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(Bônus) Para Sempre Alice: A arte de perder

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* Por Meiri Farias

Qual é o bem mais preciso do ser humano? Ok, um clichê para começar o texto não é o mais adequado, mas insisto mesmo assim: O que é mais importante na vida de uma pessoa? O que a caracteriza, a distingue, a individualiza (também a coletiviza). Alguém pode citar os bens, as conquistas, os objetivos. Tudo bem, pode ser. Mas o filme Para Sempre Alice nos traz uma reflexão muito maior que engloba esses aspectos entre tantos outros: O bem mais preciso do ser humano é a memória.

O filme de Richard Glatzer e Wash Westmoreland, estreia no país no próximo dia 12, ma já ganhou certa notoriedade por ter levado o Oscar de melhor atriz, para Julianne Moore. Para Sempre Alice é um filme sobre o Alzheimer, onde a personagem título é diagnosticada precocemente (apenas 50 anos) e a história se desenvolve juntamente com a doença, a partir da intensificação das perdas de Alice: da memória, do cotidiano, do seu “eu”.

para sempre alice

A história começa apresentando a rotina e o contexto no qual Alice está inserida, seu aniversário e meio a família, rotina e sua profissão. E é a partir da última que o drama da personagem começa, Linguista reconhecida, Alice está palestrando em um congresso quando esquece uma palavra importante de seu discurso. Embora saiba contornar a situação com bom humor, é possível notar seu visível desconforto. A situação se repete quando se perde durante uma corrida pelo campus da faculdade na qual leciona. Não há falas, nem grandes interferências, mas o desorientação de Alice também nos desorienta pelo nível tão palpável de sua aflição.

Quando Alice decide procurar ajuda, temos uma cena bastante interessante e peculiar para o desenrolar da história. Quando a personagem se confronta com o médico, a câmera está fechada o tempo todo em seu rosto. Ouvimos a voz do doutor, suas perguntas e comentários, acompanhando as reações e expressões de Alice, mas não o vemos. A figura do médico, assim como a doença, é um índice, uma possibilidade.

poster para sempre

O médico aparece na segunda consulta e com ele os primeiros diagnóstico. Agora o alzheimer é uma probabilidade e, proposital ou não, essas cenas ajudam a acompanhar o quadro onde vemos a construção da personagem por Julianne Moore e a sua relação com a doença que se insinua e se instala em seu corpo e cotidiano. Alice se prepara com anotações, vídeos e nas relações por vezes conturbadas com a família. No desenrolar dos fatos conhecemos um pouco da personalidade de John (Alec Baldwin), um marido prestativo e paciente, mas não estereotipado. Diferente dos melodramas que trazem doenças terminais como ponto de partida (triste ironia), o cônjuge não abdica de sua individualidade para se dedicar integralmente a mulher. John é dedicado, mas mantém sua rotina, trabalhos e objetivos. Outro ponto a se destacar é a relação entre Alice a filha Lídia (Kristen Stewart) cheia de conflitos, desacordos e afetos, responsável por algumas das melhores cenas do filme.

Para Sempre Alice não é apenas uma história sobre uma doença, mas a história de como uma pessoa que se define por seu intelecto o vê comprometido sem conseguir interromper sua degradação O centro e argumento que move o enredo é a perda, ou “a arte de perder”, como chama Alice. Com ternura, o filme não subestima o público com sua velocidade e talvez por isso mesmo, perde a chance de se aprofundar em alguns pontos interessantes como as lembranças da infância que insistem em aparecer quando a personagem já está cada vez mais longe do presente. Esse momento me recordou de um trecho do livro “Leite Derramado”, do Chico Buarque, onde o personagem já quase senil mostra como as memórias do passado são mais fortes do que o presente “Ao passo que o tempo futuro se estreita, as pessoas mais novas têm de se amontoar de qualquer jeito num canto da minha cabeça. Já para o passado tenho um salão cada vez mais espaçoso, onde cabem com folga meus pais, avós, primos distantes e colegas da faculdade que eu já tinha esquecido”.

Ainda assim, é normal que adaptações (no caso a partir do livro de Lisa Genova) perca alguns detalhes da obra original, mas no caso não chega a comprometer o enredo. Para evitar spoilers, basta encerrar dizendo que o final do filme surpreende por sua delicadeza e acerta ao deixar no ar certos pontos da história. O título escolhido para versão brasileira, “Para Sempre Alice”, parece ainda mais acertada do que o original Still Alice (algo com ‘Ainda Alice’). Em meio as suas confusões, Alice é um espelho fiel do nosso medo de perder.

Direção: Richard Glatzer, Wash Westmoreland. Elenco: Julianne Moore, Alec Baldwin, Kristen Stewart

Duração: 101 min.

Trailer:

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