Cinema / Especial Oscar 2015 / Questão de Opinião

Whiplash: Qual é o limite da obsessão?

kkkok

* Por Beatriz Farias

Quando eu tinha mais ou menos nove anos entrei para um curso de música básico em uma boa instituição para aprender a tocar violino. Lá fiquei por cinco anos entre o prazer de me apresentar e a angustia que era a maioria das aulas onde mesmo com esforço sub-humano para parecer feliz em aprender, sentia dores nas costas, cabeça, dedos e na consciência. Antes que pareça que mudamos a linha editoria o blog: descobri neste último sábado que ia assistir Whiplash – em busca da perfeição, sem pesquisar muita coisa ou me envolver com criticas feitas a favor ou contra, fui ao cinema esquecendo de fazer qualquer relação direta. Não digo que a relação justifica a opinião, mas aquilo que nós humanos escrevemos sempre é fruto de um pré-conceito, então há de haver ligações.

Whiplash em Busca da Perfeição

O filme conta a historia de Andrew Neyman, (jovem baterista que sonha em se tornar lenda na música), do momento em que toca para Terence Fletcher (importante nome do jazz), e consegue uma vaga de substituto da orquestra principal do conservatório de Shaffer, a melhor escola dos Estados Unidos onde Fletcher é mestre.  A partir daí embarcamos na vida do garoto que ora admiramos a forca de vontade, ora desprezamos a arrogância em se permitir ter nada alem do instrumento. A viagem tem trilha sonora (atente-se a comparação bizarra) estilo desenho animado, não em ritmo e estilo mas em contexto: regado a um baixo, instrumentos de sopro e percussão, sentimos aflição, suspense, e explodimos na sutileza da piada sem que a frase necessariamente seja verbalizada.

Whiplash poster

O que parece absurdo e cômico para um ouvinte soa vida real para um músico de orquestra. A pressão imposta pelo maestro não tem extrema diferença da auto pressão de um ensaio, onde ensinar pelo medo da humilhação é boa didática para aprender mais rápido. É daí que se tira o chapéu para J.K. Simmons e a construção bem fundamentada do personagem, as oscilações de humor descaracterizam o papel de “vilão” e o torna um ser humano cruel, mas de verdade. Paul Reiseros, que faz o pai do menino Andrew também merece atenção. Nota-se um bom ator quando se encontra uma forma de fazer muito sem um papel de tanta importância: Jim (Reiseros) é discreto mas cuidadoso, não tem estereotipo, só um pai preocupado com o filho. O filme perde pontos quando se trata do romance; faz sentido ressaltar as relações que Andrew (não) tem, mas a tentativa torna-se fracassada, apesar do diálogo interessante em uma conversa, parece ao fim uma jogada para o trailer tornar-se mais atrativo.

Das cinco indicações ao Oscar (Melhor filme, melhor ator secundário, melhor roteiro adaptado, melhor montagem, melhor mixagem de som), apostei em melhor ator secundário e melhor mixagem de som, e acredito que um filme ganha como melhor por uma série de fatores, mas se tivesse esse poder, daria a estatueta pela primeira e última  cena do filme; de olhos fechados, ou em um palco em extrema agonia o que resta é uma bateria insistente que não fosse pela curiosidade, faria uma sala cheia e ansiosa ir embora pelo sufoco imaginando o que estava por vir, já que não há como decidir o que quer que aconteça, tudo é relativo.

Ainda quando estudava música, tive a sorte de ter um maestro e professor extremamente generoso, e ainda assim vi gente crescendo e gente que todo ano fazia provas e reprovava, cheguei a achar que o prazer estava simplesmente pelo sofrimento de tentar, e finalmente entendi que quando desisti fui mais corajosa do que em todos aqueles anos. Diga o que quiser Andrew Neyman, ser extraordinário ou não, não é questão de fama.

 

Direção: Damien Chazelle. Elenco: Miles Teller, JK Simmons, Paul Reiser.

Duração: 107 min.   Classificação: +12

Trailer:

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