Cinema / Especial Oscar 2015 / Questão de Opinião

O Jogo da Imitação: Os complexos mecanismo de uma máquina chamada cérebro

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* Por Meiri Farias

O Oscar é um prêmio tradicional e importante para entender o universo do cinema, mas é impossível não perceber a linha de raciocínio, deveras, tendencioso da academia. Temas bélicos. Temas científicos. Cinebiografias. E por último, mas não menos importante, filmes “baseados em fatos reais”.

O filme da qual falaremos hoje reúne todos esses elemento, e , embora não tenha predileções por clichês da academia, achei O Jogo da Imitação interessantíssimo. Baseado na biografia de Alan Turing, pioneiro no estudo da inteligência artificial e considerado um dos pais da computação, o longa levou a estatueta de melhor roteiro adaptado.

O jogo da imitação

O enredo se localiza historicamente no período da  Alemanha nazista, onde os centros de inteligência britânica procuravam uma forma de desvendar o Enigma, (máquina usada pelos alemães para criptografar mensagens secretas). Turing se torna chefe da equipe e diferente dos métodos tradicionais usados pelos demais, ele concentra seus esforços e construir uma máquina que solucionaria o segredo do enigma e revelaria qualquer mensagem.

É um filme que tem a guerra como fundamento, mas não se utiliza dela como constante aparato estético (eu tinha prometido, mas não vou resistir): diferente de Sniper Americano, O Jogo da Imitação deixa bem claro que uma guerra não se ganha com tiros e sim com cérebros. E que estes, podem ser muito mais letais. Em certo momento, é a equipe de Turing que delibera as informações que serão passadas para os comandantes da guerra, o que acaba por determinar quem sobrevive ou não. O segredo se torna mais importante do que a vida das pessoas.

Em alguns momentos, parece que Turing está dialogando diretamente com o espectador e há idas e vindas nas memórias do matemático, o que causa certa confusão por não evidenciar as mudanças de contexto. Ainda assim, o filme se destaca pela construção da personalidade de Turing, socialmente deslocado, arrogante e com complexos emocionais muito fortes. Aos poucos vamos compreendendo como ele é fruto de conflitos que carrega desde a infância.

O jogo da imitação Poster

O que há de mais rico no longa é a apropriação da ideia sobre inteligência artificial relacionada a todas as tramas do filme. As engrenagens da guerra se assemelham às engrenagens da máquina de Turing, já a criptografia não é tão complexa assim, já que a nossa comunicação do cotidiano também é um mistério a ser decodificado e o como o pequeno Turing afirma, as pessoas nunca dizem o que realmente gostariam. Os mecanismos das máquinas são também associados ao funcionamento da mente humana. Quando é interrogado, Turing diz que “só porque alguma coisa pensa diferente de você, não quer dizer que ela não pensa”. Há uma referência a toda a organização social do período, a alienação de ideias e valores também é questionada, revelando a intolerância com a diferença.

Dois casos se destacam nesse exemplo, de forma tímida e sutil, vemos o feminismo na figura de Joan Clarke, única mulher da equipe e sua relação de amor verdadeiro (que por isso mesmo, devemos chamar de amizade) com Turing. E de forma especial, talvez superficial, a homossexualidade do protagonista em um época onde tal comportamento era considerado indecoroso e criminoso.

O filme poderia ter trabalhado melhor esses aspectos, Turing chegou a ser submetido a castração química, via ingestão de hormônios femininos e depois a situação extrema o levou ao suicídio. Ainda assim, a proposição de analisar os mecanismos sociais, técnicos, científicos, morais e humanos criam um filme inteligente e instigante. Criando paralelos com nossa sociedade pós- moderna, acho que até Turing se assustaria com a proporção (e poder) que as máquinas ganharam e o quanto nós  estamos cada vez mais parecidos com elas.

Direção: Morten Tyldum . Elenco: Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Matthew Goode

Duração: 114 min.    Classificação: +12

Trailer:

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