Aniversário de São Paulo / Questão de Opinião

Avesso do avesso do avesso do avesso

* Por Meiri Farias

Armazém1

Alguma coisa acontece no meu coração, que só quando ouço barulho de fechamento das portas do trem dentro da estação, talvez seja calafrio ou palpitação, é só um dia em São Paulo.

Sim, a rima se perdeu na correria para entrar no trem, mas nem sempre é fácil encontrar poesia nas tuas esquinas cheias de concreto. O barulho, inquietude, descontrole e desconforto nem sempre formam uma sinfonia harmônica e equilibrada, mas ainda assim é possível encontrar melodia nos ruídos da cidade.

Escrever sobre São Paulo fugindo dos clichês é quase impossível, pois não existe nada mais clichê do que a cidade da contradição. Mas dentro desse lugar in-comum cheio de convenções absurdas, ainda há espaço para aquilo que suscita a arte, que enche os olhos de vida. São Paulo é conservadora e medonha como a elite à lá Higienópolis que não curte gente diferenciada. São Paulo é bonita e inspiradora como uma contação de histórias na praça.

Como juntar tudo aquilo de mais genial e banal e colocar dentro de um vidro temperado com veneno. A mistura é catastrófica e quando explode, nos leva junto. E nos mistura dentro de suas nuances malucas e misturas inacreditáveis. Cada um em sua posição, com suas quebráveis convicções inabaláveis.

É um absurdo esse texto sair quando eu estiver longe de Sampa. É um absurdo estar fora de SP no aniversário da cidade. Mas é útil. Só quando estamos fora é que se percebe o quão necessário é estar dentro.

Andando na Paulista tenho a sensação quase esquizofrênica que estou em um filme mudo. Me movo à lá Carlitos e tudo acontece em absoluto silêncio, onde converso sem palavras com skatistas, músicos, engravatados e moradores de rua. Todos eles tem uma história, todos eles são histórias. São Paulos dessa cidade. Que é tanto o outro e que sou tanto em todas as contradições.

Quando tomo um açaí sentada na praça Dom Luis de Mascarenhas em frente à Igreja, me confronto com o sagrado e como Ele habita em mim. E me vejo discutindo o nado com um amigo, enquanto a cabeça está lotada. Quando subo a Catão e me inundo de Lapa, respiro árvores e me deparo com os crisântemos, crisântempos de Haroldo de Campos na biblioteca Mário Schenberg. Procuro literatura na garotinha agarrada no braço da mãe, na moça da limpeza e nessas letras invisíveis, que interessam tanto tanto, e em meio a contas, brinquedos e trânsito e assalto e fumaça e bolo com cobertura limão da Monteiro de Melo e elevador que demora três vidas em meia até o sexto andar e o cookie da Toddy e a preguiça diária só leio SampaSampaSampa.

Me perdoem, não tinha a pretensão de soar abstrata ou fingir filosofia, ai de mim que capacidade não tenho. Quis fazer uma reflexão concreta e lógica sobre a cidade metrópole provinciana grandiloquente minimalista, mas não deu. Apaguei como a luz aqui de casa depois da chuva de ano novo. Apaguei os vestígios de objetividade enquanto esperava a água voltar na cidade da enchente. Não se pode falar de São Paulo levada pela razão, caros amigos, você fala pelo instinto, pela fúria de quem crítica e “desce-lhe o cacete”, mas não aceita um “a” contrário a terra da gente.

Ser paulista é um tipo de masoquismo, sair da cidade é um pouco suicida. Porque sem o ar poluição-poesia-produção, quase pornográfico da cidade que nos abusa, nos molesta e enternece, não se sobrevive tanto tempo. Porque ser paulista é viver na linha fina de amar cada quarteirão impregnado de fumaça. E precisar sambar um bocado para se equilibrar.

São Paulo é uma tarde de tédio construtivo no Ibirapuera, a arte personificada no CCSP, ou os odores desagradáveis da CPTM, linha 9 Esmeralda, 18h de uma terça-feira. É cortar a poesia no ápice de sua solenidade e jogar o horror na nossa cara. Porque nós também somos música e fedor. E tudo misturado, e tudo embolado e tudo de uma vez.

SP é tentar chegar ao fim do texto sem falar de todos os lugares que habitam em mim diariamente. É gemer no sofrimento inveja ao pensar em textos tão melhores, tão mais inteligentes e lúcidos que pipocarão nas timelines e jornais e que dirão com palavras ajeitadinhas a bagunça em que vivemos. E eu tão suja de calor, na cidade cinza, da garoa que nem chove, escrevendo tão insanamente sobre o habitat natual. Mas se fosse certo, não seria E se fosse biscoito, não seria bolacha e nem pão francês, tão rotina, tão sem rotina. Porque São Paulo é um gole de café forte às 3 horas da matina de pantufas no verão e você não imagina história mais bonita para se viver.

* Meiri Farias é paulista até a alma e está sofrendo por viajar no aniversário da cidade, quando o principal motivo da viagem é sair de São Paulo por alguns dias. Cidade da contradição, quem sai aos seus não degenera

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