Música / Questão de Opinião / Te conto o show

Dá uma vontade de ficar: Rubel no Estéreo MIS – 20/mar/2015

* Por Meiri Farias

Sexta- feira é um dia de caos em São Paulo. Não, não é o dia de se animar para o fim de semana, é o dia de dar conta de tudo que empurrou com a barriga nos último sete dias. Em 24 horas. Sexta é um dia de caos em SP, mas em uma noite fria é possível (é preciso) abrir um espaço na agenda,  no tumulto, na correria e mergulhar na intensidade da música do Rubel.

Foto: Letícia Godoy (via página oficial do artista)

Foto: Letícia Godoy (via página oficial do artista)

Quando criei o Armazém  (julho de 2014), estava absolutamente encantada pelo disco Pearl, do jovem carioca. Neste texto, conto sobre como suas músicas são “coloridas” e a necessidade de escutar em vez de apenas ouvir. Na entrevista descobrimos nuances no trabalho e passei a ouvi-lo com mais atenção e ansiava por  ver o CD se desdobrar ao vivo. Na última sexta a oportunidade chegou e Rubel se apresentou pela primeira em São Paulo no palco do Estéreo MIS, um projeto do Museu da Imagem e do Som que a quatro anos abre espaço para fortalecer e estimular a música independente nacional.

Como disse no início do texto, sextas são caóticas em Sampa, e essa foi temperada com chuva, trânsito e Metrô lotado. Dia maluco, semana maluca e por muito pouco quase desisti de me aventurar para chegar ao MIS. Ainda bem entre o quase e a decisão existia uma vontade enorme. Munida de guarda-chuva e impaciência atravessei parte da cidade e me deparei com uma pequena movimentação, uma pequena fila que já se formava e uma leve impaciência que se alimentou com um pouco de atraso.

Confira a entrevista que fizemos com Rubel no início do Armazém!

O auditório do MIS é simpático, mas consideravelmente pequeno com capacidade para apenas 172 pessoas. Por isso mesmo, os ingressos se esgotaram em uma noite. Mais alguns minutos e moço das melodias bonitas é anunciado: Rubel inicia o show com a canção “O Velho e o Mar”, acompanhado por Gus Levy na guitarra, Pablo Arruda no contra-baixo e Antonio Guerra na sanfona, além de projeções fabulosas de Rafael Galo. Nesta primeira música, um barco ocupava o telão e fazia com que não apenas quem estava no palco, mas todos nós nos sentíssemos um pouco no mar.

Foto: Letícia Godoy (via página oficial do artista)

Foto: Letícia Godoy (via página oficial do artista)

Rubel cumprimentou o público com um “Boa noite São Paulo”, seguido por “sempre quis dizer isso”. O músico conversa com o público entre as músicas sempre aparentando timidez e certo humor. Mas a timidez some quando Rubel pega o violão e solta a voz – que por mais lugar comum que possa parecer, literalmente ecoa e preenche todo o ambiente. É necessário muito mais conhecimento técnico do que ouso tentar para analisar e explicar o timbre, a sonoridade e todos os atributos que valorizam a música do artista. Como leiga, prefiro me apoiar no que conheço: a voz do Rubel emociona. A voz do Rubel silencia o público até então inquieto, que compreende que é preciso ouvir. Mais que isso, é preciso sentir a melodia que chega de forma quase palpável até nós e mais uma vez, colorida.

A apresentação ao vivo nos faz penetrar em mais uma camada da compreensão de Pearl. A linha narrativa e melodia das canções, associadas as projeções, trazem nova interpretações, novas apropriações do que está sendo tocado. No silêncio reverente ou quando se atreve a acompanhar (incentivados em certo momento por Rubel, que pede para todos cantarem juntos como se fossem “uma banda só”), algo acontece entre a música de Rubel e nós. Algo tão forte capaz de tirar indivíduos que correm e surtam nas sextas-feiras, do caos de SP. É breve, dura pouco mais de uma hora, mas acontece. Por alguns instantes também estamos na Pearl.

As canções do disco evoluem entremeadas por alguns covers, da qual é impossível não destacar o momento que canta “Tocando em Frente” (Almir Sater e Renato Teixeira). A música tão conhecida de todo mundo, com tantas (e tantas e tantas) releitura é absolutamente verdadeira. Rubel c(a)onta histórias que relacionam a canção a sua carreira e sua interpretação é tão sincera que você não pode duvidar que naquele momento a música é dele. Rubel canta como quem revela uma história, a sua, a do compositor e por que não, um pouco da nossa também.

Foto: Letícia Godoy (via página oficial do artista)

Foto: Letícia Godoy (via página oficial do artista)

Mesmo dentro do estado de torpor e encantamento que só a música feita com amor pode causar, o relógio não perdoa, o tempo ficou curto para mim e precisei cometer a abominação de sair alguns minutos antes do fim do show. Não sem ouvir a música que é, – para mim, obviamente, este é um texto opinativo – mais especial e intensa. “Quadro Verde” é uma daquelas canções que continuam tocando mesmo quando chegam ao fim. A verdade é que ela não termina, mas continuam ecoando tão clara e intensa como a voz de seu emissor dentro de nossa mente.

Pode parecer clichê, mas o show realmente traz uma atmosfera intimista, aconchegante e tranquila, o que para quem vive e São Paulo parece uma graça. A esperança é que Rubel volte em breve e que mais pessoas possam entender um pouco do milagre da sua música. Mas se você vier, prepara a alma e o coração, os sentidos para escutar, que dá uma vontade de ficar.

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