Abre Aspas / Especial HQ

Nordeste em quadrinhos: Conheça “Seca” de Raul Muradi

* Por Meiri Farias

Terra seca, amores e honra lavada com sangue. A primeira vista o sertão nordestino não parece cenário mais previsível para uma história em quadrinhos. Raul Muradi discorda e mostra isso na HQ Seca.

Capa

Conheci o trabalho de Muradi na Comic Con Experience: Fim do primeiro dia, desabei no chão cansada, para fazer algumas anotações. De longe observava os trabalhos expostos no Artists Alley e a capa de Seca chamou atenção, talvez pela afinidade com a cultura nordestina e principalmente por esta ser o meu objeto de estudo no TCC.

No segundo dia da CCXP nos deparamos novamente com o trabalho do Raul enquanto circulávamos nossa área favorita do evento. Seca é mais uma prova que quadrinhos não é só para criança, com classificação indicativa +18, a história tem sexo, violência e um final intrigante e misterioso. Indicamos par fãs de quadrinhos, da cultura nordestina ou curiosos que se interessam por HQs que fogem de estereótipos.

Armazém de Cultura: Como surgiu a história de “Seca”? o universo nordestino surgiu antes ou depois da definição do enredo?

Raul Muradi: Seca na verdade é uma ficção inspirada na história de um conhecido. Ele é nordestino, e como tantos veio pra São Paulo. Sua história de vida é bem forte, e quando ele me contou, Seca veio a cabeça. A princípio escrevi um texto, e depois percebi que poderia virar uma história em quadrinhos. Mas o mais importante na história, não é se tratar desse ou daquele lugar, e sim daquilo que levamos na alma, como seres humanos.

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AC: É interessante falar sobre a cultura nordestina, porque nos últimos meses acompanhamos manifestações de preconceito e rejeição à pessoas dessa região. Qual é a sua opinião sobre esses casos de intolerância?

Raul: O Nordeste pra mim é riquíssimo em arte e cultura. A culinária, a dança, a música, as festas de carnaval e juninas, é muita coisa pra enumerar, quantos grandes artistas, quantas obras maravilhosas. Tudo muito inspirador. Eu acho absurdo qualquer tipo de intolerância. Temos de lembrar que antes de regionalizar qualquer coisa, somos brasileiros, e toda e qualquer manifestação cultural, de norte a sul é fruto do nosso povo! E espero que a arte com todas as suas linguagens sirva para quebrar barreiras inconcebíveis de pré-conceito e discriminação. Eu gosto do povo do meu país, de norte a sul. E de sul a norte.

AC: Para muita gente ainda existe um mito que quadrinho “é coisa de criança”. Sua história tem classificação indicativa +18 e um enredo bastante surpreendente. Você acha que ainda existe uma visão estereotipada dos quadrinhos no Brasil? Como foi a reação das pessoas a sua história?

Foto: Página do Raul Muradi

Foto: Página do Raul Muradi

Raul: Na minha opinião a visão dos “quadrinhos só para criança” ainda existe por parte do grande público, aquele que não tem muito interesse na linguagem. Mas isso aos poucos está mudando. A presença dos quadrinhos nas livrarias, a internet, lojas especializadas que vem aumentando, os eventos cada vez maiores e espalhados pelo Brasil, e iniciativas que colocam o quadrinho nacional adulto nas bancas, com certeza contribui para uma mudança paulatina desse cenário, e ao seu tempo as histórias em quadrinhos vão ganhar o espaço que merecem. Até por quê há muita variedade de temas abordados, não só o adulto e o infantil. Eu ainda estou no começo da caminhada, tenho apenas dois gibis publicados, mas o público que procura minha história é um público que se identifica mesmo com meu trabalho, eu não sigo uma linha main stream. Então as pessoas que leem geralmente gostam, o mais legal foi ter lançado meu segundo trabalho no Comic Con Experience e o pessoal que leu o primeiro quis o segundo. Isso é fantástico.

AC: Como começou a desenhar? Você trabalha apenas com quadrinhos?

Raul: Parece chavão, mas eu desenho desde que me conheço por gente. Meu tio, Elias Muradi é artista plástico. Então quando eu ficava na casa dele, vivia em meio as telas e tudo o mais, então acredito que esse ambiente favoreceu a minha vontade de sempre desenhar. Não que isso me torne um grande desenhista, mas o ato de desenhar sempre esteve presente comigo. Eu trabalho com meus quadrinhos e leciono. Tenho licenciatura em artes visuais e ministro aulas de desenho em Guarulhos, onde moro. Mas o sonho é um dia trabalhar só com quadrinhos.

Foto: Página do Raul Muradi

Foto: Página do Raul Muradi

AC: Durante os painéis da Comic, caminhando pelo Artists Alley e conversando com diversos artistas, percebemos cada vez mais a mudança no mercado de quadrinhos. Da produção a comercialização da HQ finalizada. Como é esse processo para você?

Raul: Bom, como eu disse, tenho dois trabalhos. Cada um teve um processo. Mas vou contar do mais recente. Dessa vez não usei o roteiro, deixei a história surgir enquanto já a desenhava direto, como era o meu processo de contar histórias quando criança.  Procurei me divertir bastante, usei o branco e preto dessa vez para ambientar e contar a história. Foi um processo mais solto e experimental. Já na parte gráfica ainda tenho muito a aprender, ainda tenho algumas dificuldades que espero superar com o tempo. Mas no geral estou feliz com o resultado.

AC: E como foi sua participação na Comic? o que achou de mais interessante e o que ainda precisa melhorar nos eventos dedicados a cultura pop no Brasil?

Raul: Poxa, fazer parte do Comic Con Experience foi demais. Estar junto com alguns professores de outrora, amigos e de quadrinistas fantásticos, que até outro dia eu comprava na banca e nem acreditava que sequer ia conhecê-los, é tudo incrível. Sobretudo o público que conversei, é muito boa essa oportunidade de artista e público se encontrarem. Como disse eu sou novo em eventos. Fui apenas no FIQ em Belo Horizonte, que também é demais. Posso dar minha opinião de que precise melhorar isso ou aquilo, mas tenho certeza que assim como nós artistas melhoramos a cada evento, os organizadores também farão edições cada vez mais épicas, como estão dizendo. E torço muito para que o público que teve seu primeiro contato com os artistas e com o quadrinho brasileiro também comece a conhecer mais e prestigiar os trabalhos cada vez melhores dos quadrinistas brasileiros.

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