Abre Aspas / Música

Chuva a granel traz na gaita afinada influência da música brasileira e do Blues

A banda de Minas Gerais é mais um exemplo de como o financiamento coletivo vem modificando a forma de produzir e consumir música 

* Por Meiri Farias

O que o Mari Salvaterra, Oritá, Paulo Novaes e o João Guarizo tem em comum além do talento para música? Todos optaram pelo crowdfunding como forma de conseguir recursos para desenvolver seus projetos. Mas o que temos notado é que a relação proporcionada pelo financiamento coletivo transcende a simples arrecadação de dinheiro e faz com que os fã (geralmente chamado de apoiador), participe de forma cada vez mais ativa do processo de produção dos trabalhos do artista.

Foto: : Mariana Oliver

É o caso dos mineiros da banda Chuva a granel, formada em 2008,  que traz referências que vão das divas do Jazz como Aretha Franklin ao rock progressivo passando pela música brasileira em toda a sua diversidade. Essa mistura origina uma sonoridade que é um pouco MPB, um pouco Blues com a gaita de Filipe Gaeta como marca registrada.

Utilizando o crowdfunding, a banda conseguiu não apenas financiar o EP “No ar, dentro da caixa”, mas também encontrar colaboradores na produção, fotografia e backing vocals. Até mesmo o video clipe da música “Achados & perdidos” surgiu como presente da apoiadora Thiara Momoda. Confira a entrevista com Jardel Rodrim (guitarra e violão) e Karine Amorina (voz):

Armazém de Cultura: Como foi o início da banda “Chuva a Granel”? Como se deu o encontro entre os integrantes?

Jardel Rodrim: A banda começou com uma formação muito diferente da que temos hoje. Karine e eu nos conhecemos no grupo Rosa dos Ventos, um grupo com muitos integrantes. Iria ter uma espécie de audição dentro desse grupo. Juntamos mais duas pessoas e montamos um pequeno repertório. Eram dois cantores e dois violonistas. A coisa foi se desdobrando e, alguns anos depois, conhecemos o Felipe Gaeta em uma escola de música que dávamos aula. A gaita levou a banda a novas possibilidades e tornou o blues uma sonoridade sempre presente. Serviu como uma espécie de elemento unificador. Dentro dessa nova ordem de coisas, foi praticamente natural a entrada do tecladista Hugo, professor da mesma escola. Com ele veio a sonoridade progressiva que hoje tanto acrescenta nos arranjos. O Mário Lúcio era batera do Belmiro Bando, onde também já tocamos juntos. Dedicado à música autoral como é, topou na hora. E por último, o baixista Igor, que convidamos pra um show e ficou.

AC: Aliás, por que “Chuva a Granel”?

Jardel: O João do Vale, compositor maranhense, diz em uma de suas canções, esperançoso de que a seca acabe no sertão: “vai cair chuva a granel”. O nome dessa música é Ouricuri, e ela estaria presente naquela primeira apresentação da banda. Ela acabou não entrando para o repertório, mas o nome ficou.

Capa do EP “No ar, dentro da caixa”

AC: O EP lançado em abril foi desenvolvido via financiamento coletivo e temos percebido cada vez mais o aumento do número de artistas que opta por esse meio para lançar seus projetos. Além da facilidade para o artistas, vocês notam uma vontade do público de participar, se aproximar mais da música de vocês?

Karine Amorina: É mais que uma facilidade para o artista, muitas vezes é uma necessidade. O mecanismo de leis de incentivo está cada vez mais fechado e viciado e, nesse contexto, o financiamento coletivo acaba sendo a alternativa mais palpável para realização de alguns projetos culturais.

Você conta com ajuda de amigos, familiares, conhecidos e fãs, e consequentemente aproxima ainda mais essas pessoas da banda. Esse tipo de projeto gera um sentimento poderoso “de fazer parte”, formando imensas correntes de colaboração. A coisa vai se se desdobrando naturalmente e sai do status de ajuda financeira para se transforma em um coletivo de trabalho.  Muitos dos apoiadores (nome dado ao público que comprou a cota de patrocínio) acabaram se envolvendo em diversas funções ao longo do projeto e somando ações. O videoclipe, por exemplo, foi presente da apoiadora Thiara Momoda. Os backing vocals, o maquiador, as assistentes de produção, os fotógrafos, músicos convidados, todos eram apoiadores. Fora as parcerias que surgiram ao longo do projeto ou se fortaleceram, como a produção musical, que foi um presente do Lucas Sagaz. A assessoria de comunicação e imprensa foi presente da Lúcia Santos, que hoje em dia é uma espécie de sétimo integrante da banda. Transformamos uma equipe de seis pessoas em uma com mais de duzentas.

AC: O clipe da música ‘Achados & Perdidos’ é bem interessante por promover dialogo tanto pela letra e enredo quanto com a parte visual e a sonoridade. Vocês podem contar um pouquinho sobre como foi a produção?

Jardel: O clipe foi um presente da Thiara Momoda, que o idealizou como um trabalho de conclusão de uma disciplina na faculdade. Ela, o Júlio Réis, a Karine Amorina e a Lúcia Santos fizeram alguns encontros pra definir o roteiro. Utilizaram umas ideias antigas que a Karine tinha pra um videoclipe dessa música e várias outras sugestões do Júlio. Escolheram localidades de Belo Horizonte pra filmar as cenas externas. As internas foram as que mais deram trabalho pela técnica envolvida. O bonito desse clipe é que ele reforça a metáfora presente na letra sem ser redundante. Chega a ser quase um outro poema visual por sobre a poesia da letra de Achados & Perdidos.

Ouça “Achados e perdidos”:

O que podemos esperar da banda “Chuva a Granel”? Quais são os planos daqui para frente?

Karine: O segundo disco já está engatilhado. Já tem nome e capa, as músicas já estão em processo e a ideia é iniciar a gravação ainda ano que vem. O momento agora é de busca de condições financeiras para a gravação desse material. Tentaremos as leis de incentivo, como todos os anos, mas se não rolar vamos seguir com a ideia de financiamento coletivo, pois sabemos que dá certo. Enquanto isso, vamos divulgando aos pouquinhos nosso primogênito. Com a ajuda dos festivais, que sempre dão muita visibilidade e da internet que aproxima muito o público.

Foto: Página oficial da banda

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