Abre Aspas / Música

Zuza Zapata: A arte humaniza o homem

Abre Aspas

*Meiri Farias

Está se tornando impossível rotular gêneros musicais. O que é MPB, afinal? Como explicar o rock sem dividi-lo em milhares de subgêneros que também não englobam a música em sua totalidade? E a música em si, é só música mesmo? o que a define como música? melodia, harmonia, letra? Viver em um país de cultura tão híbrida e miscigenada e dentro de um lógica globalizada onde várias linguagem artísticas convergem, torna cada vez mais difícil classificar a arte que consumimos. Que bom! Para que rotular, afinal?

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Zuza Zapata é um artista que entende bem esse “novo lugar” da arte. Seu disco “Crônicas de Ontem e Outras Saudades” junta música e poesia em pequenas crônicas sobre amor, cotidiano e o “feminino”. Esse olhar também está nas poesias que reúne no projeto “Livretos de Poesia”, que distribui pelas ruas. “A arte humaniza o homem. Ouvi um policial militar falando isso uma vez, que em vinte anos de carreira nos morros do Rio só viu uma coisa salvar com eficiência: a arte. Seja teatro, dança, música, literatura. E é nisso que acredito”, conta. Confira a entrevista:

Armazém de Cultura: O disco “Crônicas de Ontem e Outras Saudades” surpreende pelo cantar quase que declamado que apresenta. Como surgiu a ideia de apresentar as canções dessa forma?

Zuza Zapata: Surgiu de uma vontade de arriscar fazer algo diferente. Eu gostava muito de alguns textos meus, mas não sabia o que fazer com eles. E lembrei de um disco do The Doors (an american prayer) que a banda tocava em cima das poesias que o Jim tinha deixado gravado. Pensei em fazer algo parecido. Porém em Crônicas ficou uma coisa mais orgânica, eu acho. A poesia e a música conversam o tempo todo. Cada frase, cada intenção poética tem o equivalente musical. A música, “Meu Amor, Meu Abrigo”, por exemplo, a poesia que eu falo e o arranjo da guitarra estão totalmente casados. Se o guitarrista erra um pedaço já compromete o que eu falaria. Se eu erro é a mesma coisa. A intenção era deixar tudo bastante encaixadinho e não ser apenas um fundo musical para minhas poesias. Uma coisa não podia existir sem a outra. E deu certo.

Ouça “Meu amor, meu abrigo”:

AC: O seu trabalho reúne dois elementos principais: a música e a poesia. Você é responsável por ambas as partes, ou seja, compõe e escreve a poesia, ou trabalha em parceria? Como organiza esse trabalho, o que nasce primeiro a melodia ou a poesia?

Zuza: Geralmente trabalho em parcerias. Até faço umas melodias às vezes, mas sempre acho-as muito ruins. Gosto mais de construir a parte poética da coisa. No meu primeiro disco o parceiro foi o Walter (que está vindo aí com um trabalho de blues autoral incrível, uma coisa super crua, de arrepiar), as letras são minhas e as melodias dele. Tem canções que gosto muito nesse primeiro disco como Ipanema Radioativa, Poesia em Vida, Menino Engravatado. Nesse segundo disco a parceria foi com o Marcio MM Meirelles (ele quem produziu o disco, fez os arranjos, tocou as guitarras e os teclados). Então preciso dessa figura do músico mesmo ao me lado para fazer a coisa funcionar.

AC: O que te inspira? quais são suas principais referências?

Zuza: A inspiração ta no dia a dia. Gosto muito de falar sobre o existencial . Sobre aquilo que vivencio no cotidiano. Acho que todo mundo que trabalha com arte é um pouco assim. As referências são muitas, é até difícil falar. A música brasileira é algo muito presente na minha vida. Ouço pouquíssima coisa internacional, na verdade. E foi o rock brasileiro que me despertou para a música. Barão Vermelho, Mutantes, Lobão, Nação Zumbi e por aí vai…

AC: Este não é o primeiro disco que lança, o que mudou do primeiro até aqui? Qual é a maior diferença em relação ao trabalho anterior?

Zuza: Rolou um amadurecimento natural em relação ao primeiro disco. O primeiro eu estava tateando muito ainda o que eu queria. A sonoridade é completamente diferente, os instrumentos são violão, baixo e percussão, uma ou outra música tem guitarra. No disco “crônicas” eu me assumi mais, primeiro como poeta e depois com o estilo que fez minha cabeça desde a adolescência, o rock. Não significa que só farei discos de rock agora. Talvez eu faço um de funk ou rap em algum momento, que foram os estilos que fizeram minha cabeça até os treze anos, (risos). Ou misture tudo, sei lá. Não acredito muito em formas. Acho que há vários jeitos de se expressar artisticamente.

Ouça “Pegue uma mochila”:

AC: O título do disco é bem pertinente, pois a impressão que se tem é que existe um cronista por trás das histórias-poesias-canções que se desenvolvem. Poderia comenta um pouco sobre o título, como surgiu e como se relaciona com o conteúdo das canções?

Zuza: Eu realmente não lembro direito como surgiu o título. Só sei que um dia estava indo para o estúdio trabalhar em mais alguma canção com o Marcio MM Meirelles e esse nome veio a cabeça e gostei muito. Todas as canções falam de um feminino que está longe. Eu acho que é um disco bastante feminino. Que busca um contato maior com essa presença feminina. De querer trazer esse feminino para mais perto. E quando falo feminino não estou falando necessariamente de gênero, dessa coisa de homem e mulher. Falo mais de um tipo de energia que esse feminino representa. A música “Bem Precioso” representa muito bem essa feminino presente em todas as canções do disco.

AC: Poderia contar um pouco sobre o projeto dos Livretos de Poesia? como funciona?

Zuza: É um projeto que gosto muito de fazer. Faço livretos de poesia, coloridos e impresso em papel reciclado, geralmente com 16 páginas e os distribuo pelas ruas, eventos, trem, metrô. Durante um tempo ia muito para os vagões do metrô distribuir, mas o MetroRio proibe qualquer manifestação artística dentro dos vagões, não entendo muito bem o porque e já desisti de entender também. O bom é que muitos artistas resistem e continuam levando sua arte para os vagões, pois a população fica muito grata. O artista é sempre muito bem recebido pelos os usuários do metrô. O projeto em si é bem simples, é oferecer poesia de qualidade para a população. Dizem que brasileiro não gosta de ler, mas todas às vezes que ofereço meu livreto, que levo poesia para a rua a maioria ler, pergunta sobre, quer levar para casa. Agora o projeto ta aprovado na Lei Rouanet, para eu poder fazê-lo com uma periodicidade maior. O complicado não é nem aprovar na Rouanet, é captar recurso depois, ir dialogar com as empresas. Tô nesse processo agora. Mas mesmo que não saia o patrocínio sempre que posso faço esse trabalho. Eu realmente acredito que o que pode fazer o mundo melhor é o contato com a arte, cultura. A arte humaniza o homem. Ouvi um policial militar falando isso uma vez. Que em vinte anos de carreira nos morros do Rio só viu uma coisa salvar com eficiência: a arte. Seja teatro, dança, música, literatura. E é nisso que acredito.

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