Abre Aspas / Música

Castello Branco: “Não é difícil quando você se entrega, nada é difícil quando você permite”

* Por Beatriz Farias4

Desde que me entendo por gente fui conduzida a descobrir a diferença entre conhecimento e sabedoria, a importância de cultivar esse equilíbrio. Conhecimento é essa coisa essencial que nos faz passar em provas, criar argumentos e defender teses, mas como boa caçadora de ideias que precisamos ser para sobreviver, sempre me interessei por essa coisa chamada sabedoria que rima com descoberta e a gente só aprende quando se propõe a “sujar os pés de terra’’, como fala o assunto deste texto. Sabedoria é isso que nem deve se considerar conceito, e só me arrisco a colocar em um texto porque não há forma melhor de descrever a sensação de simplesmente chegar, que esse disco causa.

Foto: Página do artista

Foto: Página do artista

“Serviço” é o silencio de observar. Se observar e estar a disposição, oração de som e  leveza que se explica vivendo: “não há porque viver se não pra crer e ser crescendo, sendo”, explica a segunda faixa. A música de Castello Branco é uma viagem aos sabores e cheiros da casa de infância, porém mais que falar de passado é um resgate ao interior (este que não necessariamente necessita de verde ou céu azul) àquilo que temos de mais de mais sincero. Nossas sensações.

Lucas Castello Branco, 29 anos, cresceu em um monastério, morou no Rio de Janeiro e atualmente reside em São Paulo. Em 2013 lançou seu primeiro disco solo: “Serviço”. Para esse ano, prepara um livro com poesias e textos que escreveu, e no ano que vem, novo disco.  Confira agora a entrevista que fizemos com o artista.

Armazém de Cultura: O título “Serviço” nos leva a uma interpretação sobre o disco ser a serviço da vida: de amar, de aprender, de ouvir, de saber falar, como você mesmo fala no texto do site: “Nós somos o aqui, nós somos o agora.” Estar a serviço da vida: viver o agora. Poderia falar um pouco sobre como escolheu o título e como ele se relaciona às músicas?

Castello Branco: O nome do disco veio buscando resgatar todo um período da minha vida onde vivi o “serviço”. Diferente do termo “trabalho”, o serviço é mais entregue e visa o todo. Algumas eu compus nessa época outras me vieram em um período a frente, já morando no RJ.

AC: Sobre a temática das letras, percebe-se que o tom é extremamente pessoal e ainda assim, são assuntos que também faz parte da vida de várias pessoas, traz uma carga de universalidade. Poderia contar um pouco sobre o processo de composição?

Castello Branco: Como eu posso dizer? ainda me preocupo na mesma medida em que quero que tudo se dane.

Ouça “As Minhas Mães”:

AC: Ainda falando sobre as canções, o disco também traz canções instrumentais e cria uma reflexão sobre a importância de aprender a escutar o que é dito na ausência de palavras. Qual é a diferença de compor canções assim? existe um grau maior de dificuldade ou imersão?

Castello Branco: Total. A palavra engana demais. Ela é extremamente importante, mas engana. Quis trazer o outro universo já que a música não é só palavra e embora eu tenha a palavra como aliada, também faz parte de mim o som, o canto, o movimento. Não é difícil quando você se entrega. Nada é difícil quando você permite.

AC: Você já morou em um monastério, certo? também já viveu no Rio e agora está em São Paulo. Essas mudanças de ambiente proporcionou um intercâmbio cultural, influenciou de alguma forma o seu trabalho?

Castello Branco: Sim sim. Na verdade, costumo dizer que depois do monastério, a realidade que mais me comove é a da rua. Sempre ouvi muito rap, dub, reggae com a mesma intensidade e importância que dava ao samba, axé, o tal do rock ou música eletrônica. São Paulo é muito rua, “é muita treta”. Está sendo importante esse período pra mim, não sei se fará tanta diferença para minha música, afinal minha motivação sempre será a mesma independente de aonde, com quem ou o que eu viva. Para mim, não se trata mais de música ou disco.

Foto: Página do artista

Foto: Página do artista

AC: O disco conta com participação de outros artistas dessa geração (Cícero, Alice Caymmi, Marcela Vale, entre outros), certo? Como acontece essas parcerias, rola algum tipo de influência mútua nessa geração? Como isso influência a sua arte?

Castello Branco: Nos conhecemos todos no RJ. Somos frutos de uma necessidade telúrica da nossa geração, como comunicadores. Amo-os. Amo-os mesmo, cada um com sua particularidade e graça, transitamos com carinho, da melhor forma que podemos no espaço do outro. Foi um bom momento.

AC: O seu disco pode ser baixado gratuitamente na internet e essa é uma tendência que cresce cada vez mais entre os artistas. Você concorda que a internet é uma das principais ferramentas de trabalho do artista atualmente?

Castello Branco: Depende. A internet é uma grande aliada mas não acredito que será pra sempre. De qualquer forma é perigoso não sujar os pés de terra.

AC: Em maio você fará shows em Portugal, certo? como é ver sua música chegando em outros lugares, alcançando outras culturas? Por outro lado, você acha que esse tipo de contato pode contribuir com o seu trabalho?

Castello Branco: Só posso ser grato. Portugal sempre me acolheu com muito carinho. desde o lançamento do disco até hoje, com o livro pra vir. Na Europa, por exemplo, não serão shows, serão “Partilhas”. Um formato diferente que conta não só com as canções do disco mas também com leituras do livro.

AC: Ouvimos dizer que tem um novo disco a caminho! poderia contar um pouco desse projeto? Você percebe diferença no processo de criação do seu primeiro disco autoral (Serviço – 2013) a esse que está por vir?

Castello Branco: Então, o disco novo só virá ano que vem. Esse ano lançarei um livro chamado “Partilha”, uma seleta de poesias, pontos e textos que escrevi, nascido de uma necessidade que tive, real, de nos shows acústicos, não só cantar mas também partilhar o que eu achava interessante e pertinente no momento.

Ouça “Crer-Sendo”:

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