Abre Aspas / Música

Lê Coelho canta a inquietude de uma sociedade efêmera

* Por Meiri Farias4

“É preciso enlouquecer urgente e lindamente, pois submersos já estamos, todos.” A frase que sintetiza com exatidão a experiência de viver na era da efemeridade é um trecho do texto que introduz o encarte de “TUVALU – Uma História Oral do Nosso Tempo”, álbum de estreia de Lê Coelho e traz na sonoridade diversa e plural, um reflexo do mundo pós-moderno onde tudo se transforma rápido demais.

O disco é resultado das experiências estéticas que Lê desenvolveu em seus últimos projetos “Banda Argila” e “Urubus Malandros”, onde explorou do samba ao rock. As canções transitam entre temas que vão da discussão da arte pela arte, passando pela queda de ideologias e convicções até o conflito entre individualidade e interação social. “Tuvalu” é um indivíduo inquieto em forma de disco, alimentado pela insatisfação existencial que permeia as buscas coletivas e singulares de cada um. É a “vontade de não sei o que, parece uma saudade de não sei o que lá.”

Foto: Pedro Ivo

Foto: Pedro Ivo

Confira a entrevista com Lê Coelho e conheça seu trabalho de experimentações estéticas e conceituais que compõe um cenário de caos organizado muito familiar a você, cidadão hiperconectado do século 21.

Armazém de Cultura: O CD “‘TUVALU – Uma História Oral do Nosso Tempo’ traz um conceito muito interessante a explorar esses dois universos, pode contar um pouco sobre como surgiu essa ideia?

Lê Coelho: Eu já tinha o disco, mas não tinha o nome. Então chegou até mim um livro chamado ‘O Segredo de Joe Gould’ do jornalista americano Joseph Mitchell onde ele fala de um mendigo chamado Joe Gould, um cara formado em Harvard que larga tudo para viver nas ruas de Nova York com o objetivo de escrever um livro chamado “Uma história oral do nosso tempo”.  Não vou contar o livro, pois seria sacanagem, sugiro a leitura, mas o personagem, que é real, me intrigou muito, e, além disso, depois de publicar o segredo de Joe Gould, o escritor curiosamente nunca mais escreveu nada. Na mesma época, através de algumas reportagens, também tomei conhecimento de Tuvalu, um Estado da Polinésia predestinado a sumir do mapa até 2050 caso o aquecimento global siga na mesma toada. Desde a conferência do clima da ONU de 2009 reivindicam mudanças para impedir a catástrofe, mas até hoje não obtiveram sucesso. Me parece muito absurda a ideia de uma nação desaparecer num espaço de tempo tão curto e mesmo assim o mundo seguir nessa loucura consumista e devastadora. De alguma forma achei que isso aparecer pra mim naquele momento não foi por acaso, e de alguma forma formam uma imagem e apontam um universo simbólico que dialoga com o que o disco propõe em forma de canção.

Foto: Pedro Ivo

Foto: Pedro Ivo

AC: Apesar de cada música conter a ideia de começo, meio e fim e de poder se bastar em si mesmo, além de características sonoras muito distintas, é possível enxergar uma linha narrativa por todo disco. É como se a pequena história de cada canção se torne um capítulo parte de um raciocínio maior. Ao ler o release, consegui associar essa narrativa a realidade contemporânea, a ideia de pós moderno, pós massivo, onde o sujeito se encontrar soterrado por informações diversas e caóticas, mas sozinho em crise com sua individualidade e nas relações sociais. Poderia dissertar um pouco sobre essa situação e como influência seu trabalho?

: Você tem razão. Acho que tem isso mesmo, embora através de linhas distintas há essa ligação entre as canções. A gente vive um momento muito estranho, essa é minha sensação. Toda essa insatisfação demonstrada nas ruas me parece, antes de tudo, uma insatisfação existencial mesmo. Um choque de costumes muito forte. Tudo se tornou muito supérfluo, os valores se transformam muito rapidamente, de uma hora pra outra uma coisa que era importante não serve mais. Isso tudo causa um vazio, uma busca frenética. Acho que cada música, de maneiras diferentes e abordando temas distintos, traz a tona um pouco do reflexo desse caos contemporâneo, e assim elas se entrelaçam, embora tenham vida própria. O Ivan Gomes e o Rodrigo Monteiro, os produtores, foram fundamentais pra que essa coesão exista também, não há dúvida, sem eles nada teria rolado dessa maneira.

Ouça “Tanta gente”:

AC: As músicas foram compostas (ou escolhidas, no caso de canções de outros compositores) depois de criar uma relação com esses universos, ou o conceito foi definido a partir das canções que já existiam?

: Foi definido a partir das canções. Mesmo as duas releituras foram definidas antes de pensar em uma coisa mais uniforme. Pra você ver como são as coisas e como o nosso trabalho e nossa criação é mesmo uma extensão de nós mesmos. Meu momento era tão verdadeiramente esse que tudo foi se encaixando naturalmente e de repente a unidade já existia, porque de fato era aquilo que estava vivendo, sabe?

AC:Também é possível notar uma variedade de referências de ritmos e sonoridades no disco, o que te influencia?

: Muitas coisas. Quando criança ouvia muito Raul Seixas, Chico Buarque, Bethânia e Bezerra da Silva. Adolescente conheci o rock, Led, Beatles, Nirvana. E as bandas nacionais também, Paralamas, Legião, Titãs, Cazuza, mas a MPB sempre seguiu em paralelo, tive várias fases, como acredito que seja com a maioria de nós, mas o samba e a MPB sempre estiveram ali no background, dando a sustentação pra todas as outras coisas, e Raul Seixas também. Aí vieram os caras dos anos 90 que acompanhei muito, Lenine, Zeca Baleiro, Chico Cesar, Moska, enquanto seguia frequentando rodas de samba como apreciador e fã de Cartola, Paulinho, Noel, Geraldo Filme, e também sempre estudando o violão e compondo minhas coisas. Aí conheci Itamar, Sergio Sampaio, Macalé, Melodia, e me apaixonei por tudo isso, ouvi muito de todos eles. Acho que de alguma tem um pouco de tudo isso na minha música, e a gente vai lapidando. Teve também a Banda de Argila, bem mais experimental, uma coisa doida mesmo, estávamos todos estudando música, conhecendo milhões de coisas novas, e colocando tudo pra fora, sem restrições, com um mais roqueiro, outro que vinha mais do jazz, da música erudita, o outro da canção brasileira. Minha pesquisa até aqui foi essa, uma coisa da prática mesmo.

Foto: Pedro Ivo

Foto: Pedro Ivo

AC: Na música brasileira, em que artistas você encontra afinidade com o trabalho que está fazendo? O que indicaria para os leitores do Armazém que gostaram da sua música?

: Acho que esse primeiro disco é uma mistura de muitas coisas, mas depois de pronto visualizo uma predominância do que mais ouvi no começo da vida adulta, que é a turma dos anos 90 que citei acima além de Itamar e Sampaio. O samba sempre está junto, porque tenho ouvido cada vez mais, e cada vez mais é uma força motriz das outras que surgem.

AC: O projeto gráfico do disco também está muito interessante, poderia contar um pouco sobre? ficamos curiosas em relação aos tomates!

: O Daniel Carezzato, que é músico, cantor e compositor, além de um grande designer, fez um trabalho sensacional no encarte, e contou com toda a concepção das fotos do Pedro Ivo. Juntei dois craques – mas craque de verdade, não esses de hoje em dia – e os caras me surpreenderam muito. Sou suspeito pra dizer, claro, mas achei o resultado realmente muito bom, ficou bonito, e está sendo muito elogiado. Os tomates vem por conta do Joe Gould, eu passei essa temática pros caras e o Pedro Ivo pirou nos tomates, porque na verdade, no lugar da tal história do nosso tempo que ele supostamente estava escrevendo, acharam um monte de capítulos repetidos, que na verdade eram apenas três textos muito doidos, e um deles era sobre a relação do aumento de consumo de tomates com a frequência de acidentes de motoristas de trem. Já pensou, que loucura?

Ouça “Essa vontade”:

Próximos shows do Lê em São Paulo:

30/04 – Serralheria ( repertório SAMBAIO)

07/05 – CEU Parque Anhanguera ( Show acústico / Grátis)

13/05 – CEU Caminho do Mar ( Show acústico / Grátis)

20/05 – Tanger ( Show acústico )

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