Dica de segunda / Literatura / Questão de Opinião

Dica de Segunda: Sentimento do Mundo (Carlos Drummond de Andrade)

 *Por Beatriz Farias

Sim amigos, tenho plena consciência da responsabilidade que se assume ao se falar de qualquer obra, quanto mais algo de tanto peso para a literatura como “Sentimento do mundo”, do Carlos Drummond de Andrade, mas aqui deixo minha observação especial, caso nunca tenha lido o ‘sobre’ no final: não sou formada. Não falo de técnicas, métrica ou o que é certo e errado. Admiro o conhecimento de quem tem, e espero um dia chegar lá, porém do que vos falo hoje e normalmente, é dos sentimentos que algo como esse pequeno exemplar pode propiciar.

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Apelidado carinhosamente por minha pessoa de ‘o livro dos corações vulcânicos’ não vejo citação que se assemelhe mais do que a sensação deixada ao lê-lo. Leitura nem sempre vem fácil ou agradável: tem frase que pesa mesmo, é preciso ler duas, três vezes, não deixar o detalhe passar.

A descrição conta que o livro foi publicado em pequena tiragem, entregue a amigos e conhecidos. Acho de muito bom gosto a informação, que só deixa mais claro  a assimilação de quem lê: Drummond faz um pedido de socorro, imprime e entrega a quem julga merecer, (pedido esse que não significa lágrimas e mais lágrimas, e sim momentos de alegria, que só destaca mais o grito que é mostrado). O livro que estou lendo atualmente faz uma menção inteligente à qualquer leitura: o autor escreve aquilo que transbordou do seu sentimento, o olhar é importante, mas o que devemos nos atentar é o que não está escrito, já que aí se guarda a maior explicação. Me tomo de uma sensibilidade por mim e pelo autor, quando já nos primeiros versos ele exclama: “Tenho apenas duas mãos/ e o sentimento do mundo,/ mas estou cheio de escravos,/ minhas lembranças escorrem/ e o corpo transige/ na confluência do amor”. Se o que os meus olhos flagram sem grande atenção é capaz de lembrar dor de infância, de velhice e de coisa não vivida, que dirá o que se sentiu sozinho, o que se percebe no espaço vazio entre uma linha e outra. E é dessa volta toda que se percebe: as 150 primeiras pessoas que receberam o livro não foram capazes (ou foram até demais) de tanta vida, tanta coisa guardada em tão poucas folhas, que foi necessário nova tiragem. E da nova tiragem, mais pessoas que entenderam de menos ou de mais e inventaram nova edição, e assim por diante, até chegar no exemplar que tenho na minha estante, dado de presente pela minha irmã, que um dia me viu fazer um teste bobo, que deu como resultado que sou o poema “Os Ombros Suportam O Mundo”

Veja bem, não acrLomogram_2014-09-29_10-20-47-AMedito em testes ou horóscopos. Sou plena consciência das respostas prontas. Mas aí está o momento de percepção. E então ganhei o livro, e o livro foi lido num misto de dificuldade da certeza de  reconhecimento com a facilidade de uma criança que recolhe conchinhas na areia. E agora passo para quem se sentir no direito de reconhecer o tanto de coisa que cabe dentro de si e não sabia, e aqui não falo de livro ou qualquer espécie de auto-ajuda, que fique bem claro.

Por fim, gosto da capa, gosto dele ser de bolso e fácil de carregar pra lá e pra cá, e gosto indiscutivelmente das duas folhas em branco que sobram no final, como que em toda sua inteligência e sensibilidade, Drummond (que nome bonito esse homem tem!) esqueceu de falar algo importante, e deixa aí a disposição de quem quiser dizer. Brindemos então a quem diz, à vida sem mistificação.

* Beatriz Farias não é formada, não tem curso superior nem vergonha de escrever em terceira pessoa fingindo que não é ela. Gosta de gostar das coisas e são dessas coisas que ela fala aqui

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