Abre Aspas / Literatura

Gabriela Abreu e um caderno cheio de poesia

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* Por Meiri Farias

A internet possibilita cada vez mais a ampliação dos espaços e suportes para a produção e divulgação artística. Você pode produzir seu material na rede, compartilhar e distribuir, ou ter acesso aos clássicos, conhecer grandes obras, baixar e-books. Por meio da internet você também pode expor seu trabalho e até mesmo conseguir financiar coletivamente suas ideias. A entrevistada de hoje do Abre Aspas soube muito bem como utilizar as ferramentas da rede para divulgar, sair do papel e voltar para ele novamente. Confuso? vamos explicar:

Gabriela Abreu tem 21 anos e a cabeça cheia de poesia. Sempre gostou de escrever, mas só quando morou fora do país percebeu a necessidade de criar “um pedacinho fora de mim com tudo aquilo que havia dentro de mim”. Comprou um caderno com folhas azuis que deu origem ao blog Meu Caderno Azul e agora depois de uma campanha de financiamento coletivo bem sucedida, volta ao papel para o lançamento de seu primeiro livro de poesias. Confira a entrevista e conheça um pouco do trabalho de Gabriela.

(Frente)_Gabriela Abreu_Meu caderno azul_7475

Capa do livro

Armazém de Cultura: Recentemente você fez uma campanha para financiar coletivamente o seu primeiro livro, como foi a experiência? Como surgiu a necessidade de levar o que fazia pela internet para o papel?

Gabriela Abreu: Foi uma experiência incrível. O projeto de publicação do livro já estava no papel há mais de um ano, mas inviável por questões financeiras. Então, tive a ideia do financiamento e fui atrás disso. E deu certo (ainda bem)! Mas foi complicado, primeiro por ser um livro, os brasileiros não consomem tanto literatura, segundo por ser poesia, se já é difícil ter um público leitor, público leitor de poesia é ainda mais. Contudo, tive muito apoio, isso me surpreendeu… Pessoas que não conheço, de outros estados abraçando o projeto, meus amigos e familiares que se dedicaram a contribuir e compartilhar incansavelmente e o pessoal do Partio.

AC: Como começou a escrever? Algum poeta em especial inspirou a sua criação?

Gabriela: Eu não consigo perceber um momento que comecei a escrever. Quando mais nova era um pouco mais introspectiva e escrevia para entender o que eu estava sentido. Mas não tinha uma disciplina, escrevia no caderno do colégio, no computador, ficava tudo perdido por aí… Terminei o colégio e fui morar fora, passei a escrever diariamente e percebi a necessidade de ter um lugar para eu colocar aquilo tudo. Assim comprei um caderno que tinha folhas e capas azuis, daí vem o nome do meu blog MeuCadernoAzul.com e do meu livro.

Sobre algum poeta ter me inspirado claro que sim, quando li Sentimento do Mundo, do Drummond passei a ver a poesia com mais força do que já via. Tinha mais maturidade e consegui entender um livro de poesia com a complexidade que ele trazia, entender o momento do autor, o contexto histórico daquelas palavras… Foi bacana. E quando entrei na PUC, fui numa palestra com a Adélia Prado. Já gostava da poesia dela e naquele momento me apaixonei também pela pessoa. Até cito os dois em um dos meus poemas no livro… Acho que foram dois momentos que entendi a responsabilidade de se escrever poesia.

AC: A maioria dos artistas que entrevistamos no último ano escolheu o crowdfunding como plataforma para lançar seus trabalhos, o que acha dessa tendência? Seria uma democratização da produção artística, já que o escrito não fica dependente de uma editora (ou gravadora, no caso dos músicos)?

Gabriela: Acho que a tendência é o crowdfunding crescer cada vez mais. Eu acredito que tenha público para os projetos, que é possível, só vai depender do empenho do artista e do site de arrecadação. Acho incrível esse meio de financiamento, pois faz o negócio dar certo. Você ver que o projeto do seu amigo deu certo te motiva a fazer o seu sonho dar certo também. Foi assim comigo… E outro ponto positivo é te deixar ‘livre’, estou publicando meu livro por uma editora que respeita meu texto e minhas ideias.

AC: Como é lançar seu primeiro livro ainda tão jovem? 

Gabriela: É ótimo! Estou muito feliz. Foi um sonho que nasceu beeeem aos pouquinhos… Sem nenhuma pretensão, a ideia é que eu possa levar meu coração para quem ler aquelas páginas, que eu possa compartilhar com as pessoas o que eu penso, o que eu sinto…

AC: Você estuda jornalismo, certo? Como é escrever para dois formatos tão diferentes como a poesia e o texto noticioso? 

Gabriela: Estudo e amo o jornalismo. É legal, são formatos completamente diferentes… Mas complementares (ao meu ver). Eu trabalho numa revista feminina, então, lido com assuntos mais tranquilos, de comportamento, arte e cultura. O jornalismo é fundamental para minha vida. Ele me dá uma base crítica, teórica, histórica que é fundamental para eu escrever literatura. A faculdade me mostrou ideias e caminhos que eu desconhecia, é muito gratificante ver essas mudanças de pensamentos, ideológica e cultural que isso me proporciona. A gente vai amadurecendo e passando isso para o nosso trabalho, no meu caso, para minha escrita.

Poesia publicada no Blog Meu Caderno Azul

Poesia publicada no Blog Meu Caderno Azul

AC: Consegue encontrar algum ponto de encontro entre essas duas linguagens? no jornalismo atual, tão pautado pelo hardnews é possível encontrar poesia?

Gabriela: Eu não posso dizer com muita propriedade sobre o hardnews porque nunca lidei diretamente com ele, mas sei que é bem pesado, trabalha-se muito e as notícias diárias não são das melhores coisas a serem compartilhadas –mas necessário compartilhá-las, é claro-. No hardnews acho mais difícil dar espaço para a poesia, mas acredito que sempre há lugar para ‘algo poético’. Em revista, documentário, programas de entretenimento ou coisas do tipo é mais fácil de se encontrar, esses meios nos permite mais. Eu mesma fiz uma matéria com a Maíra Lanna criadora da campanha Homens, libertem-se! e acredito que foi a matéria mais poética que fiz, ficou linda.

AC: Você pode nos adiantar algo sobre o livro? Teremos alguma novidade em relação ao conteúdo que já é publicado no blog?

Gabriela: Alguns poemas do blog estão no livro, mas tem muiiitos inéditos. Mas seguem, mais ou menos, o mesmo estilo já que foram feitos numa mesma época.


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AC: Já tem previsão da data do lançamento?

Gabriela: Vai ter uma festa de pré-lançamento dia 07 de março, junto com o pré-lançamento do CD do Paulo Novaes, mas essa festa é só para quem contribuiu nas nossas respectivas campanhas com cem reais ou mais. O lançamento oficial e aberto ao público será em Jacareí, minha cidade natal, também em março. Mas os livros estarão a venda comigo… Quem quiser adquirir é só mandar um e-mail para gabiabreusouza@gmail.com

AC: Para terminar, qual livro que é tão bom que você gostaria de ter escrito?

Gabriela: Já citei o livro aqui, mas gosto muito de Sentimento do Mundo, do Drummond. “Tenho apenas duas mãos, e o sentimento do mundo”, retrata a sensação de impotência sob tanta coisa que me entristece.

E um romance que amo é Dom Casmurro, já li várias vezes… Memórias Póstumas de Brás Cubas também adoro, é uma critica a burguesia que, embora escrito há muito tempo, continua atual. Machado de Assis era um gênio.

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