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DUDA BRACK É

* Por Beatriz Farias

Foto: Flóra Borsi Photography

Foto: Flóra Borsi Photography

Relutei escrever sobre esse disco, queria ter certeza que não estava sendo tendenciosa com a voz de Duda Brack. A voz que tem o dom do incabível. Essa voz que adentra os lugares mais profundos da nossa alma e se aconchega na simplicidade, porque mesmo com toda majestosidade que lhe foi dada, ela entra. E quem deixa aconchegar-se a si tem sensação parecida (igual jamais, o processo é sempre novo) a essa que hoje venho contar.

Quando aprendi na escola conjugar verbos, tinha grande dificuldade com “é”. O “é” se esconde no “ser” e a gente desaprende a usá-lo sozinho. Hoje tudo ser alguma coisa, mas nada é. A gente emburrece porque aprende demais, esquece de usar os sentidos, que nada mais são que só o que temos.

Para desordenar o erro obsceno de juntar tudo em um todo, Eu Sou o Aré a primeira faixa do disco que poderia ser a última ou a única, e já faria com que o disco estivesse completo. A composição de César Lacerda ajuda Duda tirar a roupa em cada palavra, o que parece essencial para que ouçamos as outras faixas do disco: Sua voz transborda toda beleza e mistério que carrega na alma, mas tão segura de si que é admitir tudo o que tem, ela se permitiu ficar nua, e assim a gente chega nas profundezas do seu grito de sou. O disco prossegue, mas não para os fracos de espírito. Vaza, já conhecida na voz da cantora, ganha um arranjo tão bonito na versão do disco, que aí se percebe a vontade coletiva para que isso saísse o melhor que pudesse ser. É mais. Lata de Tinta é ressurreição sombria. A canção de Paulo Monarco e Elio Camalle dá as mãos a cantora e isso que agora é um só te carrega ao lugar de você que está te faltando. É resgate necessário, não desejado. Em Dez Dias tiro o chapéu a banda (Gabriel Ventura, Yuri Pimentel e Gabriel Barbosa), junção de um monte de coisa boa no cenário musical atual. Que além de se destacarem belamente, dão a Duda o dever de gritar: não teria uma voz para contar “desse mistério de existir” tão certeira quanto esta.

Perceba que abro um novo parágrafo para falar de Venha, tal foi meu choque. A música que já era conhecida na voz de Celso Viáfora e Paulo Monarco (no espetáculo Dois Tempos de Um Lugar) aqui virou miolo. Duda Brack brincou com o poder de nos fazer sentir tudo. Surpresa mais deliciosa do disco, para quem ainda estava com um pé atrás se render. Não há escapatória.

Te Ver Chegar” é um carinho para termos certeza que esse disco está completo. A música é de Paulo Novaes, minha e sua também. Duda dá voz ao que sempre precisamos dizer, e aqui comento a produção de Bruno Giorgi, que soube sugar os detalhes, e ainda assim, deixar as peculiaridades do tamanho que elas precisam ter. Enquanto pensava o que me surgia em Cadafalso, percebi que me balançava insanamente na cadeira. É permitido dançar com uma letra tão séria? Não sei o que Carlos Posada pensou ou sentiu ao compor esta, mas o que me trás a apropriação que a menina Duda faz, é a ideia de se permitir. Pense sobre a letra. Se ela é tão séria e te diz tanto, então dance um pouco disfarçadamente, certamente você está precisando, e merece. A casa não caíraé a melhor forma de encerrar sabendo que nunca acaba. Porque tem um poema no final, e a gente fica nessa coisa de querer se desnudar também, ser um pouco do todo que a gente é.

Fora as outras conjugações, ao todo, usei 17 vezes o verbete “é” em um texto com pouco mais de uma página. E isso que não aconteceu de propósito é o inconsciente falando que mesmo tentando dar tantas explicações e sugestões, ainda há motivos para usar essa única letra acompanhada de um acento sozinha. É porque é. Mas essa nossa vontade de justificar não se dá ao acaso também, é fruto daquele ditado popular sabe? Aquele que a partir do disco esta incrustado nos sentidos, bem como a voz e o disco de Duda Brack:

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É.

Para ouvir, baixar e saber mais, visite a página da Duda no Facebook.

Relembre a entrevista que fizemos com ela no ano passado.

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