Abre Aspas / Música

O porquê da voz de César Lacerda

* Por Meiri Farias

Para César Lacerda, o ser cantor se liga ao contato com o instrumento primordial do ser humano: a voz. “A voz é para mim este constante estado de encantamento. Gosto muito de pensar na lenda da sereia. É bonito pensar que é o canto dessa figura mítica que toma de assalto a sua presa. Ou seja, todo o mistério da vida parece estar escondido atrás do canto dela. Por isso essa busca incessante”, diz.

César lacerda 3

Foto: Vitor Jorge

“Porquê da Voz” (2013), primeiro disco do artista traz uma sonoridade autêntica e marcante, onde universos autônomos e correlatos se encontram na voz especial de César. Para 2015 o cantor prepara dois álbuns, o “Paralelos e Infinitos” que será lançado ainda no primeiro semestre e “La Jornada” que terá uma pegada mais eletrônica e sai antes do fim do ano. Sobre “Paralelos”, César conta que o disco terá “oito canções sobre o amor, para o amor, com o amor.”

É exatamente nessa atmosfera que apresentamos a entrevista com César. O resultado é delicadeza e gentileza infinita, confira!

Armazém de Cultura: Vir de uma família onde a música é muito presente fez com que você estivesse sempre cercado de música, te influenciou na hora de decidir ser músico? Como foi esse processo?

César Lacerda: A decisão de me tornar músico, de fato esteve bastante relacionada às experiências musicais que vivi desde a primeira infância. O fato da música ocupar lugar central na vida da minha família foi determinante; tanto no sentido mais formal do conhecimento que obtive através dos estudos musicais, primeiramente, na escola da minha mãe, como também, através da experiência da escuta de um conjunto de estilos muito diversificados, fato mais ligado ao meu pai. Não obstante, Diamantina, a cidade em que nasci, tem um calendário de festejos com vasto e rico repertório musical, bem como formações variadas (desde as bandas marciais até os grupos de música folclórica, conjuntos de choro e seresta). Na cidade, a prática musical como forma de relacionamento social é muito difundida e fomentada.

Mais tarde, na minha adolescência, quando me mudei com a minha família para Belo Horizonte, todas essas noções que nasceram comigo e foram estimuladas de forma lúdica por toda a minha infância, ganharam forma através de um estudo mais formal. Foi o período em que estudei diversos instrumentos, criei a primeira banda e comecei a compor… E é justamente aí, na composição que a música cria uma feição mais clara na minha vida. A possibilidade de compor é que trouxe a música para o centro dessa decisão de “viver dela”.

Ouça “Héroi”:

AC: Você nasceu em Minas mas mora no Rio há um tempo, certo? viver em um estado diferente é uma fonte de inspiração? as pessoas, os lugares, interferem nas suas ideias de composição?

César: Eu nasci no interior de Minas Gerais numa cidadezinha de arquitetura barroca chamada Diamantina, que fica localizada no Vale do Jequitinhonha e tem hoje menos de cinquenta mil habitantes. Vivi lá até os meus doze anos – quando a minha família mudou-se para a capital, Belo Horizonte. Aos vinte anos, eu me mudei para o Rio de Janeiro e, desde então, vivo na cidade (em maio, faço vinte e oito anos). Para o meio do ano, programo me mudar para São Paulo. Todas elas são cidades do sudeste brasileiro. Não por acaso, são muito diferentes entre si. Todas têm características muito fortes e personalidades muito definidas. Talvez, eu busque encontrar alguma coisa quando me mudo de cidade. Possivelmente, algo que mude a mim e a minha música.

Definitivamente, o Rio de Janeiro me transformou e, por conseguinte, mudou também a música que eu faço, as escolhas estéticas que me habitam. As amizades que conquistei aqui também foram transformadoras e permitiram uma renovação bastante grande do meu jeito de enxergar tudo. Para se ter ideia, o Rio me trouxe parceiros como o ator Matheus Nachtergaele, a Letícia Novaes da banda Letuce, o poeta Eucanaã Ferraz e o Fernando Temporão! Isso é, por si só, uma comprovação de que estes oito anos na cidade reverberarão por muitos anos ainda na minha forma de entender a vida.

AC: O título do seu disco “Porquê da voz” tem alguma relação com a afirmação “o primeiro instrumento é a voz”? poderia contar um pouco mais sobre este trabalho?

César: Eu disse isso da voz ser o meu primeiro instrumento em alguma entrevista que dei e a cada dia que passa fica mais nítida em mim essa percepção (digo, fisiologicamente mesmo! – a cartografia da musculatura). De um lado, o eterno encantamento; não apenas o da beleza do canto, mas a reflexão sobre o mistério oculto que carrega a voz. Na outra ponta, a voz como desafio: achar em mim os cantos mais ocultos, dar luz a eles, torná-los acessíveis e, até mesmo, entendê-los inalcançáveis. A voz é para mim este constante estado de encantamento. Gosto muito de pensar na lenda da sereia. É bonito pensar que é o canto dessa figura mítica que toma de assalto a sua presa. Ou seja, todo o mistério da vida parece estar escondido atrás do canto dela. Por isso essa busca incessante.

César lacerda 2

Foto: Vitor Jorge

Esse meu primeiro disco, “Porquê da Voz”, tenta confluir dois assuntos que eu tenho muito apreço: a voz (suas múltiplas acepções e seus personagens variados) e o Brasil (tentar traçar mais uma vez uma rota que inaugure pensamentos sobre os destinos da nação). Este disco é uma aventura musical desmedida. Ali, tento conciliar referências de todos os tempos da nossa música com um olhar renovado do material estilístico desses gêneros. Este foi um trabalho de grande desafio para mim e para os mais de vinte convidados que toparam a empreitada.

AC: Ouvindo o disco vemos uma mistura interessante de sonoridades e lendo o seu release descobrimos que você toca piano, violão, bateria, violino e flauta transversal. Essa familiaridade com diversos instrumentos influencia sua composição e a produção do seu trabalho?

César: Influencia, com certeza. Mas no “Porquê da Voz”, eu apenas canto, toco violões e flauta transversal. Desde o princípio, decidi fazer um disco que tivesse a participação de muitos músicos que tivessem uma linguagem muito especial dos seus instrumentos. Em conjunto com o Elisio Freitas (produtor do disco) e os músicos da “Super Banda” (banda que me acompanha desde 2011 com Elisio Freitas, Marcelo Conti e Cláudio Lima), pensei os arranjos das doze canções que compõe o álbum. Tendo as bases arranjadas, partimos para os convidados (quarteto de cordas, naipes de sopro, percussões, piano, teclados…).

Tradicionalmente, na música brasileira, mesmo na canção ultra-popular e dita brega, há uma característica de grandes instrumentistas em suas formações. E num disco que pretendia relacionar-se profundamente com os estilos mais tradicionais e característicos do Brasil, era necessário que eu estivesse rodeado de instrumentistas que, ao mesmo tempo que dominassem a linguagem e os seus instrumentos, pudessem também reler esses estilos e estarem aptos à gostar de desafios.

AC: O seu disco pode ser escutado e baixado gratuitamente na internet e essa é uma tendência que cresce cada vez mais entre os artistas. Você concorda que a internet é uma das principais ferramentas de trabalho do artista atualmente?

César: Minha formação se deve em grande parte à internet. Filmes, discos, livros e uma infinidade de conhecimento que me dispus a aprender foram possíveis apenas pela possibilidade de que eles estavam disponíveis gratuitamente e há apenas um clique de distância. No entanto, fechar os olhos para o dilema dos direitos autorais é uma forma ingrata e pueril de lidar com a ferramenta. Acho irreversível o processo libertador instaurado pela internet em nossa sociedade. E, se mirarmos pelo prisma da política, garantir o acesso ao conhecimento através da rede mundial de computadores foi possivelmente o ato mais transgressor desde a invenção da luz. Isso justifica a intensidade combativa que os governos do mundo todo, as empresas e os detentores das grande fortunas têm ao defender suas informações sigilosas. Por outro lado, vivemos um período histórico da humanidade onde todas as facilidades promovidas pelas diversas tecnologias (desde a indústria farmacêutica até a indústria alimenticia, a indústria de aparelhos eletrônicos até a indústria que pensa alternativas verdes…) torna a todos nós seres humanos mais preguiçosos e dependentes de alguma prateleira. Isso reflete na arte que estamos fazendo. Um período tão iluminado quanto o nosso nos permite ir além nos nossos desafios. Digo isso tanto para criticar quem faz arte, como também, para quem frui.

Sim! A internet é hoje a principal ferramenta de trabalho do artista. Sobretudo, aqueles que lidam de alguma forma com cultura de massa. Mas é importante e interessante perceber que estamos discutindo aqui basicamente a divulgação da obra. Na internet, apesar de todas as diversas ferramentas que possibilitam a criação e a discussão da criação, nós apenas nos comunicamos. Usamo-la para difusão, disseminação, espalhamento, exposição, propagação e propaganda da informação. O artesanato ligado à concepção de qualquer obra de arte ainda é uma atividade cercada de um legado humano, afeito à solidão. Nesse sentido, a afirmação mais correta seria: a internet é hoje a principal ferramenta de divulgação do trabalho do artista.

AC: O Lenine faz uma participação na música “A Dois” do seu primeiro disco e você também participou do projeto Cantautores, como é essa ligação com o artista? o Lenine é uma influência no seu trabalho?

Ouça “A dois”:

César: O Lenine é um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos! A maneira como ele conseguiu mixar de forma tão original informações tão distintas em seu universo musical é surpreendente e influencia uma geração grande de novos artistas em todo Brasil, e até mesmo no mundo. Tenho um orgulho enorme e uma gratidão infinita pela oportunidade de tê-lo presente neste meu primeiro álbum.

A geração que começou a produzir os seus discos no final da década de 80 e início da década de 90 sofreu bastante com o processo de mudança dos paradigmas do mercado. Foi um pessoal que mudou a lírica da canção brasileira em sua gênese e foi responsável por uma reorganização dos parâmetros do mercado. Muitos deles tiveram oscilações dramáticas em suas carreiras fruto das dinâmicas confusas que entremearam este período instável. O Lenine, que no ano passado comemorou trinta anos de carreira, foi um sábio marinheiro nesse mar bravo. Soube conduzir a sua carreira de maneira majestosa conquistando um público cativo sem perder o sotaque da sua estética reveladora. Sempre que eu estive ao seu lado busquei ficar calado, ouvindo suas histórias e conselhos. Aprendendo o máximo. Sábio marinheiro, velho pajé!

AC: Quem mais te influência atualmente?

César: Tenho ouvido coisas muito variadas. Mas tenho gostado muito de ouvir canções do universo da música pop que influenciam meus novos discos. Gostei muitíssimo do último álbum dos ingleses do Alt-J, This Is All Yours. Na Inglaterra ainda, Jungle, The Staves e Sam Smith. Dos Estados Unidos, sempre Toro Y Moi. Haim e Taylor Swift são também adoráveis! Ainda não ouvi com a devida atenção o disco novo da Björk, mas já sei que é lindo! Lykke Li eu adoro!  Do Brasil, o que toca muito no meu Ipod é 5 a Seco.

César lacerda 1

Foto: Vitor Jorge

AC: Ouvimos dizer que tem dois discos novos para esse ano! Poderia contar alguma coisa a respeito?

César: Sim! Estou muito feliz com essa empreitada nova que me propus. Lançar dois discos num mesmo ano, com estéticas e assuntos distintos entre si.

O primeiro destes dois álbuns vai se chamar “Paralelos e Infinitos” e será lançado ainda no primeiro semestre. Ele conta uma história pessoal muito bonita e especial. São oito canções que compus a partir das histórias do relacionamento que vivo. Oito canções sobre o amor, para o amor, com o amor. Nesse disco toquei noventa por cento dos instrumentos  e tive as participações especiais do Cícero, Mahmundi, Lucas Vasconcellos, Flávio Tris, Pedro Carneiro (produtor do disco), Uirá Bueno (Cícero e Canastra), Conrado Kempers (Dos Cafundós), João Gabriel Machala e Rafael Mandacaru (Iconilli). Além de uma participação surpresa. O disco está pronto e começa a ser mixado na semana que vem.

O outro disco deve ser lançado no final do ano. Será um disco com uma estética mais dura, eletrônica, com assuntos mais escuros. Estou chamando este disco de “La Jornada”. Quem assina a produção dele é o Elisio Freitas, produtor do “Porquê da Voz”. Mas voltamos a falar dele no segundo semestre, ok? =]

AC: Para encerrar, você observa diferenças no processo de produção desse próximo disco para a forma que o primeiro foi feito?

Todos os três discos são muito diferentes.

O “Porquê da Voz” falei bastante sobre a temática e as peculiaridades estéticas nas perguntas acima. No “Paralelos e Infinitos” os desafios migraram para um novo lugar. Primeiro, a maneira de compor, a estética da “canção de amor”. Depois, a coisa de ir para o estúdio, criar os arranjos na minha cabeça, executar os instrumentos. Entre o “Porquê…” e o “Paralelos…” há uma diferença de quantidade de pessoas no estúdio, quantidade de cabeças atuando num arranjo. A verdade que eu buscava expressar nesse novo disco, passava também por saber como achar dentro de mim aquela verdade e como expô-la.

Gosto muito desse disco novo e espero que todos gostem também!

Ouça “Parece”:

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