Abre Aspas / Música

Desa: “Só preciso cantar um pouco, é muito mais carinhoso com a vida”

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* Por Meiri Farias com colaboração de Beatriz Farias

Mais nova de quatro irmãos, cidade pequena e com muita sede do mundo. A inquietação fazia que vivesse fugindo de casa e por meio dessas escapadas, descobrindo que o mundo é muito maior. “Eu sempre tive muito essa coisa de sair de um lugar para o outro, experimentar coisas.” As amiguinhas que largavam os brinquedos pensavam em marido, ela queria fugir com o circo. A inquietação era sua companhia.

Com quatorze anos passou uma semana no teatro, com quinze deixou Feira Grande, cidadezinha de Alagoas e foi para a capital Maceió descobrir o que esse tal de mundo tinha a oferecer. Fez teatro, cantou em coral, barzinho, se apresentou em cidades próximas. A inquietação sempre do lado, mostrando que passarinho não pode ter limites para voar. E voou. “Vir para São Paulo faz parte dessa exploração do mundo e do meu redor.”

Foto:  Arthur Krokovec

Foto: Arthur Krokovec

She’s  a cat

A voz de Desa desliza sorrateiramente por nossos pensamentos, é impossível não ser pego por essa flecha apontada que ela mira esfregando flores, perfume pra quem se amarrou em seu som.  De olhar vagaroso como as luzes preguiçosas da manhã, Desa caminha suavemente por qualquer lugar a fim de nos arranhar com a leveza de quem percebe em cada nota a crueza do dia-a-dia. Gata de rua, todo lugar é morada da sua voz.

Ouça “I’m a Cat”:

Em março publicamos a primeira parte do encontro que aconteceu no AP71, focando na conversa com Arthur Krokovec e sua página de poesia, o Gincobilando. Hoje trazemos a segunda parte da entrevista, com Desa Pauline, a moça gata-passarinho que só procura o que alimenta o coração e não se prende ao que corta suas asas.

Como já contamos no texto sobre o Arthur, o gravador se mostrou mais eficiente em capturar o que acontecia lá fora do que nosso papo cheio de divagações. No início da conversa, Desa fala pouco e tão baixo que sua fala quase se perde dentro da gravação caótica, mas a medida que o  vento se acalma e deixa a áudio mais nítido, sua voz se afirma e cresce cheia de certeza. Desa fala sobre vida, cidade e arte como quem chega a conclusões no momento que as palavras surgem, mas surgem com tanta verdade que só é possível sair de alguém que canta como se estivesse devolvendo beleza às coisas.

Desa veio para São Paulo a dois anos e acha que para sentir-se realmente em casa ainda vai demorar um pouco. A loucura da cidade é um choque, uma surra diária, mas também serve para evolução. Um convite a diversidade, ingredientes para compor, pensar, refletir. “O que trouxe pra cá foi essa minha inquietação de descobrir o mundo e de querer contribuir”, conta. Por influência de Rafa Moraes, que já era seu amigo, chegou na cidade e acabou ficando. A partir disso conheceu os meninos do ap e tudo começou a se abrir, ao sair de seu paraíso natural, Maceió, encontrou o paraíso na  convivência.

Dentro dessa convivência, a arte acontece pela manifestação espontânea e nem sempre tem necessidade de desdobramento. A arte em sua essência mais pura, que se basta no fazer. Acontece a criação no momento e se encera neste mesmo momento, uma criação que pode se transformar em produto cultural, uma compilação desses momentos. Ou não. Ela associa essa situação à cultura popular, que não precisa necessariamente do mercado – vem da prática. A prática e a própria coisa. “As vezes andando no meio da rua sai uma melodia que eu nem gravo, nem anoto, não faço questão de lembrar”, diz. O mercado existe, as vezes é necessário fazer parte dele. Mas a criação, a parte preocupações comerciais ou estéticas, é maior. Muito maior.

O presente é mais importante que transmitir a informação. “Memória pode congelar, fazer você viver só da memória e o congelamento não gera transformação”, para ela a arte é mudança e provêm de transformação. “O agora não tem memória, agora é agora”

“O que está em questão é continuar minha vida cantando”

Que a cidade de São Paulo tem forte influência da migração nordestina, isso todo mundo sabe. Mas só a partir do momento que mergulhei na minha pesquisa para o trabalho de conclusão da faculdade, consegui quantificar essas impressões de forma mais concreta. O nordestino que não dá para  generalizar, que não é simplesmente o “baiano”.  O nordestino que migrou por trabalho, para fugir da seca ou em busca de melhores condições de vida, mas que se liga por um ponto em comum: Dentro de sua identidade, pluralidade, todos vieram para a cidade em busca de transformação. Assim foi para os meus pais a quase trinta anos, assim também foi para Desa Pauline.

No início do ano publiquei uma entrevista com Bruno Berle, músico alagoano que lançou o disco “Arapiraca, Maceió, 2013” e com a qual nos identificamos imediatamente – o disco se tornou trilha sonora das nossas férias retornando a cidade depois de 14 anos. Trilha das sensações controversas de identificação e estranhamento ao sair do caos da metrópole e se embrenhar  nessa estrada de memórias, a música de Berle nos despertou a consciência de que se há muito nordeste em São Paulo, muito nordeste em nós, falta Alagoas no nosso cotidiano. Na volta tínhamos saudade da minha Sampa maluca, mas também a vontade de ficar naquele paraíso natural de cheiros, lugares, sabores, sotaques.

Foto:  Arthur Krokovec

Foto: Arthur Krokovec

Canto da sereia às reversas, a voz de Desa foi o gatilho para redescobrirmos pouco a pouco, nessa cidade que tem muita Bahia, muito Pernambuco, Ceará e Paraíba, e nem tanta Alagoas assim, que a questão não é espacial. Nordeste é um lugarzinho que a gente vive de dentro.

Desa descobriu o outro lado: sua inquietação é o que a lança para o salto, mas não impede algumas quedas. A cidade das contradições pode ser berço de oportunidade ou a face da hostilidade. “Aqui é um lugar que funciona com o horário da fábrica”, explica. Esse modo de viver industrial, programado, ainda surpreende Desa. A ânsia por conteúdo o tempo todo, busca da informação pela informação não faz sentido para ela “porque para ter meu espaço eu preciso saber mais que você?”, diz, “ai eu acho estranho, não tem que estar na frente, tem que estar lado a lado”.

Se conhecimento é poder, o conhecimento “formal” também pode se tornar uma forma de segregação. “Por que vou carregar tanta informação nas minhas costas?”, a leveza de viver o presente, a troca por meio de uma conversa como essa, viver sua arte espontânea acima de uma carga pré-determinada de conhecimento, o que não agrega no trabalho, mas “agrega na existência”, tudo isso é mais importante para Desa. “Só preciso cantar um pouco, é muito mais carinhoso com a vida”.

Para desanuviar

Foto: Flávia Correia

Foto: Flávia Correia

Quem acompanha o Armazém a algum tempo, sabe que um dos temas mais recorrentes por aqui, é a viabilização de projetos artísticos via financiamento coletivo. Além de nos identificarmos com o tema, percebemos o quanto isso vem modificando a relação artista – público nos últimos anos. Desa também escolheu esse meio para lançar seu disco “Desanuviar”, que passou por uma campanha bem sucedida pelo Catarse no início do ano.

Desa destaca a importância do público no processo, agora que não apenas compra um produto finalizado, mas participa – financeiramente ou pelo compartilhamento da ideia – da produção do disco, da viabilidade de um produto cultural.

A cantora tem atualizado com frequência sua página com informações sobre a finalização do disco e enquanto aguardamos, vale a pena ouvir um pouco mais da moça com coração de passarinho que veio para desanuviar o céu cinza de SP.

Participação da Desa no projeto “Na rua”:

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