#ArmazémnaComic / Questão de Opinião

Já chegou o disco voador!

Selo Armazém

Uma semana após o falecimento de Roberto Gomes Bolaños, fãs de Chaves se reúnem a Edgar Vivar para homenagear e relembrar o pequeno Shakespeare latino 

* Por Meiri Farias

Dessa vez ele não foi recebido com pancada, mas sim aplaudido de pé pelo auditório Thunder repleto, o principal da Comic Con Experience com capacidade para 2 mil pessoas. Edgar Vivar que deu a vida a Senhor Barriga e seu filho Nhonho foi a primeira grande atração da CCXP. E foi muita barriga, senhor emoção.

Foto: Kika Rossi Produções

Foto: Kika Rossi Produções

Nosso objetivo era participar apenas do painel dedicado ao Chaves no primeiro dia de evento, mas não resistimos e voltamos para descobrir o que seria o “Quiz Chaves” anunciado na programação de sexta-feira. Os acontecimentos dos dois dias se cruzam, se misturam e muitas vezes se repetem, mas carregam o mesmo ar de nostalgia e beleza triste do luto recente por Roberto Gomes Bolaños.

A programação da CCXP com a homenagem pelos 30 anos que Chaves é transmitido no Brasil pelo SBT já tinha sido anunciado antes do falecimento de Bolaños. Entretanto é inegável o grau de relevância e comoção que o evento ganhou após a perda do Chesperito. Fãs comentavam na página oficial do CCXP no Facebook e pediam que se fizesse o melhor painel do evento. Ainda é cedo e seria leviano julgar, levando em conta que participamos apenas dos dois primeiros dias, mas é fato que a presença do Vivar e as homenagens a Bolaños marcaram e emocionaram o público muito além das expectativas.

Sem títuloVivar demonstrou respeito e reverência ao falar 90% do tempo em português. Se a dificuldade com alguma palavra surgia, ele não se acanhava em pedir ajuda e perguntar. Porém, problemas técnicos atrapalharam a participação do público. O volume do microfone de Vivar estava baixo e colaborou para o surgimento de um leve burburinho pelo auditório. Outro problema notável se dá pela distribuição de lugares no Thunder, quem sentou nas cadeiras laterais só teve a opção de acompanhar o telão menor que transmitia o evento. Mesmo quem conseguiu lugar nas fileiras centrais padeceu ao sentar mais afastado e o telão principal inexplicavelmente exibia uma imagem institucional com os logos dos organizadores e só era acionado quando precisava passar algum vídeo.

Vivar encantou com sua simpatia ao contar história da carreira, seus episódios favoritos de Chaves (o do Natal e o que o Seu Madruga vende Churros), as dificuldades de gravar dois personagens e como isso era compartilhado com Florinda Meza (Dona Florinda e Pópis) e Maria Antonieta de Las Nieves (Chiquinha e Dona Neves). O ator contou que fica lisonjeado quando as pessoas comentam que pensavam que o Nhonhô e o Senhor Barriga eram interpretados por atores diferentes.

O momento mais especial da conversa aconteceu quando Vivar exibe vídeos gravados com a sua câmera super 8, dos áureos tempos de Chaves e outras produções de Bolaños. Cenas de bastidores, ensaios, viagens e exibições ao vivo pela América Latina se alternam aos nossos olhos muitas vezes acompanhados apenas de uma trilha. A imagem desgastada e o ar de cinema mudo dão sentido à comparação feita por Gregório Duvivier em sua coluna semanal na Folha de São Paulo, publicada no dia 1º de dezembro “Chaves é do tamanho de Chaplin: hilário e humano. Neles as duas coisas andam juntas – as duas coisas são a mesma coisa”. As imagens de Vivar provam que Chesperito foi o Chaplin latino americano e seus roteiros foram levados com genial inocência pelos seus atores.

Ao fim do vídeo a emoção que preenche o auditório também afeta o eterno Senhor Barriga “Caramba, quanto tempo, quantas lembranças”, diz com voz embargada como quem expressa os sentimentos de uma pequena multidão que prende (ou não) o choro no momento.

Veja o balanço que fizemos sobre os dois primeiros dias da Comic Con Experience

Como observação divertida, ainda no primeiro dia, Vivar está tão familiarizado com nosso idioma que chega a traduzir uma pergunta realizada por um fã argentino que estava no local. Questionado sobre a importância de Bolaños para a cultura popular latino-americana, Vivar fala sobre o talento do amigo e o impacto de sua obra “É um negócio que ficou nos corações das pessoas. E o mundo precisava de coisas boas”, diz.

Na ânsia de explorar ao máximo todas as atrações, perdemos o início do segundo momento dedicado a Chaves, já no dia 5 de dezembro, sexta feira. Quando chegamos já estava em curso a conversa com Cecília Lemes, dubladora da Chiquinha no Brasil.

Contando sobre a carreira e Chaves, Cecília fala sobre o trabalho de adaptação que é necessário para dublar um personagem, já que é necessário traduzir não apenas o idioma, mas as expressões características, muitas vezes não familiares ao público brasileiro, sem perder a essência do trabalho de Bolaños. A dubladora também enfatizou o impacto da obra mexicana na América Latina e no mundo, destacando sua universalidade “Chaves trata de arquétipos. O Chaves somos todos nós”, define.

O painel segue com um quiz com os fãs que respondem perguntas sobre o universo de Chaves e Chapolim Colorado. O momento se alterna entre divertido e desconfortável graças ao comportamento levemente hostil e irritante da mediadora do painel, Carol Moreira do Omelete, que por vezes é grosseira com o público quando erra uma questão. Seu comportamento pretende ser divertido e entusiasmado, mas gera incômodo.

Veja a galeria de fotos da Comic no nosso Facebook

O quiz é interrompido com a chegada do “Disco Voador”. Vivar retorna no segundo dia de Comic e é recebido com o entusiasmo ainda maior da plateia que está mais concentrada e empolgada que a do dia anterior. A interação aparentemente improvisada entre Cecília e Vivar é realmente divertida e a dublagem da Chiquinha embora um pouco modificada pelo tempo ainda é surpreendente de se ouvir.

A conversa com Vivar segue o formato do dia anterior onde conta histórias. O quiz não é esquecido e o ganhador fica eufórico ao descobrir que o seu prêmio é um jantar com ídolo.

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Foto: Kika Rossi Produções

O encontro termina com uma homenagem que já havia sido passada no dia anterior. Modesta devido a pressa depois do falecimento de Bolaños, ainda assim emociona despertando risos e lágrimas na mesma medida. Vivar encerra o painel de forma semelhante ao dia anterior, pedindo que o público não fique triste. “Sempre conserve um sorriso. É a maior homenagem a esse homem. Que foi pequeno de tamanho, mas de um coração enorme”.

Vivar como homenageador e homenageado, junta sua voz a todos nós, na necessidade de reverenciar o pequeno Shakespeare latino, que como o menino pobre do barril e sua vizinhança excêntrica fez do sanduíche de presunto e dos pirulitos gigantes nossa maior fome da infância. Despertou também uma fome de justiça ao acordar para a realidade de miséria e exclusão que crianças sofrem em qualquer lugar do mundo. E me faz subverter esse texto a primeira pessoa em suas linhas finais ao fazer coro a Cecília Lemes como fã eterna e absoluta de El Chavo del Ocho e toda sua turma, afinal “Chave somos todos nós”.

Nossa saudade e admiração a Bolaños “Prometemos despedirmos sem dizer adeus jamais, pois haveremos de nos reunirmos muitas vezes mais!”

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