Abre Aspas / Música

Guidi Vieira: MPB com tempero

Cantora carioca apresenta referências e influências variadas em seu primeiro disco solo

* Por Meiri Farias

Acordeon, zabumba,  triângulo e trechos como “Se xaxado não é xote, coco também não é baião” ou “Quem foi que disse que samba não da o pé? Já mordi baião-goiaba, cheiro de Luis Gonzaga, xoteei com mãe Quelé”. Guidi Vieira é carioca, mas seu primeiro CD solo “Temperos” começa com gostinho de Nordeste.

Foto: Luísa Pitta

Cantora desde os dezesseis anos, Guidi lançou dois CD com a Pic-Nic, banda de rock que integrou até 2007. Desde então se apresenta na noite carioca como intérprete, além de participar de CDs de artistas como Carlinhos Vergueiro, Amin Nunes e Doces Cariocas.

A parte o trocadilho levemente cretino, Guidi “tempera” seu disco com diversas referências. O supracitado “gostinho nordestino” já aparece nas duas primeiras músicas “Choro” e “Samba do pé”. Já “Três Meninos” e “Pronta entrega” têm cara de sambinha. A temática das músicas também é diversa e as histórias ca(o)ntadas são favorecidas pela interpretação delicada de Guidi.

Ouça “Pronta entrega”: 

Atenção especial para “Tigresa” do Caetano Veloso que ganhou uma versão intensa e cheia de personalidade. E principalmente “Varal”, parceria de Marinho San (que faz uma participação especial) e Sandro Livahck, uma daquelas canções que continua tocando em looping infinito mesmo quando termina.

Armazém de Cultura: Ouvindo seu disco “Temperos” percebemos uma forte influência de ritmos nordestinos, como o xote por exemplo. Essa percepção procede? Como a música nordestina influência esse trabalho?

 Guidi Vieira: Sim, a música nordestina é uma grande paixão e jamais poderia ficar de fora neste meu primeiro trabalho. Em 2008 comecei a frequentar a Feira de São Cristóvão, aqui no Rio, um verdadeiro reduto da música nordestina, e me apaixonei pelo forró pé-de-serra. A partir daí comecei a cantar muito baião e xote nos shows que fazia na noite, e também comecei a ser chamada para fazer festas juninas no meio do ano, coisa que amo. Era obrigatório que este CD contasse com um xote e um baião.

AC: O início da última semana foi marcado por manifestações preconceituosas contra nordestinos em decorrência do resultado do primeiro turno das eleições. Pensando na influência cultural e o retorno preconceituoso do sudeste, qual é a sua opinião sobre o assunto?

Fotos: Claudia Severo.

Guidi: Tive a infelicidade de saber disso e fiquei impressionada não apenas com o preconceito das declarações publicadas no Twitter e Facebook, mas também com a falta de freios das pessoas que expuseram estes preconceitos. Minimamente por vergonha do próprio preconceito eles poderiam ter nos poupado destas declarações.

Penso que o nome disso é distância, mas não geográfica, e sim entre os seres humanos. Me parece que qualquer coisa que seja diferente da realidade do nosso dia a dia acaba se tornando algo risível para as pessoas pequenas; o sotaque, a comida, os hábitos. Os autores daquelas frases infelizes estão perdendo a chance de conhecer culturas lindas presentes em cada estado da região Nordeste. Aliás, só quem perde, no final das contas, é sempre o preconceituoso.

AC: Qual é a maior diferença do disco em relação aos seus projetos e trabalhos anteriores? O que mais mudou desde que começou a trabalhar com música?

Guidi: Uma grande diferença é que nos meus trabalhos anteriores eu compunha, e agora no meu primeiro CD solo mostrei meu lado intérprete, basicamente (só há uma canção minha, em parceria com Amin Nunes). Outra grande diferença é que quando gravei “Temperos” quis que ele tivesse uma cara bem brasileira, enquanto que no meu trabalho anterior (a banda Pic-Nic, que acabou em 2007) eu cantava rock. Acho que até hoje a maioria das pessoas que curtiam o Pic-Nic e iam aos shows não sabem que estou cantando MPB neste momento. Mas tenho quase certeza de que em algum momento colocarei elementos do rock no meu trabalho, pois este mundo faz parte de mim. E nenhum estilo é proibido para mim, ainda quero brincar muito em diversas praias.

AC: Como foi a escolha do repertório do disco?

 Guidi: Foi relativamente fácil, porque eu já conhecia estas músicas há bastante tempo e as tinha na cabeça, sabendo que um dias as gravaria. Foi só uma questão de decidir aquelas que de fato entrariam. Eu já sabia, por exemplo, que gravaria algumas músicas do Sandro Dornelles, gaúcho que conheci aqui no Rio e de quem fiquei amiga. De fato, acabaram entrando cinco músicas dele. Também sabia que gravaria o “Choro”, do Marcello Calldeira (também um grande amigo), pois esta música eu já cantava nos meus shows. A escolha do repertório foi uma das partes mais fáceis e gostosas do processo.

Ouça “Choro”:

 

AC: Falando nisso, você gravou uma versão da música “Tigresa” do Caetano Veloso. Como foi interpretar essa canção? O Caetano é uma influencia para o seu trabalho?

Guidi: Tenho uma admiração gigantesca por Caetano, e acredito que ele me influencie no sentido de não me deixar esquecer o quanto é importante termos liberdade em nossa arte. A atitude dele e a forma como ele faz música e poesia é inspiradora. Sou fã.

Gravar esta canção foi muito bom porque é uma das músicas mais bonitas que já ouvi, e sempre adorava ouvi-la em diferentes versões, com diferentes cantores. Foi uma dica de uma amiga que já tinha visto vários shows meus e pediu que eu começasse a cantá-la nos shows. Feito!

Foto: Página da artista

AC: E que artistas contemporâneos você se identifica e indicaria para quem gosta da sua música?

Guidi: Tenho ouvido Mahmundi, que é daqui do Rio, e estou encantada. Outra grande artista que acabei de conhecer é a Patricia Polayne (um dos melhores shows que já vi). Sou fã incondicional do Alvinho Lancellotti, com quem canto em alguns shows, e também do Dudu Godoi, amigo aqui do Rio, dono de melodias lindíssimas. Para não me estender muito, me apaixonei pela Bruna Moraes, de São Paulo, e o último CD do Fino Coletivo, “Massagueira”, não sai do meu som. Com todos estes me identifico em algum ponto, por mais diferentes que sejam entre si e de mim também. Recomendo!

AC: Além da música, você é atriz, certo? Existe um intercâmbio, uma relação na prática das duas manifestações artísticas para você? Interpretando uma música ou um personagem, você nota alguma influência?

Guidi: O teatro me fez ver que quando estamos no palco, mesmo que não exatamente representando outra pessoa, podemos colocar elementos, criar uma persona, agir de forma mais exagerada: podemos brincar! Porque antes de conhecer o teatro, quando eu só cantava, achava que qualquer atitude no palco que fosse diferente da minha personalidade do dia a dia seria algo ligeiramente falso. Hoje vejo que é uma forma de interpretar, e mesmo de colocar para fora um lado seu que quase não é exposto.

Mas não sou uma performer no palco: me vejo discreta e tímida, porém utilizando a timidez a meu favor. Acho que o teatro faz isso: nos coloca em contato com coisas muito fortes e faz com que nos analisemos muito, nos levando a uma investigação incrível. Foi uma forma de me entender um pouco mais, achando mais algumas pecinhas do quebra-cabeça…

Ouça ” O Varal”:

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