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Dica de Segunda: O pão que o diabo AmaSou (Edu Sereno)

Dica

* Por Beatriz Farias

Essa dica nasce de uma ressaca de som após o fim de semana bebendo música sem moderação e é mais que uma dica senhor leitor. Escrevo numa segunda fria com um sol que não sai e, ainda assim, essa sensação de florescer após a chuva ter regado é maior que a vontade de voltar pra cama e só sair quando a estação tiver passado. Se o desentendimento já estiver incômodo: Semana passada comentei que hoje falaria da Clarice Lispector mas mudei sem escrúpulos de ideia esse final de semana com base no que aprendi com a mesma. É preciso falar do urgente, o que toca e martela na cabeça quando acaba, e por isso deixar passar é balela. Vamos comer (degustar é pra quem tem medo de gostar) dO pão que o diabo ama sou com vontade: “cada sina tem seu sabor”.

Foto: Página do Artista

Foto: Página do Artista

No ano passado, conhecemos o trabalho de Edu Sereno em meio a uma turma que tem feito o  que tem de mais criativo na música da São Paulo. Em uma conversa sobre o caos, encontros e sabores da cidade, falamos sobre o EP “Esquinas, janelas e canções” (2013) e a expectativa para o lançamento do disco completo.

Como velha no corpo de jovem que fui criada, gosto infinitamente da mídia CD. Enquanto escrevo esse texto abro e fecho a capinha, leio o encarte, relembro o nome da próxima música, examino a ficha técnica e procrastino mais um pouco porque desde que fui ao show do “Esquinas, amigos e Canções” ano passado me fiz prometer que esse texto só saia quando ouvisse “Ventar” gravada, por saber que o gosto por algumas músicas não cabem nas palavras já inventadas, concluirei mais pra frente o pensamento de faixa a faixa, por enquanto fiquemos com a citação “nada tem a graça que tem quanto estou com você” que sempre faz com que eu tenha mais certeza que escrever esse texto é celebração da coletividade. O disco, que foi finalizado via financiamento coletivo concretiza a afirmação já feita. A ideia de crowdfunding muitas vezes aqui exposta, coloca as pessoas dentro da coisa, o público é participante do processo.

Confira a entrevista com Eduardo Sereno

Com Rafa Moraes produzindo tocando, bem acompanhado de Marcelo Sanches, Beto Vasconcelos, Bruno Marques, Otavio Carvalho e Jota Erre, o CD é do cotidiano, mas o Edu vai além. Ele fotografa o detalhe que ninguém percebeu, ou de tão óbvio ninguém se atreve a comentar. O disco passeia por essas esquinas que vão das paisagens solares àquelas que precisamos observar no escuro. Praça, estação de metrô, varanda, periferia. Necessidade de estar, ocupar, fazer presente, olhar as janelas: é um disco que te ouve também. Feito pra quem e por quem não se cansa de admirar a vida, sendo isso genuíno ou por tudo que daí precisa ser dito. É também confronto ao esquecido, essa cegueira que toda a informação transmite. Ao que fingimos não ver, Edu usou para ilustrar os teasers da campanha e disco. Localizada no bairro Bixiga, a Vila Itororó acolhia mais ou menos 80 famílias. O lugar será “resgatado” para virar um Centro Cultural, contradição da ideia. A arquitetura que agora estampa o encarte é beleza incomoda, oferece resistência e desafia o calado.

Teaser divulgado durante o financiamento:

Permeando tudo o que a gente tem pra sentir, todas as músicas do disco foram compostas por Edu, algumas em parceria com nomes como Marco Vilane, Ale Gomes, Dudy Cardoso, Daniel Brou, Arthur Krokovec, Livia Humaire e Henrique Athayde. Desisti de falar de canção por canção porque uma das coisas mais fortes que a batida do disco me dá é que tem coisa que se interpreta no silêncio. Aquilo que aconteceu, gerou a música e nasce na gente com tantas explicações e significados, é. Justificar o porque da coisa “ser” diminui tudo o que ainda vai causar, a coisa é para mim a forma como me aproprio, o momento em que ela foi feita é sagrado, sua essência não se anula, mas quando chega no meu fone de ouvido passa por meus sentidos vira verdade minha, sua e de quem for. Na entrevista do ano passado, Meiri Farias fala que Edu Sereno é uma fuga da loucura, convite a desacelerar e viver agora. O que sobrou a dizer é tudo que já não cabe em texto, “o avesso de um triz” essa dimensão paralela de quem conta e escuta. O pão que a gente mastiga com prazer de quem entendeu o recado.

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