A conversa termina com a discussão sobre o “autor-mito”. “Quando uma criança lê um livro que marca a vida dela, o autor não existe”, Pedro enfatiza a importância do momento onde o leitor e o escritor se encontra e da onde surge esse tipo de comoção. Os aplausos emocionados ao final ecoam o cartaz da senhora da janela, dizendo que sim, para quem cresceu com um livro embaixo do braço, o autor é um herdeiro super herói.

5 todos

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