Abre Aspas / Música

Os encontros musicais e poéticos de Bruno Roberti

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* Por Meiri Farias

Desde de 2012 quando comecei a ouvir majoritariamente música nacional (okay, sempre pode-se abrir exceção para The Beatles, mas não vem ao caso), percebi um fenômeno interessante: um artista puxa o outro e depois de encher uma playlist, todos os universos encontram pontos de conexão de alguma forma. E todos eles puxaram e resultaram no Armazém de Cultura.

Com o Bruno Roberti a situação foi semelhante, seu trabalho chegou até nós a partir de outros artistas – que por sinal, conhecíamos de lugares diferentes – e despertou interesse ao reconhecermos sua música dentro de um universo familiar, mesmo sem ter escutado antes, e ainda assim parecer absolutamente novo e vivo.

Essas conexões também são percebidas por Bruno, que vê nesses encontros musicais e poéticos uma fonte de contato com a diversidade da produção atual “Noto que cada vez mais há uma busca por maior unidade e intercâmbio entre os artistas da cena independente, o que é muito saudável e necessário”, diz.

Roberti foto

Foto: Thais Lima

Armazém de Cultura: Você concluiu seu disco a partir do sistema de financiamento coletivo. Como foi a campanha? Percebemos que a maioria dos artistas que entrevistamos no Armazém, tem escolhido o crowdfunding para lançar seus trabalhos. Muitos deles comentam a questão da “proximidade” com o público como uma das maiores vantagens, já que o fã se torna participantes do processo. O que acha?

Bruno Roberti: Realmente muitos dos artistas independentes optam por esse caminho, pois além de promover uma interação com seu público e garantir uma distribuição inicial do disco logo em seu lançamento, é uma forma de levantar os recursos mínimos necessários em um prazo relativamente curto. Projetos de lei de incentivo são mais complexos e burocráticos, além de levarem mais tempo para serem viabilizados. A campanha no Catarse foi muito bacana, é gratificante ver tantas pessoas incentivando e se identificando com minha trajetória e proposta musical. Durante o processo procurei fazer contanto pessoal com o público mais próximo, amigos e família, para garantir o apoio inicial sem ter que desgastar a comunicação nas redes sociais, que usei pontualmente como lembrete. Justamente por ter muitos profissionais recorrendo ao financiamento colaborativo, acredito que é preciso tomar cuidado para não se exceder nos compartilhamentos, pois o bombardeio de pedidos para participação pode ficar cansativo ou até mesmo gerar uma imagem negativa para quem o criou.

AC: Percebemos que as pessoas com que conversamos nos últimos tempos (como Márcio Lugó, Edu Sereno, Danilo Moraes) sempre se encontram na música de alguma forma. Você acha essa geração se influência mutuamente? São referências para você?

Bruno: Sem dúvida… nos últimos dois anos tive o privilégio de conhecer grandes talentos e enormes corações! Eu acho que de um jeito ou de outro realmente acabamos conhecendo a maioria dos colegas, pois na maioria dos casos estamos caminhando com os mesmos propósitos, independente de estilos. Muitos deles se tornam ainda mais próximos por afinidade estética e pessoal. Por frequentar os mesmos lugares, e ter muitos amigos em comum, acaba sendo inevitável. Vou citar alguns, caso o leitor se interesse em pesquisar e enriquecer seu repertório. Meu parceiro Paulo César de Carvalho propiciou muitos desses encontros, como com o cosalinda Danilo Moraes. Em sua casa também conheci Glaucia Nasser, Pélico, Zhimber, Felipe Chacon (Cardume), Galego, Tatá Aeroplano e muitos outros talentos. Já no AP 71, onde rolam saraus organizados pelo Sereno, passei a conviver com Marco Vilane, Andrei Furlan, Desa, Pedro Bienemann, Paloma Carvalho, o pessoal da 5PRAStANtAS e reencontrei o querido Lugó, que havia conhecido anos atrás. Também tem meu irmão Pablo Sganzerla, que lançou seu álbum “Pó de Nuvem nos Sapatos” próximo a “Lar”, e é meu amigo pessoal há tempos – mas a música fez com que nos aproximássemos bastante nos últimos tempos; e tive a sorte de estreitar laços com a dupla dinâmica Jessé Santo e Jota Erre – este me deu a honra de gravar em “Lar”, e também possui seu próprio trabalho artístico, “Por Extenso”. Gostaria de citar a Musicoteca, do Web Mota, que desempenha importante papel na integração da cena, pois sua curadoria, além de oferecer acesso a novos lançamentos de música independente para o público, acaba facilitando o contato entre os artistas lançados por lá, seja em eventos ou encontros informais. Recentemente também participei de um projeto bacana do músico Léo Versolato com o Di Pietro, do Jardim Elétrico, promovendo saraus abertos ao público, com a proposta de informalidade do saraus fechados que normalmente são restritos aos artistas e seus amigos. Aos poucos as turmas vão se entrosando, alguns fazem parceria com outros, isso é muito massa. Hoje a pluralidade de referências é maior que do nunca, e essa rede é muito rica para que se possa ter contato com a diversidade musical produzida nos tempos atuais, agora. Noto que cada vez mais há uma busca por maior unidade e intercâmbio entre os artistas da cena independente, o que é muito saudável e necessário.

Ouça “Eu comigo mesmo”:

AC: Você compôs algumas músicas com o poeta Paulo César de Carvalho, como foi essa parceria?

Bruno: O Carvalho é essencial em minha caminhada. Logo que decidi me dedicar à música, nos encontramos em um show dos Babilaques, sua banda na época, em 2011. Fiquei impressionado com a qualidade de suas criações, trata-se de um poeta e letrista muito especial. Trocamos uma ideia e combinamos de nos encontrar na semana seguinte. Fizemos nossa primeira canção nesse encontro e daí não paramos mais, hoje já são mais de 50, três delas gravadas em “Lar”. Hoje o tenho como um irmão. Atualmente temos um projeto em parceria, de um disco conceitual, com dez músicas nossas compostas para o álbum, e queremos viabilizá-lo em breve.

AC: O CD também conta com diversas participações especiais, pode contar um pouco como aconteceu?

Bruno: Buscamos convidar artistas com identificação com o projeto, caso do Toninha Horta no samba-jazz “Libertas Quae Sera Tamen” e de Seu Jorge no samba-rock “Descarada”. O Dudinha, produtor musical do disco, enviou um e-mail apresentando o projeto e as músicas, e aí ficamos na torcida para eles aderirem… O Toninho, de quem sou fã desde adolescente, logo respondeu e foi só questão de encaixar uma ida dele a São Paulo. Fiquei muito emocionado, não acreditei. Ele foi super solícito, gravou com muito carinho e deixou sua marca inconfundível dos violões e guitarras mineiros do Clube da Esquina. Com o Seu Jorge estava difícil de fazer o contato, na época ele estava com diversos projetos e dificilmente parava em São Paulo. Mas um dia conseguimos armar com ele uma visita a sua casa, e para não perder a viagem, levamos equipamento e microfones – caso ele topasse gravaríamos lá mesmo. E aí acabou rolando, gravamos na sala de sua casa, em uns 3 ou 4 takes. Ele é especial, swinguero, afinadíssimo, e também foi gente finíssima – foi outro momento inesquecível pra mim. Além deles, também fiquei muito honrado com a participação de Toninho Ferragutti, sanfona em “For All Blues” e “Birita”, e de Ricardo Herz, que gravou todos os violinos do disco.

Ouça “Descarada” com a participação do Seu Jorge: 

AC:  Você mudou para Recife recentemente, certo? Qual é a maior diferença entre tocar aí em relação a São Paulo?

Bruno: Cheguei a Recife no fim do ano passado e está sendo uma experiência incrível, pela mudança no estilo de vida e também pela riquíssima diversidade cultural e musical. Vou começar a me apresentar em breve, mas vejo que há um público muito interessado por música independente e tenho sido muito bem recebido. Já fui a alguns shows em lugares interessantes aqui, que se assemelham a muitas casas do circuito de casas paulistano… então estou positivamente impressionado e empolgado para começar a tocar.

roberti

AC: Falando nisso, que artistas fora do eixo Rio-SP indicaria para quem gosta do seu trabalho?

Bruno: Aproveitando que estou na nova terrinha, recomendo uma galera jovem daqui de Pernambuco, que tive o prazer de conhecer e/ou ouvir desde que cheguei: Bandavoou (Carlos Filho e PC Silva), Almério, Zé Manoel, Raphael Costa, Ylana Queiroga e Sons de Varanda são alguns deles. Também tem o lindo trabalho da Isabela Moraes, que fez o caminho inverso e agora está em Sampa.

AC: Quais são seus planos? Pensa em lançar novo disco?

Bruno: Por enquanto vou trabalhar esse segundo ano de “Lar”, agora em nova casa, mas continuo compondo e para o próximo ano penso em começar a produção do segundo disco. Também tenho o projeto do álbum em parceria com o Carvalho, que citei acima, e que desejamos viabilizar em breve.

Ouça “Desnecessário”:

 

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3 thoughts on “Os encontros musicais e poéticos de Bruno Roberti

  1. Bruno Roberti, me encanta com Lar. Música brasileira da mais alta qualidade. O blog do Armazém revela tesouros. Parabéns pelo incentivo e divulgação. Parabéns Bruno Roberti por difundir boa arte.

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