Abre Aspas / Música

Paulinho Tó: Falta água, sobra arte

4

* Por Meiri Farias

Abrir a torneira e não descer uma gota já se tornou parte do cotidiano de muitos paulistanos. Mas como a crise também é gatilho para a arte, Paulinho Tó usou da situação para criar a música “Lá na Lapa”, onde conta o drama de um morador da cidade que vai dormir com sede.

foto la na lapa

A crítica social é um tema que atrai Paulinho. Suas principais referências datam o período obscuro entre as décadas de 60 e 70, onde a crise política originou movimentos artísticos  que ecoaram e reverberam até hoje. Em 2014, influenciado pelos grandes festivais e shows manifestos, Paulinho se juntou a atriz Mariana Mayor e o músico Thadeu Tavares e montou o show Opinião 50 anos, misturando composições suas com canções que marcaram o repertório do espetáculo que marcou uma geração e revelou artistas como Nara Leão e Maria Bethania.

Conversamos com Paulinho sobre arte, política e as composições que originaram seu primeiro disco, Temporal (2014). Confira:

Armazém de Cultura: A canção Lá na Lapa fala sobre a falta d’água e outras questões políticas que interferem no cotidiano da cidade de São Paulo, como as manifestações, por exemplo. Poderia contar um pouco sobre a composição, como a música surgiu?

Paulinho Tó: A música Lá na Lapa, como quase todas as minhas músicas, surgiu de uma idéia inicial, e a partir daí, foi se desenvolvendo. A ideia inicial foi a de expor o drama de um morador da Penha que, pela falta de água, foi dormir com sede. E, como se não bastasse, esse cidadão que vai até a Lapa a procura de água, se depara com o aumento da passagem de ônibus, com as manifestações, os Black Blocs, e, por fim, leva um “cala a boca” da polícia.

Ouça “Lá na Lapa”:

AC: Além da música, percebi que você tem postado pequenas crônicas na sua página do Facebook. Você acha importante que os artistas demonstrem consciência política e social no seu trabalho?

Paulinho: Não acho que seja necessário para um artista falar de política em sua obra. A arte tem um aspecto anárquico que, a meu ver, tem que ser preservado. Mas, o que temos visto é justamente o contrário: muito pouco se fala de política na arte. A meu ver, a política é um elemento fundamental da vida humana e, por isso, pode ser mais abordada sim pelos artistas. O fato é que, independente de falar de política, todo artista, como todo ser humano, é um ser político e precisa fazer política para se colocar no mundo, para levar sua obra e suas ideias adiante.

AC: Falando nisso, recentemente você participou de uma série de shows em homenagem aos 50 anos do Opinião, que foi um marco da arte enquanto manifestações política no início da ditadura, além de revelar grandes artistas da MPB como Nara Leão e Maria Bethania. Pode contar um pouco sobre o projeto? Ainda teremos apresentações?

Paulinho: O Show Opinião foi, sem dúvida, uma das principais referências para a minha formação como artista. O Show Temporal, que desenvolvi em parceria com a atriz Mariana Mayor e o músico Thadeu Tavares, traz as canções do meu disco costuradas por pequenas cenas, tal como foi o Opinião. Além disso, o olhar na realidade social é um aspecto bastante presente no meu show.

A idéia de fazer essa homenagem ao Opinião surgiu em uma conversa com o Michel de Moura da banda Projeto da Mata. Os cinqüenta anos do Opinião nos pareceu uma oportunidade excelente para falarmos das questões políticas atuais. A receptividade do público foi surpreendente e, por isso, decidimos reeditar o show esse ano. Se em 2014 foi o cinquentenário do show, 2015 é o cinquentenário do disco – essa é uma ótima justificativa para continuarmos. Em breve terão novos shows.

AC: Na resenha que o site Musicoteca faz do seu disco, é feita uma relação do seu trabalho com os grandes festivais e uma identificação com a produção do período. Essa fase da música brasileira influenciou muito sua formação musical? que artistas você vê como referência para o tipo de música que produz hoje?

Foto: Página do Facebook do artista

Foto: Página do Facebook do artista

Paulinho: Os artistas da MPB das décadas de 1960 e 1970 são, sem dúvida, minha principal fonte de inspiração. Não apenas pelo aspecto formal de suas obras, mas também pelo sentido que as suas obras tinham na realidade em que eles viviam. A música Construção de Chico Buarque, por exemplo, não era um produto barato, feito baseado em pesquisa de mercado, etc. Era uma expressão rica do sentimento de uma época, com seus medos e anseios. As canções da MPB das décadas de 1960 e 1970 eram políticas no melhor sentido: materializavam um anseio coletivo de mudança. É esse, pra mim, um dos grandes legados dessa experiência musical.

AC: Em 2014 você lançou o CD Temporal, poderia contar um pouco sobre o disco? As composições são todas suas?

Paulinho: Sim. Duas delas em parceria com Mariana Mayor. Esse foi meu primeiro disco e reuniu as minhas principais composições dos últimos 3 anos. As músicas do disco não são necessariamente políticas, mas todas elas tem o olhar para a realidade. Recentemente tenho composto algumas canções mais líricas. Talvez eu venha a lançar um disco dessas músicas mais pra frente. Mas a maioria das minhas músicas, de uma forma ou de outra, fala de questões concretas. Mesmo “Mariana” ou “Janaína”, que são aparentemente canções mais líricas, não estão presas ao sentimento. Fala da relação de um casal, com a intenção de problematizar todas as relações. Tem aí certo realismo da nossa época.

AC: Uma curiosidade que nos surgiu logo na primeira audição do disco, é a quantidade de músicas com nome de Mulher. É proposital, há algum motivo específico?

Ouça “Mariana”:

Elas foram saindo naturalmente. Quando vi já estava cheio de mulher no meu disco (risos). Mas são mulheres fictícias, somente inspiradas na vida real. Algumas pessoas imaginam que minha música Mariana, seja uma homenagem a Mariana Mayor, que, além de me acompanhar nos shows, é minha companheira na vida também. Mas não. Essa música é, na verdade, uma parceria nossa.

AC: Quais seus planos para 2015? Pretende fazer show em São Paulo em breve?

Sim. Estamos montando a nossa agenda do ano nesse momento. Em breve terão novos shows em São Paulo e em outras cidades também. Curtam minha página no Facebook que manteremos as informações atualizadas lá!

Ouça “Samba do perdoa”:

­

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s