Abre Aspas / Música

Trupe Chá de Boldo: “São Paulo nos afeta, nos transforma, nos revolta e nos inspira”

Para animar os dias de ressaca ou fazer uma crônica moderna experimental da cidade, a Trupe faz um som moderno e cheio de referências da Vanguarda Paulista

* Por Meiri Farias

No início eles tocavam marchinhas clássicas e versões de Caetano Veloso, Sidney Magal, Jorge Mautner em meio a composições próprias. Hoje, depois de dois trabalhos autorais lançados, a Trupe Chá de Boldo conta com treze músicos e infinitas referências que vão do rock ao samba, do pop ao carimbó, do eletrônico à tropicália.

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Foto: Mariana Degani

Conversamos com Marcos Grinspum Ferraz, saxofonista da Trupe sobre referências, formação e a relação com a cidade de São Paulo que transparece em músicas como “No escuro”, a Estação da Luz e a Avenida Paulista

Armazém de Cultura: Como é o processo de composição da banda com tantos integrantes? Tem um compositor fixo ou todo mundo colabora de alguma forma?

Marcos Grinspun Ferraz: Não existe uma regra, mas se você observa o “Bárbaro” (2010) ou o “Nave Manha” (2012), a grande maioria das músicas é do Gustavo Galo, mesmo que tenha sempre algumas parcerias dele com outros membros da banda (o Pedro Gongom, baterista, a Ciça Góes e a Julia Valiengo, cantoras…), ou gente de fora, como a poetisa Alice Ruiz. Já no disco que estamos gravando agora, que será lançado em 2015, as composições tem autoria mais variada. Tem sido um processo interessante, e isso também deve dar uma cara diferente para o trabalho. Têm músicas do Galo, do Tomás Bastos, da Julia, uma parceria do Gustavo Cabelo com a Iara Rennó, uma parceria do Galo, da Ciça e do Felipe Botelho com o Marcelo Segreto, uma outra do Galo com os percussionistas Rafinha Werblowsky e Guto Nogueira… Ah, tem inclusive uma música feita coletivamente, por todos, além de uma versão de uma canção do Negro Léo, um cara que a gente admira muito.

Quanto aos arranjos, são feitos sempre coletivamente, em processos por vezes um tanto enlouquecedores, mas também muito prazerosos. É preciso desenvolver uma “sabedoria” grande para criar conjuntamente em uma banda de 13 pessoas. Isso envolve “abrir” os ouvidos, ser atento às ideias dos outros, ter desapego em certos momentos… E se estamos juntos até hoje, é porque, de algum modo, estamos sendo bem-sucedidos nesse sentido!

AC: A mistura de ritmos e instrumentos apresenta uma sonoridade única e muito própria de vocês. Quais são as principais referências nesse trabalho?


Marcos: A formação instrumental da Trupe, por si só, já é algo bem peculiar. Três saxofones, quatro vocais, duas percussões e por aí vai. Quase uma orquestra. E até por essa quantidade de gente, as referências também são infinitas. Existem algumas que acho que são compartilhadas por todos (ou quase todos), que vem de nossa formação musical, e por isso costumamos citá-las: são a Vanguarda Paulista de Itamar Assumpção, Arrigo barnabé, Rumo e Alzira E; a tropicália de Gil, Caetano, Tom Zé, Macalé e Wally Salomão; os Novos baianos; o rock dos anos 1980 de Titãs, Paralamas e Gang 90, e assim por diante. Isso falando apenas nos brasileiros. Nos influencia muito também o som que é produzido atualmente, pelos nossos contemporâneos. A Trupe, na verdade, gosta mais de olhar para o presente do que para o passado. Tatá Aeroplano e o Cérebro Eletrônico, Peri Pane, Daniel Viana, Bixiga 70, Tulipa Ruiz, Negro Léo, Iara Rennó, Céu, Pélico, Leo Cavalvanti, Meno del Picchia, Do Amor, Metá Metá, Samba do Bule, Filarmônica de Pasárgada, Garotas Suecas… muita gente. Tem também um pessoal um pouco mais novo, como O Terno, Memórias de um Caramujo, Charlie e Os Marretas, Primos Distantes…. é uma lista que não acaba. Muita coisa boa.

E para além disso tudo, têm os gostos particulares (e peculiares) de cada um, que são sempre levados para dentro da banda. Eu ouço muito música dos Bálcãs, o Bastos tem uma ligação forte com a música brasileira de raiz, o Galo tem ouvido e estudado John Cage, a Ciça anda curtindo muito cúmbia e música latina, o Gongom conhece mais música eletrônica do que todos nós, o Cuca tem um pé forte no afrobeat e por aí vai.

AC: Em entrevista para o blog “verborragia conveniente”, vocês disseram que “São Paulo é uma das musas da Trupe Chá de Boldo”. Poderiam contar um pouco mais sobre essa inspiração que vem da vivência na cidade?

Com suas graças e desgraças, São Paulo é nossa casa, é onde vivemos e atuamos. Adoramos pegar a estrada e sair para outros lugares, mas depois é para São Paulo que voltamos. É uma cidade muito conservadora em certos sentidos, com sua polícia violenta, desigualdade gigantesca e uma elite tantas vezes ignorante, quase fascista. Mas é, paradoxalmente, um lugar cheio de música, cinema, teatro, literatura… ou seja, vida. São Paulo nos afeta, nos transforma, nos revolta e nos inspira. “No escuro”, por exemplo, que cita a Estação da Luz e a Avenida Paulista, foi composta pelo Galo no dia do apagão. “A Rolinha e o Minhocão”, com humor, brinca com o prazer na rua Augusta em contraposição à falta de prazer de ficar sob um engarrafamento no Elevado Costa e Silva, o Minhocão. Elevado que ainda por cima leva o nome de um ditador. “Amores Vão”, música que estará no novo disco, fala das musas de Adoniran Barbosa, o mais paulistano dos sambistas. Compusemos “À Lina”, acho que em 2009, às vésperas de tocar no Teatro Oficina, de Lina Bo Bardi, um espaço de liberdade em meio a uma cidade com tantos muros. E a Trupe espera, nesse sentido, que essa cidade seja cada vez mais um espaço de liberdade.

AC: Para terminar, uma curiosidade: De onde vem o nome da banda?

Marcos: A Trupe surgiu, há cerca de 8 anos, com a ideia de tocar apenas nos dias seguintes das grandes festas, para animar os dias de ressaca. Para explicar, acho que nada melhor do que o texto que o cronista Carlos Conte (um dos fundadores da banda) escreveu, lá atrás, em 2008: “Sim, o senhor sabe o que é ressaca. É acordar com as costas tostadas e a cara enfiada na areia. É não se lembrar, nos primeiros vinte segundos, do apartamento em que está, com quem dormiu; é ter sede demais, é dizer que nunca mais, é se arrepender. Mas a Trupe não se arrepende. É a revolta contra a ressaca! Entende? Para curar esse mal, temos o Boldo. (…) O trio Chá de Boldo transformou-se em quarteto; a entrada de novos músicos era inevitável. De banda passamos a bando, trupe, enxame, alcateia, quadrilha, matilha. Mais do que músicos, amigos, inimigos da apatia moral”.

Foto: Ana Clara Martins Tenório

Foto: Ana Clara Martins Tenório



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