#ArmazémnaComic / Especial HQ / Questão de Opinião

Somos todos Nerds

Selo Armazém

 

A Comic Con Experience mostrou potencial de estabelecer um novo padrão de produção e consumo de entretenimento. Mas ainda há muito a melhorar

* Por Meiri Farias

Nossa história com a Comic Con 2014 começou com uma tentativa despretensiosa de credenciamento que foi atendida. Atentas a responsabilidade de adentrar a primeira Comic brasileira como jornalista e também o compromisso de seguir nossas diretrizes editoriais que propõe arte, jornalismo e opinião sem viés de hardnews, ou seja, nossa preocupação não é com a instantaneidade da notícia e sim com o desdobramento dos fatos. Trazemos um pouco do que foi – para nós – a Comic Con Experience, realizada entre 4 e 7 de dezembro no Centro de Exposições Imigrantes, que segundo a organização do evento recebeu mais de 80 mil pessoas, dos quais participamos dos dois primeiros dias.

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Para compreender a dimensão do evento é necessário pensar a cultura nerd em números e sua recepção no país. Em maio deste ano a revista Época publicou uma matéria sobre o perfil do público nerd no Brasil onde disseca o crescimento do mercado da cultura pop e o poder de abrangência e segmentação deste setor de produção de entretenimento e influenciador de comportamento. Segundo a matéria, esse público é formado em sua maioria por jovens entre 17 e 28 anos (59%) que gastam cerca de 84 horas por mês na internet.

Transformação da visibilidade do Nerd, Revista Época (9/5/2014):

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A Comic Con Experience nasceu do sonho dos criadores do site Omelete, Érico Borgo e Pierre Mantovani em parceria com Chiaroscuro Studios, inspirada na versão mais popular do evento que acontece em San Diego, nos EUA desde os anos 70. A junção de pessoas que criam e produzem entretenimento, artistas internacionais e locais, espaços que permitem interação e imersão no mundo nerd e um público participativo e ácido por informações, monta a equação da primeira Comic Con no Brasil. A primeira edição, que foi anunciada no aniversário de São Paulo (25 de janeiro), promete entrar no calendário fixo da cidade e já tem contrato com o Centro de Exposições Imigrante para três anos. Em 2015 a CCXP acontecerá entre os dias 3 e 6 de dezembro.

Nosso dia na Comic começou por volta das 9h de quinta-feira (4) ao chegar ao pavilhão. A falta de sinalização prejudicou a entrada e o taxista não sabia onde parar. Fora do carro precisamos de muitas informações, por vezes confusas, para descobrir onde se para a retirada da credencial de imprensa. Placas ao longo do espaço resolveriam o problema rapidamente. Pouquíssimas pessoas atendendo e uma fila pequena, cerca de trinta pessoas aproximadamente, demorou exatamente uma hora para chegar a nossa vez.

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Para ser justa, há sim desencontro de informações, mas há também disposição e gentileza para corrigir problemas. Os atendentes e funcionários são cordiais e se esforçam para resolver problemas e confirmam o que já percebemos pela página do Facebook oficial do evento: Há uma vontade coletiva de se aproximar do público e atender suas demandas. Talvez pelo fato do Omelete também ser mídia, também ser fã, há um estreitamento no relacionamento que aparece, por exemplo, quando Érico Borgo passa cumprimentando o público na fila de um dos painéis.

Depois do credenciamento conseguimos entrar no pavilhão. O início oficial da Comic era às 12h, mas a imprensa tem a possibilidade de visitar os estandes com antecedência e esclarece dúvidas com os organizadores em uma coletiva. Embora os expositores ainda estivessem ajustando alguns detalhes, o impacto é imediato. Estandes monumentais chamam a atenção a primeira vista e alertam para o que vem a seguir. Réplicas em tamanho real de personagens e armaduras, versões de estúdio (vale destacar a pequena sala dos Simpsons, fenomenal), entre outros, criam a atmosfera esperada. É possível se deparar com o batmóvel, a van do Scooby-doo, dinossauros gigantes e muito muito muito mais.

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O estande do Hobbit se destacava, lembrando o lançamento do filme da franquia que aconteceu no domingo (7)

 

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Batman ou …

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Finn?

 

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Estande da Panini como de costume com decoração da Turma da Mônica

Onde está o Homer?

Onde está o Homer?

Depois de um primeiro passeio, nos encaminhamos para a coletiva onde os organizadores explica o conceito de “Experience” e a necessidade de proporcionar uma verdadeira experiência para público. Questões sobre os objetivos do projeto são esclarecidas, mas apesar da insistência, o valor do investimento não é revelado Mas insistem em destacar que foi muito dinheiro.

Como um dos principais objetivos, é destacada a necessidade impulsionar o mercado “Espero que esse evento incentive o mercado de cultura pop no Brasil”, diz Pierre Mantovani. Esse esforço transparece na iniciativa de equilibrar os convidados internacionais “estrelados”como grandes nomes brasileiros e principalmente novos artistas que estão ajudando a ressignificar a produção de cultura pop no país, mas ainda não tem visibilidade massiva. Aliás, uma das melhores partes da Comic é sem dúvida o Artist Alley, espaço destinado a artistas (majoritariamente nacionais) que expõe e vendem seus trabalhos, apresentando alternativas interessantes a um público que carece de produção nacional. 218 artistas se espalharam pelas mesas trazendo as novidades do mundo dos quadrinhos.

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Em relação a estrutura, a Comic apresentou erros e acertos A distribuição dos estandes é interessante, possibilita o tráfego de pessoas sem opressão (pelo menos nos primeiros dias) e oferece uma praça de alimentação ampla e criativamente decorada especialmente para a ocasião. O preço dos alimentos estavam completamente fora da realidade, mas boa parte do público leva seu lanchinho e não se submete ao absurdo de desembolsar pequenas fortunas em alimentos absolutamente comuns.

Falando em preços é preciso uma reflexão honesta: Há variedade de estandes e espaço para pesquisa intensa. Actions figures realmente apresentam um preço elevado, mas não mais do que se pode esperar, já que uma das promessas dos organizadores é combater a pirataria com produtos originais. Livros em HQs pediam comparação e o preço variava bastante. O problema está no ingresso para entrada20141204_101831. Sim, o evento tem dimensões monumentais, mas a entrada mais barata saia por $80. Pensando que o público quer consumir e um número bastante expressivo de jovens, a conta pode não fechar depois. Fora a quantidades de pessoas que vieram de outros estados e gastaram com passagens e hospedagem.

Ainda pensando em estrutura e suporte, a Comic ganha pontos com a opção de transporte, similar ao sistema utilizado na Bienal do Livro, que possibilitou o translado entre o Jabaquara e o evento. As vans eram pequenas, mas o serviço era surpreendentemente rápido e eficiente. Até mesmo no retorno, onde as filas ficavam imensas, o tempo de espera era digno.

Participamos dos dois primeiros dias – em tese mais tranquilos que no fim de semana – e a programação foi bastante equilibrada.  Deu para agradar cinéfilos, série maníacos e fãs de quadrinhos. O espaço entre os auditórios, era quase um refúgio da correria dos estandes, mesmo com filas expressivas em alguns painéis. Particularmente, a programação do auditório secundário interessou mais aos nossos objetivos, mas a divisão de atividades foi pertinente. O que foi inaceitável é a interferência sonora que auditório menor (Ultra) recebe do principal (Thunder). O barulho dos grandes eventos incomodou (e muito) as palestras mais calmas que o Ultra oferecia.

Problemas com microfones foram frequentes e até mesmo com a iluminação. O painel do Porta dos Fundos, por exemplo, ficou alguns segundos no escuro. Ainda assim, é possível fazer uma avaliação bastante positiva da organização do evento que também contou com parcerias no setor público como a SP Turis e a Secretária Municipal de Cultura que patrocinou as Master Classes (falaremos mais sobre em um próximo texto!).

Confira a galeria completa do Armazém na Comic em nossa página no Facebook

Aliás, a parceria promete ser ampliada nos próximos anos “A pauta geek é fundamental para o cenário de convergência de cultura”, diz Renato Nery representando a SMC. Respondendo a perguntas, Nery confirma a possibilidade de uma “virada geek” e o desejo de que no próximo ano aconteça uma semana dedicada a cultura nerd que culmine na Comic e amplie o incentivo ao conteúdo nacional.

Durante a abertura, Burgo comentou a importância do evento estar “a altura da paixão” do público e que eles sabiam que muitas coisas sairiam abaixo das expectativa do que haviam planejado. Isso mostrou a consciência de que o evento ainda tem muito a evoluir e aprender com as falhar para a próxima edição. A Comic cumpriu seu objetivo inicial e foi realmente #Épica, trazendo um evento grandioso e com potencial de fincar as garras nerds à lá Wolverine no espaço cultural da cidade.

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