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Abrigação: Rio que deságua no caos da cidade

Abre Aspas

* Por Meiri Farias com colaboração de Beatriz Farias

Escutando durante a madrugada – o horário mais lúcido que tenho – a gravação da entrevista que fizemos com Angelo Mundy no início dessa semana, fiquei tão envolvida fazendo anotações que levei um susto quando o áudio foi interrompido pela música “Dois, um” que era o próximo arquivo na lista de reprodução. O choque não veio por ter perdido o finzinho da entrevista (tecnologia sempre falha), mas sim porque no momento em que a gravação foi cortada estávamos falando exatamente dessa música e todo o potencial de emocionar que ela carrega. Deixei o repeat ativo e mergulhei no momento de escuta – mais ou menos três e meia da madrugada, a casa dormindo, a cidade em silêncio – a música se fazia tão absoluta e intensa que esqueci de escrever, esqueci de aproveitar e colocar aquela sensação quase de contemplação no papel. Agora estou traduzindo aquele instante rabiscando um rascunho dentro do ônibus cheio, tarde calorenta em uma semana de frio, barulho, trânsito e a tentativa de rememorar  e vislumbrar a experiência em meio a cortina de caos.

Ouça “Dois, um”:

A música do Angelo chega mais ou menos assim: o belo vem em correnteza emergindo no caos. E não passa incólume por ele, ao contrário, vai se apropriando da bagunça que encontra no caminho, trabalha o contraditório dentro de um contexto onde se é parte, mas preserva-se a essência. “A cidade alimenta, eu sinto isso em São Paulo. Eu sofro de viver aqui com tantos problemas, mas eu tenho acesso a tudo que me alimenta aqui”, explica.

Abrigação e o convite ao coletivo

Desde o fim do último mês estamos discutindo como celebrar o aniversário do Armazém e decidimos que intensificaríamos as entrevistas durante toda a semana, o que sempre foi um dos principais focos do site. Assim começamos a buscar trabalhos interessantes e que de alguma forma sintetizassem o que foi esse ano para nós, o que publicaríamos hoje – o aniversário literalmente  – ainda era uma incógnita.

Foto: Lela Beltrão

Foto: Lela Beltrão

O disco de Angelo chegou até nós, não partiu de uma busca. O disco chegou e deu a certeza que suas histórias que permeavam as composições precisavam ser contadas. E mais que isso, toda a história que está por trás do projeto e como ele se organiza de plural e multiartística.

“Abrigação” é o seu primeiro disco “solo”. As aspas remetem bem ao significado que esse título carrega e como que, mesmo tendo surgido depois do disco pronto, ela permeia todo o seu processo de produção. Angelo escutou a palavra no grupo de capoeira Nzinga, da qual faz parte, no contexto de ligação com a espiritualidade. “Eu ouvi essa palavra, ela ficou dentro de mim. Aí eu comecei esse projeto e me veio ela muito forte, porque eu fiquei ecoando com todos os significados que eu ouvi ali naquele momento e com os outros que eu fui criando.” A palavra não está em nenhuma música, mas se relaciona com todo o repertório “foi um processo conquistar esse nome, não é meu, é uma palavra usada em um contexto”. Angelo vê a o grupo e a capoeira de forma geral como sua principal escola hoje em dia “A primeira vez que ouvi a palavra eu estava em um contexto totalmente coletivo, o grupo Nzinga tem essa característica, e a capoeira tem muito isso da coletividade”, conta.

Arte: Mayra Oi - Costura

Arte da música “Silêncio Completo”: Mayra Oi – Costura

Na verdade, Angelo até se incomoda com a ideia de “carreira solo”, disco solo. Para ele é importante estar dentro de um contexto coletivo, participar do movimento que já está rolando. Para isso, reuniu diversas pessoas como  Fê Stok Jonas Tatit que assinam a produção, em prol dessa coletividade, dos músicos aos artistas que criaram peças visuais que compõe o encarte. Dentro do projeto ainda se soma os vídeo-canções que estão sendo divulgados em sua página. Para ele é necessário apresentar uma  lógica onde o disco não é apenas um CD, mas sim um projeto transmídia que se apresenta sua narrativa por diversas plataformas, que colabore assim para um processo de desfragmentação da arte.

Esse sentimento de convergência vem de longe. “Desde muito pequeno eu não recebo só estímulos musicais”, Angelo conta que desde criança a avó paterna já o incentiva a desenhar, pintar, se expressar artisticamente. Aos oito anos descobriu a música e depois o teatro, a narração de histórias, o palhaço, estudou letras,  sempre desenvolvendo o “fazer artístico” a partir de várias linguagens “sabe quando você pega a argila e quer da uma forma pra isso aqui? é um impulso artístico, isso já tinha.”

Não pôs o relógio pra não se apressar

Angelo Mundy conta que mergulha naquilo que faz, todas as partes do processo artístico (gráfico, musical), como que afirmando o que experimentamos ao ouvi-lo, uma poesia que vai além de letra sem excluir sua importância, “era um rio que ia alargando” sem pressa, mas com a urgência sutil de quem se alimenta do que diz, e é esse rio que deságua em nossos sentidos (palavra essa que é usada como substituta, já que ainda não foi inventado nome para fenômeno que abriga o físico e emocional da forma com que precisava me fazer entender – o remédio é ouvir).

Estudou letras na USP, mas o contato com a poesia começou na escola. Durante o colegial teve um professor que trabalhou poesia durante um ano, o que acabou sendo um dos incentivos para trabalhar sua composição. Hoje é possível notar o resultado em canções como “Engasgado”, que brinca com a temática em um trabalho sofisticado de métrica que levou um bom tempo de lapidação.

Ouça “Engasgado”:

Outra música de tema marcante no disco é “O Zé e a cidade”, a primeira composição da lista que ao todo apresenta um trajeto de aproximadamente dez anos. Ele conta que durante uma conversa com Luiz Tatit, o músico e mestre diz que enxerga a cidade no disco quase como uma oposição ao ser. Angelo explica que esses dois eixos aparecem na maior parte das músicas, seja na letra ou na melodia, como uma forma de contraste. A mesma cidade que sufoca, mas alimenta, que falamos lá em cima. Além da urbanicidade, a natureza também encontra espaço nas sensações que o disco provoca “eu não sei aonde exatamente, acho que isso está em mim”, reflete.

“Não me interessa manter o mundo como ele é, restritivo”

Além da carreira “solo” que ganha força agora, Angelo faz parte do grupo de música e teatro infantil Tiquequê há 14 anos, da qual é um dos fundadores e também já trabalhou com educação infantil e oficinas de música criativa. Dentro de diversos contexto profissionais, o caminho escolhido para o lançamento de Abrigação só poderia seguir a ideia de coletividade embutida em todo o processo: o CD foi viabilizado em parte por financiamento coletivo, parte por edital do PROAC. Além do produto físico, é possível fazer download no site. “A cultura por excelência é uma produção que não é minha”.

Sobre a reorganização dos processos de produção e distribuição de música, Angelo destaca o papel do artistas que estão batalhando por seu espaço, mas acha que falta políticas de incentivos como uma lei de fomento à música, por exemplo. Formas que ajudem o trabalho a se espalhar e democratizar. “Eu me considero uma pessoa privilegiada, nasci num contexto privilegiado”, explica, “não me interessa manter o mundo como ele é, restritivo”. O músico sempre se interessou por essa discussão, mas percebe que existe falta de escuta entre opiniões divergentes, e escuta é essencial para a própria existência da política. Hoje enxerga que talvez a intencionalidade de um trabalho todo em prol da coletividade não seja apenas relacionada a forma, mas a um contexto dessa ação política. “Se alguma coisa vai mudar, que seja mudando na minha atitude”, explica.

Veja o vídeo-canção “O Zé e a cidade”:

“Eu quero ter relevância no mundo, eu quero que minha vida vale a pena, acho que no fundo isso. Quando algum artista toca profundamente a gente se sente valorizado, valorizando meu ouvido. Quantas vezes eu ouvia Luis Tatit e pensava ‘esse cara não só tá valorizando minha capacidade de ouvir música, como está puxando ela para frente.'” Abrigação será lançado na cidade oficialmente no show que acontece no dia 1º de agosto na Sala Olido e pretende dialogar com as linguagens do projeto. Além do download é possível ver as obras visuais e assistir os vídeo-canções no site.

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