Música / Questão de Opinião

Te conto o show: Estréia do Policromo em São Paulo, em 07/09/14 1ª sessão

Uma visão não crono(lógica) e extremamente particular do que foi o show do 5 a Seco na minha humilde opinião

* Por Meiri Farias e uma participação (levemente irresponsável) de Beatriz Farias

“Tão raro de se ver, param pra dizer para eu ser feliz pra lá”, o coro ecoa pelo Auditório do Ibirapuera. Não há mais ninguém sentado, uma pequena multidão se aglomera e por alguns segundos fomos também nós, extensão do palco, extensão do 5 a Seco.

Não espera, essa não é a resenha, o “Te conto o show” do lançamento de Policromo? O que raios o trecho de ‘Feliz pra cachorro está fazendo lá no início? Será que o pessoal do Armazém pirou no dada ou endoidou? Calma calma, caro leitor. De uma forma meio maluca, cheguei a conclusão que a melhor forma de reconstituir um pouquinho do que foi o aguardado lançamento do Policromo em Sampa, é pelo encerramento. Mas vamos por partes:

Foto: Gustavo Barreto

São Paulo esperou uma cara pela chegada do Policromo. Depois do temporal foi normal a correria pelo ingresso. Os fãs que já tinham concordado com a demora admitem que é a hora e quando o terceiro sinal toca, os mais atrasados entram apressados para ocupar seus lugares. É feriado da independência e o Auditório do Ibirapuera finalmente recebeu o laçamento do disco novo do 5 a Seco, coletivo de compositores que dispensa qualquer apresentação se você for leitor minimante atento do Armazém. O Auditório recita as recomendações de praxe e a luz cai enquanto o os meninos são anunciados e a plateia está eufórica. Mas as cortinas não se abrem ainda. Um segundo de silêncio até se ouvir o “Ouô” de ‘Geografia sentimental’ e agora é oficial: O Policromo está entre nós.

Com as cortinas abertas o show começa a crescer e tomar forma, menos violão e mais tecnologia envolvida para criar efeitos que reconstruam ou incrementem os que foi apresentado no CD. Embora ache que o Policromo é um disco impecável, ainda preferia claramente o “Ao vivo no Auditório do Ibirapuera” e agora entendo o porquê. A questão está no ao vivo. O segundo disco é sensacional, bem feito, bem produzido e belíssimo. Mas você só pode compreender o trabalho do 5 a seco ao vê-los no palco.

Para começar, é preciso lembrar a relação próxima que o coletivo tem com esse palco em especial. O 5 a seco já tocou no Auditório inúmeras vezes, como lembrou Vinicius Calderoni logo no início do show, inclusive na própria gravação do DVD. O teatro do Auditório é espaçoso sem deixar de ser aconchegante e causa aquela sensação de conforto e próximidade com os músicos. Infelizmente o elogio ao AudIbira fica um pouco afetado pelo desencontro de informações durante a venda dos ingressos. Enquanto o site dizia que as vendas começariam em breve, a Ingressos.com já havia liberado e muitos fãs foram prejudicados, por não saber que já podiam garantir seu lugar no lançamento do Policromo. Com as reclamações e pedidos, o que era esperado aconteceu: Mais uma sessão do show às 21h.

Foto: Regiane Alves

Se por um lado a sessão extra é uma iniciativa conciliadora e dá a oportunidade de mais pessoas comparecerem ao show, por outro a primeira sessão é levemente prejudicada. Em pleno domingo e feriado é um pouco difícil encaixar dois show em apenas uma noite. Houve pressa sim: diferente do habitual, os meninos evitaram fazer comentário entre as músicas e o vem e vai na troca de instrumento foi mais acelerada do que o normal. Mas houve momentos de exceção e a plateia também contribuiu para deixar o local descontraído. A iluminação é um show a parte. Fazendo jus a nome “Policromo”, as luzes se mesclam e interagem de acordo com a música. De forma sútil ou intensa, ajuda a compor e enriquecer a apresentação.

Os arranjos para a execução das músicas ao vivo dão nova cor a essa já existente “policromia” de sonoridades. Canções como ‘Geografia sentimental’, ‘Festa de rua’ e ‘Passo a passo’ ganham em intensidade e definitivamente são valorizadas na versão ao vivo. Já as músicas do álbum anterior (Nó, Pra você dar o nome, Deixe estar, Faça desse drama e Feliz pra cachorro) empolgam bastante a plateia. É preciso fazer um adendo no caso de ‘Pra você dar o nome’: No meio da canção, Tó Brandileone para de cantar e deixa que o público continue. A comoção é notável dos dois lados.

Foto: Marília Simonič

Agora um apelo: Realmente gosto muito do Auditório e acho confortável e aconchegante. Mas como assistir 5 a seco sentada? como?! Vamos lá pessoal, vamos combinar que não existe possibilidade racional de ouvir “Nem Tchum” sentadinha e calma! Leo Bianchini mostra que de cima do palco ele é sim número e mostra o porquê da música já ser uma das queridinhas do público: é divertida, é inteligente e tem assinatura e identidade do 5 a seco.

O mesmo pode ser dito sobre ‘Eu amo Djavan’, com o Tó . Se há alguma confusão com a letra complexa, ele compensa em carisma, afinal cantar é tão bom, entender pra quê? Ninguém se diverte tanto no palco quanto, e é impossível não se divertir junto com suas dancinhas e comentários ácidos. Aliás é na sua voz em parceria com Pedro Alterio que o show chega ao momento mais “sereno”. Nas canções ‘O sonho’ e ‘Ninguém nem eu’, é interessante notar a dinâmica entre Tó e Pedro: No CD anterior eles já cantavam uma música juntos, “Se toca”, que tem uma pegada completamente diferente do que apresentam em Policromo. É o momento mais delicado do show. O momento de respirar (suspirar) ao perceber que a beleza está naquilo que há de mais simples.

Foto: Thais Andrade

Os suspiros são audíveis também quando Alterio assume o microfone sozinho, em sua relação embraçada feito nós com o violão, a música que não está entre as favoritas do CD fica encantadora. Muito em parte pela interpretação de Pedro que definitivamente se entrega ao que canta. Mas no Policromo, Pedro se destaca mesmo é por meio das parcerias. Seja com o Tó, como acabei de citar ou com Pedro Viáfora. ‘Passo a passo’ (que já havia citado no início) e principalmente ‘Veio para ficar’ são responsáveis por momentos memoráveis do show, a última de forma especial já é familiar ao público que canta e se entrega junto.

Foto: Marília Simonič

Viáfora, que geralmente é o mais discreto dos Secos no palco, protagoniza um dos momentos mais engraçados da noite. Quando começa a cantar ‘Épocas’ algo está estranho. Os outros se entreolham e descobrem o problema: Pedro se confundiu e começou a tocar com o instrumento errado. Os pequenos momentos de atrapalhamento dão leveza e descontração ao show.

Como a Ana Clara já tinha contado na resenha sobre o show no Rio, Vinicius se mostra sempre completo e preparado. Seja experimentando novos instrumentos ou interpretando suas composições, Vinicius mostra sua versatilidade e faz da épica ‘Não tem paz’ um dos melhores momentos do show, tudo o que era antes vira nunca mais.

Obviamente não vou conseguir falar detalhadamente sobre cada música, mas é importante destacar que ouvir ‘Nó’ nesse show é especial. Na verdade é sempre bom quando o artista se esforça e unir o novo trabalho ao anterior, é importante porque o fã não se desvincula fácil do primeiro disco (digo isso de forma particular, mas imagino que muita gente concorda). O 5 a seco conseguiu apresentar o novo trabalho em nova forma, com muitas mudanças e produção muito mais elaborada. Mas também conseguiu se manter fiel a mensagem original do coletivo de unir o talento e caracteristicas individuais de cada um, atando os dois discos que formam a identidade do 5 a seco. Citei ‘Feliz pra cachorro’ no início do texto, pois foi exatamente assim que a primeira sessão do lançamento do 5 a seco terminou: Fãs em pé aclamando o novo trabalho em um bis meio proíbido, já que a segunda sessão estava próxima, cantando e aplaudindo feliz pra cachorro, contente pra burro, mas também absorvendo a infinidade de cores do Policromo que mostrou que veio pra ficar.

Foto: Rodrigo Rosa

 

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