Dica de segunda / Literatura / Questão de Opinião

Dica de Segunda: Feliz Aniversário (Clarice Lispector)

*Por Beatriz FariasDica

Clarice Lispector é meu tema de estudo e identificação favorito desde que li o primeiro livro e, apesar de ter certeza que ainda o farei, hoje não vim contar minha história com a autora. Enquanto dou esse spoiler, anuncio um que cumprirei hoje (tardiamente, por motivos maiores): o de destrinchar o conto “Feliz aniversário”, que usei de tema na minha aula de redação, e achei por bem compartilhar. Vamos então ao encontro dessa amarga mediocridade de um feliz aniversário.

Com frequência estudamos escritores que já não fazem parte da nossa geração, e em algum momentos questionamos o que causa esse encantamento que Clarice Lispector - Laço de Famíliaultrapassa os anos e ainda nos provoca a escrever. Lispector publicou seu primeiro livro de contos em 1960. 55 anos mais tarde, “Laços de Família” justifica a dúvida do início dessa resenha: essa identificação não deixa escritos morrerem, os contos de Clarice estão mais vivos que nunca. Como base da discussão, apresento um conto deste livro já citado, que carrega esse legado de capturar o nosso tempo em uma esquete onde rindo de tudo, até esquecemos o espelho posto a frente. “Feliz aniversário” é a história da festa que Zilda prepara a sua mãe com direito a balões de “happy birthday”, bolo açucarado e saboneteira para quem já não sabe o que dar depois de tanto tempo. Os filhos, netos e noras que vão chegando fazem coro a essa comemoração em torno da velha – a única que já não se solidariza com a felicidade disfarçada.

Clarice não tem simpatia com seus personagens, constrói com maestria e indiferença a mediocridade, uma das poucas coisas que a miséria humana não tem mesquinharia ao compartilhar. É a festa do ridículo: a necessidade de ser aceito pela própria família torna o ato de cuspir o mais grave dos erros contra a tentativa de “ser correto”. Gente de bem. Sair do protocolo de normalidade é pavor dessa gente rasa que precisa mostrar àqueles irmãos que subiram na vida, eles não têm nada a dizer, dizem tudo e por isso, nada é espontâneo. A forma com que Lispector escreve é crucial, o jogo de ideias e palavras passando do cômico ao sóbrio, os detalhes precisam de atenção; o nome da velha é revelado apenas uma vez pela vizinha (quem não é da família que não se envolva!), a aniversariante é vó, mãe, sogra, mas não tem nome, 89 anos pesam nas costas, “nunca mais ela seria apenas o que ela pensasse. Sua aparência afinal a ultrapassara”.

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O texto é carregado de negação e contentamento. Aquelas pessoas se conhecem da vida inteira, mas não sabem quem são. É preciso que a promessa de que se verão no próximo aniversário seja anunciada para que não precisem trocar uma palavra até lá. “Nos veremos ano que vem mamãe!” o filho implora que a esquecida aguente um pouco mais, “amor de mãe é duro de suportar”. O final é surpreendente para quem se impressiona com a realidade; há tanto tempo já riram da nossa sociedade e a gente brincando de rir por último com as misérias dos primeiros.

Beatriz Farias

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