Abre Aspas / Música

Memórias de um Caramujo: Cheio de gente, cheio de histórias, cheio de criatividade

“Nas costas de um caramujo, uma casa imensa”

* Por Meiri Farias

Nunca foi tão difícil definir a música brasileira. E nunca foi tão desnecessário. Algumas bandas que entrevistamos nas últimas semanas como Filarmônica de Pasárgada e Trupe Chá de Boldo explicam bem essa movimentação que vem modificando a forma de compor e compreender a música. E dentro dessa geração criativa e despida de rótulos que surge a banda Memórias de um Caramujo.

Foto: Página da banda

Formada em 2007, a banda lança seu primeiro disco de estúdio “Cheio de gente” que mantém o ecletismo de gêneros dos anteriores, mas aprofunda o trabalho de composição e o arranjos, o que gera resultados tão criativos e diferentes entre si como a densa Rio e a divertida Nina.

Conversamos com Gabriel Milliet, do Memórias sobre o disco novo e a forma de produzir e consumir música hoje. Confira!

Armazém de Cultura: Vocês já dividiram o palco com representante da nova geração da música como Pitanga em pé de Amora e Filarmônica de Pasárgada. Vocês enxergam o surgimentos de uma nova cena na musica brasileira? Menos apegada a rótulos e dedicada a misturar e experimentar mais?

Gabriel Milliet: Vejo algo querendo se estabelecer no que diz respeito a forma de encontro entre os criadores e os apreciadores de música – algo que tem a ver com a internet, as casas independentes e pequenas de show, a produção independente de conteúdo musical. Mas não sei se é uma cena. Sem dúvida muitos grupos e artistas novos com trabalhos criativos tem aparecido, e a sensação é de que isso acontece mais do que “antigamente”, tenho esperança de que isso seja mais um sintoma do novo universo produtivo musical do que uma cena específica. Rótulos sempre foram uma questão mais das prateleiras do que das mentes criativas, e a música brasileira sempre esteve muito relacionada a mistura e experimentação – seja num arranjo de orquestra para música popular do Radamés Gnattali na era do rádio, seja no tropicalismo, no rap do capão redondo, na música paulistana dos anos 80, na música instrumental… Penso que mais do que nunca podemos sedimentar a mistura e a experimentação como tradição, e não revolução, na música brasileira.

AC: O que muda no “Cheio de gente” em relação aos trabalhos anteriores?

Foto: Página da banda

Gabriel: O “Cheio de Gente” é nosso primeiro disco de estúdio, e isso muda tudo! Grande parte da música que nos inspirou a fazer música junto é “música de estúdio”, e por isso sempre quisemos essa experiência das ferramentas de produção musical enquanto ferramentas criativas. No disco temos participação de um quarteto de metais, um quarteto de cordas (na verdade 3 violinos e um cello), de vários amigos e do Gui Jesus Toledo, que produziu o disco conosco e se tornou cabeça criativa do trabalho também, na gravação e na mixagem. Comparando ao primeiro disco da banda vejo que o ecletismo de gênero continua presente, mas o trabalho de timbres e arranjos possível no estúdio nos ajudou a aprofundar a forma como nos apropriamos dos gêneros; poder escolher como gravar cada música nos deu mais liberdade, daí resultados tão diferentes como as músicas “Rio” (gravada quase inteira ao vivo) e Nina (que gravamos uma guia com violão, batera e baixo e fomos aos poucos substituindo tudo por dublagens de cordas, metais, guitarras, teclado e mpc – do violão original restaram uns 5 segundos).

AC: Além de lançar o CD no formato tradicional, vocês também produziram um LP e disponibilizam as músicas para download. É como ir do que há de mais clássico ao mais moderno. Poderiam comentar um pouco sobre essa convergência de mídias?

Gabriel: Cada mídia tem seu significado específico, inclusive no que diz respeito ao significado da música enquanto produto artístico e social. O CD acabou virando um cartão de visitas, os arquivos digitais são nossa aposta para a maior distribuição possível da música que fazemos, e o LP nossa vontade de que essas músicas sejam compreendidas num todo. Tem um artigo muito legal sobre isso que o Lorenzo Mammi escreveu pra revista Piauí de fevereiro. Me falta poder de síntese e clareza pra dizer o que está lá, mas no último parágrafo ele diz que talvez estejamos agora tomando consciência de que “o LP não foi apenas um suporte, mas uma forma artística”, e acreditamos bastante nisso. Queremos convidar os ouvintes a experienciar o disco como um todo, e não apenas selecionar as faixas que fazem mais seu gosto.  Nessa empreitada do vinil estamos junto com a galera do Selo RISCO, idealizado pelos parceiros Gui Jesus Toledo e pelo Guilherme Giraldi (baixista do Charlie e os Marretas), e muita gente tem procurado a gente querendo fazer vinil. Fora do Brasil também rola muito isso, então acho que a tese do Lorenzo Mammi sobre o status do LP tende a se confirmar.

Foto: Página da banda

AC:No texto do site, Mauricio Pereira fala sobre a “paulistanidade” da música de vocês  “me conta que dum jeito paulistano de fazer a música brasileira. Conta que, mesmo cheia de influências e informação (como, afinal, é a vida em São Paulo), uma canção pode ser lírica, lúdica, original, saborosa. Singela” Vocês identificam a vivência na cidade como influência na composição da banda?

Gabriel: Quando o Maurício fala dessa paulistanidade me vem a vocação cosmopolita da cidade, a engrenagem urbana de deglutir influencias externas, e nesse sentido a vida em São Paulo é central pro nosso jeito de fazer música. Mas vejo que tem gente fazendo música em que essa vivência é mais explícita, muitas vezes até nas letras. Penso que a Filarmônica de Pasárgada é um bom exemplo, tem aquela música “Muro, Muro, Morumbi” e aquela “São Paulo São” só pra citar duas.

AC: Além dos artistas que já citamos, que outras referências influênciam a musica do Memórias de um Caramujo? E da cena atual, o que indicariam para quem gosta da música de vocês?

 Gabriel: Do cânone pop eterno temos que citar Beatles, Pink Floyd, Milton Nascimento e o Clube da Esquina, Elis Regina, Crosby Stills Nash & Young, Frank Zappa, Mutantes, Secos e Molhados. Daí tem também a vanguarda paulista, que eu citaria principalmente o Grupo RUMO e o Premeditando o Breque. Da cena atual também tem muita coisa, Filarmônica de Pasárgada, Apanhador Só, Meta Meta (e todo os outros trabalhos dos três integrantes), Noite Torta, Garotas Suecas, O Terno, João Taubkin, Porcas Borboletas, Siba, Banda Baleia, Dirty Projectors. E tem muito mais.

AC: Para terminar, uma pergunta que sempre fazemos no Armazém: Se pudesse tivesse que escolher apenas um disco para ouvir, qual seria?

 Gabriel: Pergunta cruel. Vai valer só por mim, o “Make a Jazz Noise Here” do Zappa.

Ouça “Tribo dos Homens”:

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