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Um grito silencioso por liberdade

Tem na minha estante

* Por Meiri Farias

Em julho de 2014, assisti a uma palestra do Sidney Gusman no encerramento de um curso de quadrinhos do Sistema Municipal de Bibliotecas. Algo que o Sidão disse naquela ocasião me marcou muito “Sempre tive uma obsessão meio maluca: Eu quero que quadrinhos volte a ser meio de comunicação de massa”. Aquilo me pegou: como não notar o potencial que os quadrinhos tem de reproduzir aspectos culturais de um determinado período?

Partindo dessa ideia de como os quadrinhos podem (e devem!) ser considerados mídia de massa, me peguei questionando se seria possível fazer jornalismo por meio de quadrinhos. Não apenas charges ou ilustrações, mas uma narrativa jornalística utilizando a HQ como plataforma. A revista Serafina já fez algo interessante em pequenas matérias como essa sobre o jogador de futebol Hulk, mas faltava um experimento em grande reportagem.

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O tridentino Ugo Bertotti (confesso que precisei pesquisar o adjetivo pátrio de quem nasce em Trento. Trentino ou tridentino? Google não esclareceu bem) provou que dá certo por meio de seu livro “O mundo de Aisha – A revolução silenciosa das mulheres no Iêmen”, lançamento da Editora Nemo – braço de quadrinhos da Editora Autêntica. Com base na fotorreportagem da fotografa Agnes Montanari, Ugo conta a história de lutas e provações que são impostas as mulheres do Iêmen.

Confesso que sei pouco sobre a cultura do país além de sua tradição mulçumana, mas me interessei logo ao perceber que era um quadrinhorreportagem (esse termo existe? deveria!) e pelo aspecto de “perfil” que cada capítulo adquire enquanto apresenta suas personagens. Como uma jornalista frustrada com o tratamento”ligeiro” destinado as matérias publicadas em revistas e jornais, encontrei no trabalho de Ugo um cuidado verdadeiramente jornalístico, mesmo quando o único texto usado é a imagem. A riqueza de detalhes ajuda a compor um cenário que não nos é familiar e identificar e individualizar personagens “invisíveis”. Cobertas dos pés a cabeça por um véu negro – o niqab – as mulheres do Iêmen carregam essa quase invisibilidade, comparadas no livro a fantasmas silenciosos. Mas embaixo de cada niqab existe uma história de resistência.

Nunca foi tão evidente e necessário se falar de empoderamento feminino e libertação dessa sociedade machista e patriarcal. Se nós, que vivemos uma realidade que permite a discussão, sofremos com a desigualdade entre gêneros, parece inimaginável um lugar onde a mulher ainda é tratada comumente como propriedade. Onde essa mentalidade muitas vezes já está tão culturalmente incrustada em seu cotidiano, que elas próprias a carregam com relativa naturalidade.

Teaser divulgado pela Editora Nemo:

Ugo apresenta uma narrativa distante em uma cultura absolutamente diversa, mas o sentimento é muito real. Seus desenhos intercalados a fotos de Agnes, dão veracidade a relatos  que estão longe da ficção. Na tragédia ou na coragem e perseverança, essas são histórias de mulheres que de alguma forma desafiaram uma ou mais convenções e prosperando ou padecendo, aumentaram da sua forma o coro de resistência. Em um país “Arcaico, arruinado e magnífico”, como explica Aisha – personagem que nomeia a HQ, vive reflexo de uma minoria política que ainda engatinha em suas conquistas, mas não abre mão de sua luta maior. Como Sabiha, Aisha, Hamedda e tantas outras, somos mulheres gritando silenciosamente por liberdade.

2 thoughts on “Um grito silencioso por liberdade

  1. Massa, essa dica Meiri! E sim! Jornalismo em quadrinhos é uma realidade. Já existem muitos profissionais totalmente voltados para a atividade jornalística na linguagem de HQ. A grande referência mundial é o Joe Sacco (entrevista massa com ele no http://guiadoestudante.abril.com.br/blogs/divirta-estudando/um-bate-papo-com-joe-sacco-o-criador-do-jornalismo-em-quadrinhos/), mas há brasileiros debruçados sobre essa vertente também, tanto estudando na academia essa possibilidade quanto praticando-a no mercado editorial. O gaúcho Allan Sieber fez um livro que eu tô muito a fim de ler chamado “É tudo mais ou menos verdade”, que brinca com a ideia do jornalismo gráfico sem poupar no humor crítico. 😉

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