Abre Aspas / Música

Pitanga em Pé de Amora: Qual é o fundo do mundo da gente?

Este é um dos textos que preciso escrever em primeira pessoa, subvertendo certos princípios do jornalismo clássico e trabalhando completamente com a opinião. Vamos aos porquês:

* Por Meiri Farias

Desde que fui convertida a música brasileira me encantei e abracei diversas vertentes e trabalhos dos mais diferentes possíveis. E criei o hábito de me apegar a discos, ao conjunto da obra mesmo. E nos últimos dois anos, dois álbuns foram definitivos, o primeiro em 2013: “Para abrir os Paladares”, do Vinicius Calderoni. Esse disco abriu os paladares, os sentidos, o espaço para as contradições mais subjetivas da minha mente inquieta (prometo que um dia falarei sobre isso com mais cuidado). O segundo chegou recentemente teve o mesmo impacto. Mas o movimento foi inverso.

Foto: Página da banda

Foto: Página da banda

“Pontes para si”, segundo disco da banda Pitanga em Pé de Amora tomou espaço na timeline logo que foi lançado. Em questão de horas todo mundo falava sobre esse disco. Literalmente. Sem ter muito por onde escapar, fui escutar esse pessoal que conhecia de nome, mas não de som. O que foi ótimo pois escutei absolutamente crua e sem nenhuma ideia do que esperar ou repertório para comparar. E veio o impacto. Se “Para abrir os paladares” veio para desconstruir, “Pontes para si” veio para fazer exatamente o que o título propõe, estabelecer pontes, ligar ideias e conectar coisas que estavam no ar. Esse encaixe é tão literal que transparece na construção sonora do disco. A alteração de instrumento e vozes e temas,  nada passa despercebido, tudo é notado. Mas em um encadeamento perfeito onde cada coisa está em seu lugar, você é conduzido da primeira a última canção com suavidade.

Ouça “Insônia”:

Na minha leiga opinião, a arte tem sentido quando promove alguma alteração. Quando ressignifica algo dentro de você. Do caos da cidade onde vivo e que vive em cada uma das ações que encontramos em Insônia, caminhando pela poesia de Leminski musica em Razão de Ser e todos os não – porque escrever, que não se explica só se faz – para a delicadeza de Ceará que te liga e reconecta com a noção de terra, lugar raiz, independente de qual seja o seu Ceará. Vendo o andar da carruagem, deveria ter feito um faixa-a-faixa com todas as minhas reflexões e desabafos de como esse CD conversou comigo, mas só para terminar a lista das minhas favoritas é preciso destacar duas músicas: Descompasso, talvez a mais bonita no sentido mais literal da palavra, e Sonhos Lúcidos que precisaria de um texto completo para desvendar todas as nuances da sua beleza. Pois bem, sem mais delongas, vamos a entrevista!

Armazém de Cultura: O “Pontes para si” vem sendo muito elogiado por vários artistas (presença constante na nossa timeline!). Como foi a produção do disco? O que muda em relação aos trabalhos anteriores?

Pitanga em Pé de Amora: A produção do disco foi um processo muito prazeroso, pois pudemos contar com a experiência do Swamy Jr, e também por que tivemos a oportunidade de gravar na Gargolândia, um estúdio que dica numa fazenda deliciosa. Isso proporcionou um “retiro” onde a gente podia viver o disco do momento em que acordava até o que dormia.

AC: Uma das particularidades de vocês é a alternância de vozes nas canções. Esse processo coletivo se repete na composição? Há um compositor fixo na banda ou todos colaboram de alguma forma?

Pitanga em Pé de Amora: O Diego é o nosso letrista, e as melodias são criadas pelo Ga, Angelo e Daniel. Esse processo de composição começa individual, e depois fica mais coletivo. Todos opinam na forma da música, instrumentação, etc. Nesse disco, depois de discutir isso, o processo voltou para uma parte mais individual para escrever os arranjos de sopros.

AC: A música “Razão de ser” traz um dialogismo claro com o poema de mesmo nome do Paulo Leminski. Como surgiu essa ideia? Outras manifestações artísticas influenciam o trabalho de vocês, como a literatura nesse caso?

Pitanga em Pé de Amora: O Ga tinha musicado esse poema do Leminski, e em cima da melodia feita, o Diego brincou com a letra. Com certeza somos influenciados por outras manifestações artísticas, na verdade, por tudo, né? Pelo clima, pela política, por ideias que trocamos com os amigos, tudo acaba virando arte.

Ouça “Razão de Ser”:

 

AC: Falando nisso, quais são as principais influências e referências na música de vocês? E o que indicaria dos artistas atuais para quem gosta de Pitanga em pé de Amora?

Pitanga em Pé de Amora: O Pitanga tem referências bem firmes na música instrumental, no choro, no jazz, na música clássica , no cancioneiro e na cultura popular. Como falamos, tudo acaba influenciando!

Todas as pessoas que gravaram com a gente tem trabalhos excepcionais que valem a pena ser escutados: o Swami acabou de lançar um discão com o Marcell Pretto, o “Cem Gonzaga” de Lulinha Alencar, o cd “Vem Ver” do Fi Maróstica com Vanessa Moreno, Trio Oritá, Batuntã, ,o “Som do Bando” do Bandolinista Ronem Altman, e o novo da Mônica Salmaso cantando Guinga e Paulo César Pinheiro é muito lindo.

AC: A música “Insônia”traz toda a atmosfera caótica da cidade, impossível para quem mora em São Paulo não se identificar. Conversando com outras bandas (como Memórias de um caramujo e Trupe chá de boldo), percebemos que uma certa “paulistanidade” vem servindo como inspiração para as bandas da cidade. Mesmo em “Ceará”, que fala de outro local, sentimos essa relação, identificação com o lugar, com a terra. Vocês sentem isso em relação ao trabalho de vocês?

Pitanga em Pé de Amora: Essa identificação com o lugar acaba aparecendo muito por que nós vivemos isso. Não tem como viver em São Paulo e em nenhum momento não se deparar com trânsito, com ansiedade, e com alguma angústia. Mas o disco todo tem várias outras cores, como em o Pescador ou Descompasso. Essa coisa mais urbana está sem dúvida mais presente nesse disco, mas não sinto que ela dê o tom ao CD.

Ouça “Ceará”:

Como esse disco é realmente especial, preciso terminar esse texto com minha canção favorita

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