Abre Aspas / Música

Bruno Berle: Encontros, despedidas e uma viagem por Alagoas

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* Por Meiri Farias

Estou escrevendo este texto a aproximadamente 10 km de altura, dentro de um avião que me leva de Alagoas a São Paulo após duas semanas de férias. Depois de 14 anos, as irmãs Farias fizeram o caminho de volta para a cidade da família passando por estradas, serras, muito verde e principalmente, memórias. Mas além do que se pode ver externamente, essa viagem trouxe sensações, amores, lembranças e, como se pode esperar, a melancolia inevitável da despedida.

Foto: Mariana Olímpia

Foto: Mariana Olímpia

O CD “Arapiraca, Maceió, 2013”, do alagoano Bruno Berle também percorre essas sensações. O primeiro trabalho solo do vocalista da banda Troco em Bala é uma vigem entre afetos, amores e histórias que passaram na vida de Bruno. Dentro dessa viagem nos deparamos com o mar, a estrada, a memória e tudo que não se diz em um relacionamento mas transborda em cada nota.

O primeiro contato com o disco aconteceu justamente enquanto planejávamos a viagem, filhas de alagoanos e com uma forte ligação emocional com o estado, o título logo chamou atenção. Ouvimos as músicas a exaustão durante os preparativos e principalmente durante as pequenas viagens internas dentro do estado. Plano de fundo de encontros e adeus, o CD nada ficcional de Berle se tornou trilha sonora dos momentos que transcendem a localização geográfica Arapiraca – Maceió, e se instalam no imaginário do que entendemos por história de amor. As dele e as nossas.

Armazém de Cultura: A primeira coisa que nos chamou atenção foi o título do disco com a alusão as duas cidades, você poderia explicar um pouco sobre essa escolha?

Bruno Berle: Quando conheci a Bela, não saía de Maceió há 5 anos. Tendo feito “Bela 1” e “Bela 2”, percebi o quanto essa viagem foi importante pra mim. A paisagem de Maceió se modificou, comecei a ver a cidade de outra maneira, a admirar as árvores da Avenida Fernandes Lima, ficar acordado pra ver o nascer do sol por cima das casas do subúrbio… Consegui escrever sobre o que eu procurava: essa natureza e o amor que ainda resiste no meio da minha cidade. Procurando um nome pro disco, resolvi homenagear essas duas cidades e esse ano, que foram tão importantes no que eu faço e sou hoje.

Ouça “Anti-amor”:

 

 AC: Quando escutamos o disco sentimos uma sensação de ‘linearidade’, como se as canções seguissem uma mesma linha de raciocínio. Depois li em uma matéria sobre o disco que as canções estão literalmente na ordem que foram compostas. Foi proposital criar essa ordem, há algum motivo específico?

Bruno: Não sei se há uma linha de raciocínio, não vejo qualquer tipo de pensamento sobre a vida, uma verdade minha, nada. Isso foi totalmente intencional, simplesmente porque eu acho isso muito difícil de fazer. Não quero ser julgado dessa maneira pelas pessoas, quero que elas ouçam a música, pensem naquelas fotos e sintam o que quiserem, não quero dar conselho a ninguém.

 AC: A sensação que dá ao ouvir o disco é que existe uma atmosfera muito intima, talvez confessional. Como foi a composição das canções?

Bruno: O disco começa com uma música que eu fiz pra ninguém, ou pra alguém que eu tava esperando, e termina com uma despedida. Entre elas existem três pessoas. Tentei escrever sobre o que aconteceu, o que eu sentia, o que eu achava que elas sentiam também, tentei observar, a partir dessas imagens, o que estava acontecendo dentro da gente. Alguns filmes me inspiraram muito nisso, como “O Espelho”, “A Árvore da Vida”  e “Amor Pleno”.

 AC: Você tem outro projeto musical, a banda “Troco em Bala”, certo? Quais foram as maiores diferenças que você percebeu ao fazer um trabalho solo?

Bruno: Na Troco Em Bala a gente faz música pra tocar na guitarra, pra dançar e agitar, mas com muita dignidade. Já no meu disco não tinha esse compromisso, podia fazer o que eu quisesse. Além disso, não precisei usar instrumentos fixos: tem música sem bateria, sem guitarra, sem baixo.

Ouça o EP da banda Troco em Bala:

AC: E na questão da composição e sonoridade, o que muda da “Troco em bala” para o trabalho do Bruno Berle solo?

Bruno: Na banda a gente toca rock, com qualquer tipo de letra, no meu disco solo eu toco indie folk, com letras só de amor e ritmo lento.

AC: A internet tem se tornado cada vez mais importante e central na divulgação e distribuição da música. O lançamento do disco aconteceu pelo anuncio de blogs e o mesmo está disponibilizado virtualmente para audição. O que você acha dessa mudança no mercado fonográfico e como afeta os jovens artistas que estão iniciando suas carreiras?

Bruno: Eu acho que música, assim como tudo na vida, tem que ser democrático mesmo, temos que fazer de tudo pra aproximar as pessoas de todas as opções pra uma vida digna e interessante. Mas é difícil porque até essa democracia foi capitalizada: quem tem mais dinheiro tem mais espaço e poder nas redes sociais, blogs e etc., mas fico muito feliz de termos ainda muitos meios totalmente democráticos e buscando divulgar os artistas igualmente, como o Armazém de Cultura.

Foto: Izael Filipe

Foto: Izael Filipe

 AC: Falando nisso, como foi que você se descobriu músico? algum artista ou canção teve influência sobre essa descoberta?

Bruno: Comecei a tocar violão e cantar aos 7 anos, mas descobri mesmo que queria isso quando vi os Strokes na TV, aos 18 anos, que foi quando comecei a compor e entrei pra Troco Em Bala. Eu vi o clipe de “Taken for a Fool” e fiquei maravilhado com o comportamento da banda, a forma de tocar, era muito novo pra mim o universo indie.

AC: O nosso blog é de SP, mas gostamos de conhecer e explorar artistas que fujam desse eixo Rio-SP, o que você acompanha e indica da cena local? O que você indica para quem ouviu sua música e se identificou?

A cena local tem um bocado de coisa, mas só me identifico com essas 3 bandas: Alfabeto NuméricoUnidade Nova Praia e Os Pereira.

Ouça “Seus olhos”:

AC: E de forma geral, com quais artistas da atualidade você sente afinidade musical?

Bruno: Jose Gonzalez, Justin Vernon (Bon Iver), Kanye West, Racionais Mc’s, Rodrigo Amarante.

AC: Já apresentou o repertório do “Arapiraca, Maceió, 2013” ao vivo? se sim, como foi transpor o disco para o palco?

Bruno: Ainda não, mas já estou marcando alguns shows em algumas cidades.

Ouça “Bela 2”:

 

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