Abre Aspas / Especial dia da Poesia / Literatura

Gincobilando: Poesia que se lê ouvindo

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* Por Meiri e Beatriz Farias

Alguns figurões da imprensa podem tentar te fazer acreditar que a genialidade de seus escritos se dá pelo brilhantismo de sua mente, sacadas inteligentes, talento nato. Hoje vou revelar o segredo dos segredos: O responsável é o gravador ou o bloquinho, somente. Saturado de informação nem o jornalista escapa dos desvios da memória “o que será que fulano disse mesmo?”, e lá vamos nós buscar apoio nessas pequenas muletas que se encarregam de dar um pouquinho de credibilidade, quiçá, dignidade aos nossos escritos. Pois bem, quando termino uma entrevista a primeira medida de segurança é conferir se a gravação está salva, mensurar o tempo levado e imaginar de leve como isso vai parar no meu papel, na sua tela. Logo depois, a medida de sanidade é tentar se desconectar da conversa que continua acontecendo dentro da mente por dois dias, três ou vários. Só de cabeça limpa e objetividade na ponta do lápis começa-se a dar sentido a esse material absolutamente subjetivo. Como jornalista não rima com luxo, meu gravador é bem medíocre. O coitado se esforça em captar a voz dos interlocutores, mas é bem mais eficiente em dar um rolê no entorno e descrever o que nos cerca: A agitação da rua que invade pela janela, buzinas e conversas velozes, o teclado do computador ditando seu próprio ritmo organizado, o vento que invade o sétimo andar e canta sua própria melodia. Estamos em São Paulo de clima caótico, qualquer sopro é uma canção. Tudo isso misturado à nossas vozes, pequenos movimentos agitados e tudo mais que o pequeno artefato de tecnologia limitada ousa armazenar. Inclusive e principalmente o turbilhão barulhento de pequenas pausas silenciosas. Estamos no centro da cidade cinza, mas o ap71 transborda cor em sua arte. 10599505_922174931132133_7806222614478926769_n Sonoridade que reorganiza O cheiro de café nos sincroniza com o tempo, é manhã, meio de semana, é a cidade que corre pela janela. Mas nós não. Nós nos debruçamos sobre a vontade de ler a arte com a calma de quem tem a vida inteira para ouvir. E aprender. É dessa forma que encontramos Arthur Krokovec e Desa Pauline. 10991371_1033523799997245_3401306730531179858_n A conversa é sobre arte, apropriação e trabalho, e como encontrar tudo isso na poesia diária do cotidiano, “Tem um lugar aqui que vende pastel e outras coisas, aí tinha uma folha de sulfite grudada na parede ‘TEMEMOS ACARAJÉ’, era temos acarajé, mas não era. E aquilo me gerou uma sensação, eu ri. Eu vi poesia ali”, diz Arthur. Essa facilidade de ver poesia onde não enxergamos , faz com que as palavras do Arthur saltem na tela e também causem sensações, das quais nos apropriamos  e que também é – por que não? – genuinamente nosso “O que eu escrevo não é exatamente meu”. Somos embalados pelas letras que dançam. “O lance da sonoridade ele acaba surgindo nesse lance que me é organizável, o que eu posso organizar”, Arthur fala sobre essa relação com os som e como ele ativa lembranças, memórias, e modifica a leitura da mensagem que recebemos. “Tem muitas coisas que eu escrevo que elas lembram coisas que as pessoas falam”. Frases como “Não chore pelo leite, dê remadas”, provocam associações com ditos populares, frase do cotidiano que fazem parte de uma memória coletiva, que ativa um repertório interno. E causa uma sensação. “Quando escrevo com a intenção do som, é com a intenção de causar sensações”, conta , “e a vontade de causar sensações é um convite a proximidade e esse convite a proximidade é eternamente um convite a comunicação”. 3 Encontros Desa e Arthur gentilmente nos oferecem uma xícara de café, mas não aceitamos. Para mim, o café não ajuda a despertar, mas a reorganizar as coisas nas madrugadas de redação. Mas é o cheiro do café, a sensação de casa. O cheiro de família. Arthur foi o primeiro a chegar no ap 71 e aos poucos os espaços foram preenchidos por artistas que foram chegando e se encontrando. Entre eles Desa e Edu Sereno, que também já entrevistamos. É interessante notar como a cada entrevista nos conectamos mais a ideia de lugar. Quando conversamos com Dois Tempos, o encontro se deu no CCSP que tem grande valor afetivo para a dupla. Já com o Edu, a Praça Roosevelt foi o espaço para desvendar suas composições e ideias. Conversar com Athur no ap reintera a minha teoria da importância dos espaços que escolhemos como extensão daquilo que somos. No ap composições nascem, poesias surgem, tudo no espírito colaborativo que só verdadeiros encontros proporcionam. Nesse encontro de ideias nem sempre é necessário registro. A arte se faz pela arte e se encerra em sua capacidade de causar (algo) no agora. A presença de músicos trocando ideias e melodias é absorvida e externada na poesia de Arthur, ajudando na percepção da sonoridade de seu trabalho. Elas dançam e cantam memórias, momentos e principalmente sensações. ” A convivência gera algo maior e acabou reverberando em todos os trabalhos”, conta . Arthur também vê a arte a partir das interferências externas, o que alguém disse, como reagiu a alguma situação externa, “tem muitos outros universos em volta que não entram nos créditos”. Na velocidade da timeline Em uma conversa, Arthur ouve de uma senhora que estava tomando Ginkgo biloba para ajudar na memória, “Foi um nome que me fez sorri”, explica. Causou uma sensação. 10665340_939865122696447_3842603160044919159_n O Ginkgo biloba é uma planta de milhares de anos, considerada símbolo de resistência por ter sido a primeiro a brotar depois das explosões atômicas no Japão. O Gincobilando é o espaço onde as sensações de Arthur se organizam. Começou com uma coluna no site Obvious, onde trazia um caráter mais dissertativo, jornalístico, mas já carregava uma intenção poética. A palavra “Gincobilando“, trás uma ideia de algo que está acontecendo, continuidade. Hoje, no Facebook, surge como a organização do caos em pequenas doses de semelhança na velocidade da timeline, “na velocidade da vida”. As vezes acompanhado de ilustrações de Natália Scromov que se transfigurou em mais um parceria artística “não é o desenho da Natália, não é o meu poema, é uma junção”. É encontro. Arthur está em fase de estruturação do que escreveu nos últimos anos para transformar em livro. O objetivo é fazer com que as pessoas consigam ler ouvindo, escutem com olhos. É a sonoridade novamente, “O som é uma das maneira mais de importante de causar sensações”, diz. O trabalho também já pode ser conferido nos imas que são vendidos em lojinhas durante shows de artistas amigos e no espaço Parlapatões. 10461998_747618938613694_8132348739150060795_n Poesia é apropriação Se entrar no ap nos remete lar,ler os poemas nos faz chegar no nosso canto favorito da casa: a imaginação, o que não precisa registrar, o átimo natural e indescritível do momento. Focar (degustar, devorar) essas imagens compostas por letras é apropriar-se do que é nosso. è a nossa catarse, é a dia a dia, é ver algo tão exorbitante em plena timeline e se sentir no direito de compartilhar. Poesia é apropriação desde o momento que se inspira na rua, na padaria, no senhor, no mendigo, até chegar nos nossos olhos, que dançam também. Sem título Em breve postaremos a segunda parte da conversa, focada na entrevista da Desa!

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