Abre Aspas / Música

Tradição e contemporaneidade no samba íntimo de Paloma Carvalho

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* Por Meiri Farias

Em seu primeiro disco, Paloma Carvalho pede licença para adentrar o território sagrado do samba. A jovem artista, admiradora de Nelson Cavaquinho, Cartola e Paulinho da Viola, é especialista em música popular e lança seu primeiro trabalho “Samba Íntimo” onde explora as sutilezas e diversidades da vertente.

Transitando entre tradição e contemporaneidade, o disco está disponível para download no site da artista. Confira o nosso papo com Paloma:

Armazém de Cultura: Na música que abre o disco, você “pede licença” ao samba. Como foi o seu encontro com essa vertente musical?

Foto: Rafael E. Marti

Foto: Rafael E. Marti

Paloma Carvalho: Como cantora estreante e estudiosa de música brasileira, sei que sou apenas uma gota na imensidão cultural e histórica da nossa música, especialmente o samba. Por isso peço licença, pois cantar samba é uma enorme responsabilidade e uma bênção. O samba surgiu aos poucos pra mim, primeiro das referências musicais que eu tive desde pequena quando meus pais escutavam muita música brasileira. Quando escolhi seguir a carreira de cantora, em 2009, já era apaixonada por Cartola, Nelson Cavaquinho, Noel Rosa, Paulinho da Viola, Clara Nunes. Foi algo natural, que vinha da minha alma. Mas essa vontade de cantar samba cresceu ainda mais quando comecei a estudar melhor a história, as transformações sociais, musicais e poéticas que o samba e a música brasileira em geral passaram ao longo do último século. Penso que é uma honra poder dar continuidade e também fazer minha própria leitura de um gênero musical tão grandioso.

AC: O samba é um ritmo diverso, cheio de vertentes e influências e o seu disco traz um encontro entre a tradição e temas mais atuais, pode contar um pouco sobre a concepção do álbum? tanto na sonoridade quanto na temática das letras?

Paloma: Desde o começo, trabalhamos todo o disco com o conceito de “Samba Íntimo”. Os arranjos foram pensados de forma minimalista, trabalhando com silêncio, com espaços, com poucos instrumentos que conversam entre si.  Para deixar o disco mais contemporâneo, urbano e mais próximo de mim, escolhi deixar o samba menos “óbvio”, com menos elementos percussivos, por exemplo, e adicionar texturas de guitarra, instrumento que não faz parte do samba tradicional.  O samba aparece sutilmente no disco. Também escolhi fazer algo mais sutil na maneira de cantar, colocar a voz quase como uma conversa. Por esse motivo, todas as letras são referências à coisas que eu vivi, que eu sinto e penso com frequência, coisas que me marcaram, coisas íntimas.

AC: O Bruno Roberti é seu parceiro na composição da canção “Cadê sua fome?”,  como surgiu a parceria?

Paloma: Conheci o Roberti em um encontro de artistas e compositores no começo de 2014. Era um clima muito legal de troca musical e energética onde estavam vários artistas independentes e amigos como Márcio Lugó, Edu Sereno, Desa. Na semana seguinte eu e o Roberti fizemos a canção “Cadê Sua Fome” pela internet (olha que moderno, risos). Mandei a letra, ele colocou a música e depois fomos fazendo ajustes aqui e ali. Mais tarde a música ganhou o arranjo de Fernando Diniz para entrar no contexto do meu Samba Íntimo. Tive a alegria de ter Bruno Roberti e Thiago Varzé (outro artista maravilhoso) como convidados para cantar comigo no show de lançamento do meu disco, que aconteceu em Março deste ano.

Ouça “Cadê sua fome?”:

AC: Falando nisso, o disco traz um trabalho autoral na composição, como é esse processo de compor para você?

Paloma:  Apesar de ter algumas canções em que a letra e a música são minhas, isso é mais raro. No disco tem apenas uma, a “Manhosa”. Me expresso melhor com palavras e por isso tenho mais facilidade em colocar letra na música dos outros ou então de escrever uma letra para ser musicada. No disco tenho parcerias com músicos incríveis como Sérgio Molina, Ronaldo Gama, Rodrigo Bragança e Bruno Roberti. Tudo que eu canto, que eu componho, que eu escrevo, precisa ser muito verdadeiro. Sou canceriana, romântica, dramática, sensível. Por isso a maioria das minhas músicas falam sobre amor e todas as alegrias e dores que ele nos traz.

AC: Você se especializou em Canção popular, certo? como a pesquisa acadêmica contribui com o seu trabalho?

Paloma: A música popular ainda é pouco estudada pela academia formal. A maioria das teses e estudos relevantes sobre a música popular brasileira foram feitos por alunos de letras, sociologia e história, pois a música clássica praticamente domina a área musical. Por isso me sinto privilegiada em ser especialista em canção popular e torço para que os estudos aumentem. Como já disse no começo da entrevista, poder me especializar em Canção Popular e estudar melhor a música brasileira me fez ver a grandiosidade da nossa música e me fez ter muita vontade de continuar trilhando esse caminho. Além do conhecimento teórico e dos professores incríveis com quem pude aprender, a Pós foi fundamental para concretizar o sonho do meu primeiro disco. Foi durante o curso que muitas musicas foram compostas, foi lá que conheci grande parte dos músicos, compositores e arranjadores do disco, além do produtor musical, Gilberto Assis.

Foto: André Brandão

Foto: André Brandão

AC: Recentemente você divulgou a liberação do seu disco para download, o que é uma tendência cada vez mais frequente entre os músicos. Para você a internet modifica tem modificado a forma de pensar, produzir e distribuir música?

Paloma: Com certeza a internet é o principal meio de distribuição e divulgação da música autoral independente, que acaba não sendo conhecida pela maioria das pessoas, que ficam presas às modas e artistas divulgados pelas “grandes mídias”. Felizmente, para aqueles que buscam novidade, diversidade e qualidade, a internet é uma surpresa maravilhosa. Você pode ficar horas descobrindo e escutando artistas incríveis que, infelizmente, não tocam nas rádios, não estão nos programas de TV, não estão nas reportagens das revistas e nem nos festivais e shows organizados por  grandes empresas.

Eu mesma já descobri por acaso, fuçando na internet, muita coisa legal e adorei poder baixar o disco do artista, escutar com calma. É mesmo uma tendência mundial. Então fico feliz em saber que as pessoas podem entrar no meu site, baixar meu disco e ouvir quando e quanto quiserem, pois se a pessoa gostar ela vai acompanhar o trabalho, ir nos shows, chamar os amigos. E assim a música vai chegando em lugares que nem imaginávamos.

AC: Quais são suas principais referências musicais? e que artistas contemporâneos você indica para quem se identifica com o seu trabalho?

Paloma: Pessoalmente gosto muito de artistas das antigas, como citei no começo da entrevista. Sou apaixonada por Cartola, Nelson Cavaquinho e Paulinho da Viola, artistas que eu costumo incluir no repertório dos meus shows autorais, além de fazer shows inteiros com releituras de musicas desses três gênios do samba.

Também escuto e me inspiro muito em artistas contemporâneos como Mayra Andrade, Céu, Tereza Cristina, Mônica Salmaso, Maria Rita, e muitos amigos e artistas incríveis da cena independente como Thiago Varzé, Bruno Roberti, Lia Paris, Bruno Brasil, Márcio Lugó, Desa, Edu Sereno, entre outros.

Ouça “Samba Íntimo” :

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