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Dois Tempos e um punhado de histórias

* Por Meiri Farias com colaboração de Beatriz Farias

Crédito na foto

Ainda no início da faculdade, tive uma matéria que viria a ser a mais favorita e marcante desses quase quatro anos. Comunicação Comparada era o nome da disciplina e tentar definir o plano de aula em algumas linhas seria inútil e desnecessário, dado a abrangência de temas e a genialidade do professor que a ministrava. O que importa saber para a compreensão desse texto é que durante a primeira aula do semestre falamos sobre tempo e espaço. O que, mas isso parece aula de física, de exatas?! Nada disso, caro leitor. Não há nada mais carregado de complexidades humanas do que estudar tempo e espaço.

Também não cabe a mim, leiga estudante que dá seus primeiro passos nos estudos da comunicação, definir amplamente tais conceitos. Importante lembrar que temos quatro “tempos”, biológico, cronológico, psicológico e social e todos eles coexistem e nos diferenciam de acordo com o contexto na qual estamos inseridos.

Já o espaço, ah,  espaço é muito mais difícil de definir. O espaço vai além de classificações a que podemos submeter o tempo. O espaço pode ser físico, geográfico, matemático. O espaço pode ser relacionado a forma que o homem convive e suas extensões culturais. O espaço pode ser público e ocupado, apropriado. O espaço pode ser privado, pode ser contraditório. O espaço pode ser o conceito mais complexo de se definir, mas há um consenso: O espaço é um lugar.

Na ânsia de ocupar os espaços físicos e subjetivos, Paulo Monarco e Dandara Modesto se unem pela necessidade de inventar sua própria arte, que é meio música, meio teatro, meio expressão da própria necessidade de dar voz e vida a própria inquietação “Não é reinventar o fora, é se reinventar, porque os moldes com os quais a gente tava lidando, não davam conta de traduzir e dar vazão às necessidade artísticas que a gente tinha dentro da gente”, diz Dandara.

Ouça “Dois tempos de um lugar”:

Encontros no CCSP

Creio que cada jornalista tem os seus macetes, suas mandingas para começar a escrever. Eu preciso que uma longa madrugada se estenda a minha frente e uma longa playlist caprichada. Publiquei isso recentemente no Twitter e reproduzo aqui: “Silêncio para escrever me mata. Me disperso com o silêncio porque minha cabeça faz barulho. Preciso da música para ajeitar as coisas”. A música funciona como calmante, como uma espécie de cola que vai preenchendo os espaço e construindo sentido enquanto meu cérebro trabalha. Com Armazém criei o hábito (bastante óbvio, por sinal) de ouvir a música do artista sobre qual vou escrever, já que ajuda a inspirar e entrar na atmosfera que o trabalho exige. Mas nesse caso não dá. Não é possível. E vou deixar a Dandara explicar o porquê: “Existe um texto na canção. Ele pode ser ruim, ele pode ser bom, mas existe. E aí eu tenho essa preocupação de dizer”. E nós precisamos ouvir.

Foto: RvonKruger

A entrevista que deu origem a essa matéria aconteceu a algumas semanas em uma quinta-feira a tarde como essa em que chegamos até você. O local escolhido por Dandara e Monarco era bem indicativo dos rumos que a conversa tomaria: Centro Cultural São Paulo, espaço de difusão e apropriação cultural que fica na região central da cidade. “Esse lugar faz parte da minha vida, as primeiras memórias que tenho de estar fazendo alguma coisa artística é aqui”, Dandara conta que na infância a mãe a levava para fazer cursos, ver apresentações, “Eu assisti os melhores shows da minha infância aqui, Zeca Baleiro, Elba Ramalho, eu vi Alceu aqui”, diz. Como espectadora e como artista, Dandara foi influenciada pela convivência artística e cultural que o CCSP propõe. Anos depois essa influência colaborou indiretamente com a criação do Dois Tempos de um Lugar, projeto que surgiu do encontro artístico com Monarco, resultou no nosso encontro e possibilita encontros com o que há de mais íntimo e subjetivo de quem ouve.

Monarco conta que o CCSP foi onde eles conversaram com Caroline Ricca Lee, que se tornou figurinista e cenógrafa do Dois Tempos e também influenciou  muito do conceito do espetáculo. Depois de um show no início do ano passado, o projeto havia sido engavetado e ressurgiu na conversa “A gente queria fazer um negócio, que a gente não sabe o que é”, Monarco conta que a partir disso Carol já começou a delinear referências, imagens, abrindo as possibilidade do que seria o Dois Tempos partindo da inquietação e a vontade de se reinventar da dupla. “Acho que o Dois Tempos é um projeto que vem para coroar essa vontade conjunta que eu e o Monarco, dois artistas diferentes, que se unem com essa semelhança que é essa vontade do novo pra si”, completa Dandara.

Popular pra quem?

O termo “Música Popular Brasileira” já era utilizada no início do século passado com intuito de remeter a música popular produzida no Brasil, sem no entanto designar um grupo de artistas específicos. A concepção do que “se entende” como MPB surgiu em meados da década de 60, muito relacionado aos intelectuais e movimentações políticas que aconteciam no período. Mas e aí, o que é realmente MPB? A que se refere a música popular? E se a mídia fala com frequência da formação de uma “nova MPB”, mas dentro da diversidade de trabalhos completamente diferentes,  como colocar tudo dentro da mesma caixinha? “Eu acho hoje contraditório chamar de música popular brasileira uma música que é consumida majoritariamente por uma elite. Acho que é aí que mora a contradição do rótulo”, explica Dandara “Não o rótulo do gênero em si, sabe? Porque eu acho que o gênero MPB nada mais é do que a música brasileira feita de alguma maneira”.

Lembrando da visibilidade que artistas da MPB tinham na época, Dandara questiona o termo enquanto sua relação com o público “Popular pra quem? popular onde? popular restrito? Eu acho que também tem uma coisa do artista da MPB se colocar muito longe também desse popular”. O artista acaba se fechando em um nicho e para Monarco, alimentam ainda mais a elitização da própria música “A gente (os artistas) tem essa ideia rasa de que as pessoas não querem ouvir”. “Eu acho que o Brasil é muito isso, as pessoas escutam o que lhe é ofertado. O povo não é burro sabe? O povo tem sensibilidade”, completa Dandara.

Ouça “Contenteza”:

A percepção do que é popular na música brasileira ainda está muito na visibilidade, a audiência que o artista recebe. Com o deslocamento para a internet como uma das (talvez a maior) formas de consumir música, acontece um movimento contraditório: Se por um lado a rede colabora para democratizar o espaço de produção e divulgação artística, por outro a oferta de conteúdo é infinitamente maior e por isso mesmo, encontrar o seu espaço é ainda mais gratificante “Ouvir de pessoas de diferentes classes sociais, diferentes lugares, diferentes estados, que a nossa música chega, sabe? E isso pra mim é o maior sucesso”. Reinventar e quebrar as barreiras e dificuldade do mercado, é o que move o artista “É  isso que me instiga assim a romper esses padrões, essas reproduções de discurso que o povo não entende a música. Entende sim! Precisa chegar! Ele não vai entender o que ele não vê”, diz Dandara.

Um ajuntamento de artistas

O “encontro” de Monarco e Dandara começou por meio da participações em festivais de música que acontecem em vários estados do país. Para Monarco, essas participações contribuíram para seu desenvolvimento como artista “O  festival acabou virando um canal pra desovar o  trabalho de compositor, e mais, pra de alguma forma pagar as contar também”. Além do aprendizado, foi nos festivais que conheceu outros artistas que influenciara a carreira e alguns se tornaram até mesmo parceiros de composição ” Todas as músicas que estão no repertório do Dois Tempos, são com parceiros que eu conheci em festival. Todas, sem exceção”, conta Monarco.

Foto: RvonKruger

Em meio as participação nos festivais e identificação com as mesmas inquietações e vontades, surge a necessidade de se dedicar conjuntamente a um projeto como o Dois Tempos. O mais interessante, é que essa percepção partiu primeiramente de outras pessoas, como o produtor musical Swami Jr: “Ele foi um cara crucial, que viu o dois tempos antes da gente ver. Ele chegou  e falou ‘Velho, vocês precisam fazer isso, precisam fazer um trabalho juntos, vocês tem essa energia similar, o lugar do inquieto, não contente com o básico, sabe se vocês se juntarem numa força, isso pode ser uma coisa muito interessante, não pode deixar perder isso'” conta Dandara.

Outro artista que influenciou a concepção do trabalho, foi o Vinicius Calderoni (sim sim, leitor atento do Armazém, é claro que você sabe quem ele é, mas vamos as definições), músico, compositor, com projetos musicais como sua carreira solo e o 5 a Seco, Vinicius tem formação em cinema e atualmente está em cartaz com a peça “Não nem nada”. Como roteirista e diretor do Dois tempos, foi o responsável de captar e sintetizar todos os anseios da dupla que queria falar do encontro artístico, da complementaridade,  para desenvolver o projeto “O  show permeia esse lugar da memória, do um não lugar… e ai eu, o Vini, Monarco e a Carol,  a gente se reuniu pra conceituar isso, pra jogar essas ideias, e o Vini majestosamente pegou isso e fez o roteiro”, explica Dandara.

Ouça “Tem dó”:

A experiência de Vinicius com diferentes linguagens artísticas colaborou com a noção de dramaturgia e enredo que o show ganhou “É impressionante a capacidade que ele tem de se relacionar com tantas linguagens e ser muito competente em tudo que faz”, diz Monarco e Dandara completa “A capacidade que ele tem de ser um só artista nas várias linguagens que ele aborda. A peça dialoga muito com o disco Para abrir os paladares (segundo CD de Calderoni, lançado em 2013), uma coisa de ‘obra’ que liga as coisas dele, que é algo que a gente deseja. Como atriz, tenho sempre essa vontade de me aproximar do que faço como cantora. Não me vejo segmentada”.

Dandara se declara “majoritariamente interprete” em relação aos caminhos que permeia enquanto artista “Eu gosto da palavra interprete, daquele que ressignifica, que interpreta”, ela conta que considera o trabalho de interprete uma forma de criação a responsabilidade de trazer a tona coisas que as vezes nem o compositor percebeu “Essa coisa de pegar a obra de alguém e passar aquilo por mim”.  A preocupação com o texto, com a compreensão da mensagem é o que move seu trabalho “Acho que esse é o grande barato de ser interprete. Que as pessoas entendam as coisas”, completa.

Crédito na foto

Conversando sobre as vocações dentro do projeto, questionamos Monarco sobre as parcerias. No repertório do Dois Tempos, nomes como Celso Viáfora, Zeca Baleiro e Suely Mesquita contribuíram na composição das letras “Eu não consigo achar graça em fazer nada sozinho. Acho que a gente não vai fazer mais nada sozinho e eu estendo essa questão da parceria, não só de canção, mas de criação, também”, explica Monarco.

Ocupando os espaços

Dentro desse espírito de ocupar mas também da dificuldade de se apresentar nos meios tradicionais, Dandara e Monarco pretendem fazer shows na rua nos próximos meses “É meio que os movimentos de adequação que o artista tem que achar para dar vazão a sua produção”, explica Dandara. Como citado por Monarco, Lenine já dizia em Rua da passagem: “Sem ter medo de andar na rua, porque a rua é o seu quintal”.

Beatriz Farias compareceu a um pocket show do Dois Tempos na última semana

Beatriz Farias compareceu a um pocket show do Dois Tempos na última semana

Para contornar a dificuldade com o mercado, a dupla decidiu lançar a campanha pra financiar coletivamente o primeiro disco do Dois Tempos de um Lugar. Depois de tentar editais, o crowdfunding se tornou a opção mais viável e a campanha que começou no início da semana se encerra no dia 15 de dezembro.

A música não é mais a mesma, nem o mercado. E o espaço (ah, ele novamente) de consumo e ressignificação do mesmo também não. Dentro da cidade de São Paulo, com toda a sua contradição entre conservadorismo e vanguarda, cresce um anseio por ocupar espaço.  E mais uma vez, eles não são apenas físicos, mas se traduzem e espelham na necessidade apropriar-se do espaço público. No espaço do show, da discussão ou da produção musical e artística, Monarco e Dandara instigam a nossas reflexão, embaralhando tempo e espaço na complexidade de se confrontar (encontrar) subjetivamente sua própria inquietação.

Ouça “Trovoa”:

 

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