Abre Aspas / Música

Rodrigo Del Arc: Som universal com raízes brazucas

A música brasileira se mostra cada vez mais aberta a mistura e dispensa rótulos

* Por Meiri Farias

A pluralidade de influências da música brasileira sempre gerou curiosidade internacionalmente. Não é por menos que “Garota de Ipanema”, parceria de Tom Jobim e Vinicius de Moraes é a segunda canção mais tocada da história (atrás somente de Yesterday do Beatles).

Essa mistura está presente no trabalho de Rodrigo Del Arc, que tem cinco anos de estrada como músico, mas compões desde os onze. Influenciado pela Bossa Nova (incluindo o próprio Tom Jobim) e ritmos regionais, Del Arc já lançou seu disco em países como Japão e Coréia.

Foto: Jean Paulo Lasmar

Foto: Jean Paulo Lasmar

Com algumas composições em inglês, mas sempre valorizando sua essência “brazuca”, o músico carrega a multiplicidade cultural dos diversos lugares onde morou “Para mim, ‘Toda unanimidade é chata’,  o que torna tudo interessante e excitante são justamente as diferenças”

Armazém de Cultura: Como foi o seu “despertar” para a música?

Rodrigo Del Arc: Comecei a viver profissionalmente de música em 2009 quando lancei meu primeiro disco, “A Kind of Bossa”, mas já era músico a muito mais tempo. Aos 11 escrevi e compus minhas primeiras letras e melodias, e aos 15 formei minha primeira banda. De carreira tenho 5, mas de “estrada” diria que tenho pelo menos 14. Curiosamente ninguém da minha família é musico, talvez eu seja “a ovelha negra da família” neste quesito.

AC: Mesmo com algumas canções em inglês, a sonoridade da sua musica é bastante brasileira. Pode comentar um pouco sobre essa mistura de referências?

Rodrigo: Desde muito pequeno tenho um apreço especial para as músicas da Bossa Nova e talvez essa atmosfera sonora tenha me influenciado muito até hoje. Me toca muito a forma como as culturas e as “pluralidades culturais” se misturam aqui no Brasil. A riqueza dos nossos ritmos e de nossa música é puro reflexo desta pluralidade. Faço musica de forma muito intuitiva e é como se eu me sentisse impelido a ornar as letras com os ritmos.

Por exemplo, em “Entrar No Mar” eu usei muito a referência rítmica do Ijexá, considerado “o ritmo do renascimento” na Bahia. O mar tem essa grandiosidade e no meu coração não ha um ritmo melhor para representar o mar do que este. Até porque o Ijexá era originalmente o nome dado a uma nação de pessoas escravizadas que vieram da Africa. Pra você ter uma ideia, no Candomblé, esse ritmo se toca para os Orixás, para se “conectar” com eles. Isso sem dúvidas é muito forte.

Eu gosto muito de vestir minhas canções com elementos da nossa música. Acho que sou fiel as minhas raízes “brazucas”.

Ouça “Entrar no mar”:

AC: O fato de ter morado em diversos lugares, influenciou essa mistura?

Rodrigo: Tive a oportunidade de conhecer e viver em diferentes lugares pelo mundo. Tenho certeza que isso me influenciou bastante musicalmente. Quando tinha 11 anos, estudei num colégio das Nações Unidas em Banguequoque na Tailandia. Desde sempre me deparei com pessoas de várias culturas e essa multiplicidade se tornou em algo comum para mim desde muito cedo.

Para mim, “Toda unanimidade é chata”,  o que torna tudo interessante e excitante são justamente as diferenças.

AC: Além do publico brasileiro, você já lançou disco em países como Japão e Coréia, como é a recepção da sua música nesses países? O que é mais diferente no publico em relação ao Brasil?

Rodrigo: A receptividade tem sido muito boa no exterior, principalmente no Japão e em Nova York. Acho que muito disso se deve pela forma como misturei elementos da musica internacional com os ritmos brasileiros. Eles percebem que é diferente, “exótico” até, mas conseguem assimilar e até se identificar. Acho difícil de explicar como eu percebo a diferença do público no Brasil comparado com o público no exterior de uma forma geral. Vou tentar explicar minha percepção: No Brasil as pessoas querem viver a musica, querem entrar na musica cantando junto, interagindo e no exterior eles preferem ouvir, ver, e/ou sentir, mas sem entrar nela completamente. O Brasileiro mergulha, se joga, se lambuza, o gringo é mais comedido, gosta de comer em pequenas doses, saboreia aos poucos, mas curte tanto quanto. Percebo uma diferença na forma de curtir e de “saborear” música.

Foto: Página do artista

Foto: Página do artista

AC: Nos últimos anos é notável que vem surgindo uma nova geração na música brasileira, onde aparece a possibilidade de misturar referência e cria algo novo. Da MPB atual, o que tem escutado? O que indicaria para quem gosta do seu trabalho?

Rodrigo: Tem muito cara bom no Brasil e muito cara bom surgindo. Da MPB atual, Lenine, Céu, Seu Jorge e Maria Gadú são os primeiros grandes nomes que me surgem na cabeça. Ultimamente tenho ouvido muitos novos artistas e postado na minha página alguns deles.

Recomendo uma loja na Rua Augusta 2389. Chama-se Sensorial Discos. Toda semana lá tem pocket shows de muito musico incrível. Podem pesquisar! Entre os mais “bombados”, recomendo assistirem ao show d’O Teatro Magico, é muito legal.

AC: Se pudesse escolher um artista para fazer uma parceria (o céu é o limite!), quem seria?

Rodrigo: Sting. Sou fã dele desde criança. Se o limite chega lá no céu, então eu quero fazer uma parceria com o Tom Jobim. (risos)

AC: Para terminar, tem planos de fazer show em SP em breve?

Rodrigo: Sim. Em breve retornarei com a turnê do novo CD “Novo Ar” que estou lançando. Paralelamente a este projeto, estou fazendo diversas experiências musicais que quero testar ao vivo antes de retornar com essa turnê pelo Brasil. Em breve vou anunciar as próximas datas e vou continuar fazendo “shows supresa” por aí. Fiquem ligados!

One thought on “Rodrigo Del Arc: Som universal com raízes brazucas

  1. E como não tentar mergulhar e me “afogar” na música de Del Arc? Às vezes, eu queria morar na cabeça e no coração desse menino, desse homem, desse artista, para entender como nasce tanta pluralidade, qualidade e energia boa, que iluminam. Conheci o trabalho dele por acaso, tendo o poder de dar uma virada na minha energia e percepção sobre a vida naquela tarde, com uma canção de A Kind of Bossa. Dentre tantos compositores geniais, emocionais e superinteressantes deste país, eu recomendo mesmo é que ouçam as canções de Rodrigo Del Arc e procurem sentir toda a intensidade de sua arte. Esse cara me toca fundo, toca o céu e desejo que toque muitos e muitos, tocando, cantando, emanando luz e se reenergizando, criando, por aí.

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