Abre Aspas / Música

Nomad: Rubens de La Corte viaja por ritmos, texturas e lugares

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* Por Meiri Farias

“Cabe de tudo no mundo, num coração Paulistano”

A frase é da música “Coração Paulistano”, mas sintetiza muito bem “Nomad”,  o primeiro disco solo de Rubens de La Corte.

Nomad é produto da jornada de La Corte pelo mundo. Após doze anos atuando como diretor musical ou músico de artistas como Angelique Kidjo, David Bowie, Dave Matthews, Gilberto Gil e Caetano Veloso, o artista paulistano reuniu referências, memórias e texturas em um disco que passeia do jazz ao samba, de ritmos tradicionais africanos ao blues. Nesse passeio, o artista nos guia pelo ouvido e pelos olhos – o projeto gráfico de Lia Assumpção reúne fotografias de cidades e países por onde Rubens passou – por uma viagem de sonoridades e imagens. Durante quase uma hora, as catorze faixas do disco transformam o ouvinte em companheiro de viagem. Nômade.

Foto: Eduardo Martino

Foto: Eduardo Martino

O disco ainda conta com participação especiais como Angelique Kidjo, Zeca Baleiro, Jair Oliveira e Oswaldinho do Acordeon. Em entrevista para o Armazém de Cultura, Rubens conta sobre suas influências, trabalho com outros artistas e o lançamento do disco que aconteceu no último dia 6, em Boston (EUA).

Armazém de Cultura: O disco permeia temas, sonoridades e lugares diversos, o que por si só já explica o título Nomad. Como foi reunir tantas paisagens – físicas e sonoras – em um só disco?

Rubens de La Corte: Foi uma experiência incrível. A gente só percebe a bagagem que carrega após tantos anos na estrada quando resolve reunir um pouquinho de tudo num trabalho só. Posso dizer que sinto-me privilegiado por ter tido a oportunidade de absorver tantos ritmos, experiências e sons e conseguir criar algo especial, um disco que a cada faixa pretende transportar o ouvinte pra um lugar diferente, pra um país, uma cultura numa região qualquer do mundo.

Ouça “Nômade”:

AC: Você já tocou com diversos artistas – no Brasil e no mundo – e seu disco conta com participações como Angelique Kidjo, Zeca Baleiro, Jair Oliveira e Oswaldinho do Acordeon, entre outros. Como a relação com esses artistas reverberam no seu trabalho e influenciam o seu som?

Rubens: Todos estes artistas foram e têm sido uma verdadeira escola pra mim. Uma das coisas que aprendi no decorrer da minha carreira é que nunca podemos achar que já sabemos tudo, que não há mais nada de novo para alcançar; o céu não é o limite! Parece contraditório, mas se você não é humilde, nunca consegue chegar muito longe neste meio. Todos estes artistas sempre me inspiraram, justamente porque com sua humildade chegaram longe: a Angelique aprendi a admirar nos anos em que trabalhamos juntos, ela leva sua música literalmente pra qualquer parte do mundo; o Jair Oliveira estudou comigo na Berklee e herdou todo aquele carisma e talento do pai; o Zeca Baleiro e Oswaldinho do Acordeon são consagradíssimos no cenário nacional e concordaram, sem hesitar, em fazer parte do Nomad. Ambos tem vários elos coincidentes de amizade e sonoridade comigo. Pode ter certeza que é uma honra tê-los em meu disco.

AC: “Cabe de tudo no mundo num coração paulistano”, a cidade de São Paulo já tem como característica reunir culturas e costumes diversos. Essa relação de “Coração paulistano” se desdobra durante todo o disco e é bem perceptível. Poderia contar um pouco sobre essa relação com diversos lugares que transparece em seu disco que paralelamente, nunca se desconecta de ritmos tradicionais brasileiros?

Rubens: A música brasileira é muito diversa, muito rica. Isso é resultado de séculos dos encontros de diferentes povos do mundo, das mais diferentes culturas; o resultado é esta mistura maravilhosa que temos aqui: de norte a sul, de leste a oeste, quase nunca os ritmos se repetem. Viajar pela música do mundo durante todos estes anos me fez ver que, de fato, o que temos aqui é algo especial; fico feliz que o início de minha formação musical tenha começado neste país, nesta cidade de São Paulo, sempre tão agregadora, pois certamente foi o que me abriu as portas para tudo o que veio depois. Um “coração paulistano” é geralmente um coração muito grande, onde, sim, cabe de tudo do mundo.

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AC: O projeto gráfico do CD está muito bacana! poderia contar um pouco sobre o conceito?

Rubens: A ideia era deixar transparecer esse conceito do “nômade”, aquele que esta sempre passando por algum lugar diferente e registrando tudo. Claro que, no caso, este nômade sou eu;  por muitos anos minha vida foi assim, a de um músico em constante turnê. Todas aquelas fotos do encarte são de cidades e países por onde passei e não foram poucos (!). Um dia me dei conta de que não apenas a experiência musical poderia ser utilizada num trabalho futuro, mas também todas aquelas fotografias que tanto amava tirar. E daí busquei por temas que me remetessem aos diferentes lugares em que passava; àquela altura eu já conhecia um pouco mais além do óbvio e daí surgiu a ideia das placas, por exemplo. O projeto gráfico final da Lia Assumpção acabou me surpreendendo também; tive sorte de poder contar com ela, uma excelente profissional que deu mais vida ainda às minhas memórias.

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AC: Depois de 12 anos tocando com outros artistas, qual é a maior diferença em apresentar seu primeiro disco solo?

Rubens: Certamente a responsabilidade de estar à frente de um trabalho meu; e literalmente à frente, já que neste disco pela primeira vez eu também canto. A exposição é maior e a cobrança é também diferente; você quer ser um artista mais completo e sabe  que está explorando um lado seu inédito. Eu sou a pessoa mais perfeccionista e exigente que conheço; às vezes é muito difícil ser meu próprio chefe (risos). Mas o desafio é bem vindo, sei que é um grande passo na minha carreira profissional e estou muito satisfeito com o resultado até agora.

AC: Você está lançando o disco no Brasil e nos EUA, qual é a expectativa?

Rubens:Lancei meu disco no último dia 6, em Boston (EUA), por uma feliz coincidência na cidade que há duas décadas me acolheu ainda como um estudante de música. Até então, só havia feito apresentações de pré-lançamento com as canções do meu disco no Brasil, onde reside minha família e grande parte dos meus amigos. Desta vez, os rostos não eram tão conhecidos assim; apesar do frio na barriga, foi uma experiência empolgante e acredito que meu disco foi bem recebido por lá. No lançamento, contei com um time internacional de músicos (Brasil, Ucrânia, Alemanha, Chile e Índia), o que foi importante na hora de colocar em prática a ideia e sonoridade básica do projeto. As músicas são de fato cativantes, elas estão sempre remetendo as pessoas a algum lugar, alguma época da vida; isso é especial para mim. O lançamento do Nomad no Brasil está previsto para o próximo semestre; estou bastante otimista. Minha intenção, neste momento, é divulgar meu álbum, deixar que as pessoas conheçam o Rubens de La Corte músico e viajante e que se encantem com este trabalho de canções que foi preparado com carinho, dedicação e muitas milhas.

Ouça “Água de coco”:

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