Abre Aspas

Bernardo Bravo: Arlequim de Curitiba e a arte do encontro

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* Por Meiri Farias

No piano de “Arlequim” cabe tudo que sua imaginação acreditar. O disco de Bernardo Bravo traz um mundo inteiro dentro de sua voz a bailar suavemente sobre as teclas. Delírio, encanto, sedução, amor, desamor e carnaval. Carnaval em Curitiba. O artista que já é conhecido pelo trabalho no duo Felixbravo, lança em junho um trabalho audiovisual elaborado a partir do disco e divulgou recentemente o vídeo da música “Zeppelin” com participação de Uyara Torrente.

Aliás, esse é mais um exemplo dessa vocação gregária de Bernardo. Além do trabalho com João Felix, esse ano pretende gravar para o “Trionírico”, projeto com Estrela RuizLeminski e Téo Ruiz. “A música é uma arte que se enriquece quando os músicos se encontram, ela é primordialmente a arte dos encontros”, explica. Sobre Arlequim, encantamento (o nosso) e encontros. Confira a entrevista com Bernardo Bravo.

Armazém de Cultura: Você está para lançar um DVD, certo? pode contar um pouquinho sobre o que podemos esperar?

Bernardo Bravo: Sim, lançarei um trabalho audiovisual do Arlequim. Ele está mais para um média metragem do que pra um DVD em si. Algumas músicas do Arlequim (e algumas inéditas) foram escolhidas dentro de um roteiro elaborado pelo João Marcelo Gomes (Diretor do clipe ‘Alice’do Lemoskine). Foi tudo filmado em preto e branco em um teatro antigo, tendo como referência filme noir. O material está ficando bem bonito.

AC: Observamos uma presença muito forte da teatralidade nas músicas do disco (dos textos declamados até as letras), como as diferentes formas de arte se manifestam no seu trabalho? E como isso será transmitido para o DVD?

Bernardo: Sim sim! O Arlequim foi concebido pra ficar bem nessa área entre o teatro e a música. Eu não sou ator, mas para conceber o show tive a ajuda da Karina Pereira (uma clown aqui de Curitiba) que me ensinou o corpo do Arlequim e trouxemos a comédia dellarte para dentro do palco. O show não é o Bernardo Bravo cantando suas músicas, mas sim o Arlequim desabafando com o piano suas ânsias com a Colombina (Mariana Barros) e o Doutore (Bruno Piazza). O show é um triângulo amoroso entre nós, contado pelas músicas do disco. No meio do espetáculo encenamos e vivemos todas as crises e delícias desses personagens.

Foto: Página oficial do artista

Foto: Página oficial do artista

AC: Por que o Alerquim?

Bernardo: O nome inicial do trabalho era Galanteio. Ao gravar uma faixa do felixbravo em voz e piano, Saudade, tive a ideia de fazer um disco inteiro com músicas que falassem de sonho, delírio, sedução, encanto, amor e desamor. Fui reunindo esse repertório e coincidentemente fui comprando objetos de losango, curtindo a estampa com losangos, sem saber muito bem o que estava acontecendo. Quando eu já estava com o repertório quase todo selecionado o Phill Veras veio passar o carnaval aqui com a gente, na casa da Janaina Fellini (vale conhecer o trabalho dela) e por conta dessa viagem escreveu a música. Ouvi dois dias depois que ele tinha feito e ela não saiu da minha cabeça. Pedi pro Bruno Piazza colocar ela no piano e ela ficou linda,  a ponto de eu colocá-la pra começar o disco. Quando olhei de novo pro repertório, pra quantidade de roupa com losango que eu tinha, somando delírio, encanto, sedução, amor, desamor e carnaval, percebi que eu estava tomado pelo Arlequim. O Arlequim deixa bem maior o conceito de um mero galanteio, além de galanteio ele é o arquétipo da natureza humana que ama, desama, sofre, brinca, sonha e seduz. O Arlequim era um universo inteiro dentro de um perfil e isso me dava pano pra manga pra mergulhar como artista em um disco e um espetáculo mais detalhado do que só um mero novo trabalho. Enfim, eu me apaixonei por ele e vivi intensamente essa delícia.

Ouça “Carnaval em Curitiba”:

AC: Arlequim é no formato voz e piano, como foi essa escolha?

Bernardo: Sempre amei o piano, mas nunca tive a oportunidade de aprender a tocá-lo. Sempre que algum pianista estava comigo eu ficava assim meio maravilhado com esse universo de teclas brancas e pretas que faz a gente sonhar quando ressoa. A escolha foi basicamente por conta disso: a simplicidade da voz e do piano me deixava livre enquanto intérprete pra executar as músicas como eu bem entendesse, para que  a mensagem das letras ficasse bem clara pro ouvinte. O voz e piano deixa o artista pelado no estúdio, sem poder usar qualquer recurso pra maquiar a execução do trabalho (tudo foi gravado ao vivo, sem o clique pra ditar o tempo, apenas repetíamos as músicas até ela ficar boa), ou seja, ou eu saberia cantar ou era melhor eu não cantar aquilo. Por isso que alguns erros e todos os respiros ficaram no disco. Ali sou eu nu em música mesmo.Temendo um pouco a recepção do disco por conta do monossom entre piano e voz optei por trabalhar com 3 pianistas que eu admiro muito: o Bruno Piazza, o Fábio Cardoso e o Vinícius Nisi. Essa ideia foi pra deixar pro ouvinte toda a expansão que o piano pode exprimir quando cada mão o toca. Cada um deles teve um jeito e uma expressão e isso deixou o disco mais fluido e menos monocromático. Ao invés de optar por arranjos mais sofisticados cheios de instrumentalização, o disco de voz e piano permite que você imagine em cada momento da música a orquestra que você quiser no refrão que você quiser. Mas é tudo dentro da sua cabeça, o piano só sugere.

AC: Ao ouvir o disco, percebemos que as músicas que o compõem estão relacionadas ao cotidiano de forma curiosa. Ao ouvir “Cangote”, por exemplo, notamos uma preocupação quase palpável no relato dos detalhes. Poderia falar um pouco sobre esse pr0ocesso de composição, e escolha de repertório?

Bernardo: O processo de seleção foi bem delicioso. Eu tinha algumas músicas que eu havia composto com alguns parceiros fora do felixbravo (Du Gomide, Cauê Menandro, entre outros) e eu tenho compositores amigos que eu já estava querendo cantar (Estrela e Teo Ruiz, Leprevost, Troy Rossilho, Octávio Camargo, Alexandre França, Lívia Lakomy). Em comum entre nós sempre teve essa Curitiba linda que infelizmente (ou felizmente) não sai muito no jornal. Mas fui visitando a casa de grandes amigos compositores e fui vendo que havia canções maravilhosas que não estavam na lista para serem cantadas nem gravadas. Juntando essas com as minhas outras parcerias, tinha aí um motivo pra fazer um disco. No meio da minha pesquisa sobre timbragem de piano e músicas incidentais (tem algumas citações de músicas eruditas e temas conhecidos entre algumas canções, mas isso é segredo hehe) eu descobri a valsa Saudade, que é um música feita pela Chiquinha Gonzaga para o Carlos Gomes, quando ele faleceu (eles eram grandes amigos). Ela é tão bonita que resolvi me intrometer um pouco na obra dela e letrei com o maior carinho que eu pude, imaginando um amor saudoso entre dois personagens. Basicamente o processo foi esse, o de deixar canções que me emocionassem acima de tudo, pra chegar no talo do arrepio daquilo que a gente pode chamar de lírismo hehe. Abri mão temporariamente de um trabalho onde só eu letrava pra cantar letras e músicas de pessoas que eu admiro muito.

Ouça “Cangote”:

AC: Você tem um projeto com João Felix, o Felixbravo e também tem trabalhado com Estrela Ruiz Leminski e Téo Ruiz, pode contar um pouco sobre esses trabalhos? No que se diferenciam da sua carreira solo? 

Bernardo: O felixbravo é um núcleo de composição. Eu e João Felix somos compositores que funcionam bem juntos e temos um baita material ainda pra gravar. Eu com Estrela e Teo temos um projeto que gravará esse ano chamado Trionírico, que uma fusão sonora de tudo aquilo que a gente gosta, tirando as coisas sérias hehe. Eu, Teo, Estrela e Lívia temos composto muito juntos, tem um repertório inédito surgindo por aí que vai respingar no disco do Tronírico, no meu próximo solo (sim, já já ele vem) no da Lívia, enfim, são meus amigos. No fundo, no fundo eu vou me misturando nos trabalhos deles e eles no meu por conta da amizade e pelo amor em criar música, uma música nossa, com o nosso jeito de ver, escrever e viver o mundo.

Foto: Larissa Nowak

Foto: Larissa Nowak

AC: Você gravou uma música do Phill Veras – Carnaval em Curitiba, fez participação no CD Leminskanções, o projeto Dois Tempos de um Lugar traz uma música sua no repertório – Cangote, (nos últimos tempos sua música tem chegado até nós por muitos caminhos!). A nossa percepção, é que essa turma da música brasileira recente é a geração dos encontros. Você acha essa geração se influência mutuamente? Que artistas contemporâneos você enxerga afinidades com o seu trabalho?

Bernardo: Sim, eu sou um combo de encontros e a minha função artística, além de basicamente compositor, é a de fomentar esses encontros (por conta disso virei produtor, tenho parcelas de culpa no Festival Suave, Festival Musicletada, entre outros). A música é uma arte que se enriquece quando os músicos se encontram, ela é primordialmente a arte dos encontros. Nossa geração está se influenciando sim e tendo coragem de cantar a si mesma, sem detrimento de outros grandes compositores antigos. Isso pra mim é saudável e nos posiciona sobre o nosso papel na história do cancioneiro brasileiro. Basicamente enxergo afinidade do meu trabalho com todos aqueles que me cantam ou os quais resolvi cantar, mas tem muita gente que ainda vai ser cantada e que vai lançar disco nesse ano e no próximo. O universo que a gente permeia (que é muito bem mapeado pela Musicoteca, por exemplo) não está na grande mídia, mas tem uma produção musical muito prolífica. Aquele que tiver o desejo de fuçar (como vocês do Armazém de Cultura lindamente estão fazendo) certamente vai perceber que as conexões entre os diferentes trabalhos são lindas e que a música brasileira está pulsando aí mais linda que nunca, jovem e com bastante coisa pra dizer.

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