Abre Aspas / Música

Bruno Batista: Sonoridade, lirismo e um lugar chamado ‘Lá’

Música marcante e diversa no terceiro trabalho do artista pernambucano – maranhense

*Por Meiri Farias

O “lá” talvez tenha um caráter de não-lugar. Espaço híbrido onde as ideias se misturam e a música se torna algo quase concreto e sensível ao toque. Lá onde a solidão dorme de meia, lá onde cada bala traz uma flor, lá onde vivo alegria a toda hora, lá onde Jim Carrey deixou Clementina. O “Lá” de Bruno Batista é a junção de muitas coisas diferentes, mas todas saídas de uma mesma forma.

Foto: Página do artista

Bruno nasceu em Recife e ainda criança se mudou para São Luís do Maranhão. Em São Paulo encontrou diversos artistas que participaram e influenciaram o trabalho, entre esses nomes Dandara Modesto (você leu a entrevista da semana passada né? Vale relembrar aqui). A cantora participa de cinco das onze faixas do disco. Em entrevista ao Armazém Dandara contou que sente um prazer enorme em interpretar as músicas do Bruno. A recíproca é verdadeira “quando ela canta, é como se estivesse me ensinando a canção”, conta Bruno.

Ouça “Rosa dos Ventos”:

“Lá” é o terceiro disco do Bruno, sucessor de “Eu Não Sei Sofrer em Inglês”. Conversamos com o músico sobre mudanças, parcerias e MPB, confira!

Armazém de Cultura: Como foi processo de produção seu disco atual, o “Lá”? Inclusive a capa, que é um trabalho muito bonito e expressivo, como foi a escolhas?

Bruno Batista: Acho que produção deste disco foi resultado direto da minha mudança pra São Paulo. É fruto das influências que recebi na cidade, das pessoas que conheci e, também, do trabalho contínuo ao lado do Gui Kastrup e do Rovilson Pascoal.  O processo em si foi uma delícia, reunimos uma super banda, criamos os arranjos juntos e, acredito, o disco espelha bem as minhas intenções. O projeto gráfico, lindíssimo, é do Antonio Amaral, um artista plástico piauiense incrível e um grande amigo. Mesmo tendo grandes artistas em São Paulo fiz questão de convidá-lo por ser um entusiasta do meu trabalho e pra aproximar minhas referências originais, equilibrá-las dentro deste contexto paulistano que, pra mim, ainda é novo.

AC: O que mais mudou nesse trabalho em relação ao disco anterior, “Eu Não Sei Sofrer em Inglês”?

Bruno: Em “Lá”, investimos muito na sonoridade. Sempre fui, essencialmente, um compositor. Sou devoto da canção mas, a cada dia, me interesso mais pela estética e pelo conceito de um álbum. O “Eu não sei sofrer em inglês” tinha esse lance do compositor em estado bruto, cada canção contando sua história, encerrando-se em si mesma. Em “Lá” tentei criar um lugar (com cheiro, cor e alma) que servisse de hospedagem para os personagens. Quis que as canções conversassem entre si e, mais ainda, se entendessem.

AC: Em entrevista com o Dois tempos de um Lugar, a Dandara nos disse a seguinte frase enquanto conversávamos sobre o trabalho de intérprete: “Tenho um prazer enorme de ressignificar, de passar por mim as canções do Bruno. Que são tão ricas, tão cheias de significados”. Como foi a participação dela no disco?

Foto: Página do artista

Bruno: A Dandara foi um dos maiores presentes que este trabalho me deu. Nos conhecemos logo na minha chegada a São Paulo, temos muitos amigos em comum, mas o processo de gravação foi o que revelou esse elo artístico tão forte. Ela é uma intérprete incrível, foi realmente um privilégio. O curioso é que, desde então, sempre que componho algo novo tenho vontade de mandar pra ela. Quando ela canta, é como se estivesse me ensinando a canção.

AC: Você ainda acredita no termo MPB como forma de definir esse movimento de novos artistas que estão surgindo, essa nova geração? Várias pessoas defendem uma desconstrução desse termo, desse rótulo, porque pensam que não abarca a multiplicidade de trabalhos que surgiram nos últimos anos, qual a sua opinião?

Bruno: Na verdade, mesmo essa necessidade de desconstrução do termo me parece ultrapassada. Quem produz e quem consome música atualmente já percebeu que as prateleiras foram implodidas, A música brasileira, que sempre foi plural, hoje está incontrolável, a cada dia dezenas de álbuns são lançados, de todos os formatos, plataformas, gêneros. A música brasileira é um artigo valioso e vivo, não carece de rótulos. O que precisa, na verdade, é ser ouvida.

Ouça “Pois Zé”:

AC: No disco anterior também contou com a participação de diversos nomes de peso da nova geração da MPB como Zeca Baleiro, Tulipa e Gustavo Ruiz, Márcio Arantes, Marcelo Jeneci, entre outros. Como foi esse trabalho? Rola uma troca de referências, influências dentro dessa turma?

Bruno: A participação dessa turma toda foi importantíssima em vários aspectos, sobretudo, na apresentação da minha música. Sou fã de todos eles – o Zeca é uma das minhas maiores referências – e acho que, mesmo num espectro tão heterogêneo, eles atuaram na construção do trabalho que faço atualmente. Depois disso já rolaram algumas parcerias, sempre fico atento a tudo que esta geração produz, tem mais coisa vindo por aí.

AC: Sendo nordestino, como vê esses movimentos de preconceito que surgiu na Internet durante as últimas semanas? O Armazém de Cultura repudia essas ações e gostaria de pedir que indicasse alguns trabalhos bacanas que você acompanha fora do eixo RJ-SP e que nossos leitores precisam conhecer?

Bruno: Para rebater esse preconceito cretino que viceja nas redes sociais, indico Naeno, César Teixeira, Criolina, Jessier Quirino, Fernando Catatau, Validuaté, Pablo do Arrocha, João Linhares, Pio Lobato, Patrícia Bastos e tantos outros. É tudo música pra aliviar o espírito e desenegrecer o coração.

 Ouça “Lá”:

 

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