Música / Questão de Opinião

Angelo Mundy lança “Abrigação” na sala Olido

* Por Meiri Farias

“há uma cidade por dentro
que percorre cada corpo
e aonde quer que se vá
ela vai junto
cidade dentro de outra cidade
é por isso que se diz minha
minha cidade
e sendo corpo
também dói e dá prazer
concreto abstrato
dissolvendo em lembrança
a argamassa
às vezes dói tanto
que se quer expelir
arrancar a cidade de dentro
mas é feita de tempo
matéria mais dura
que o cimento”
(Ricardo Silvestrin)

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O poema acima foi declamado por Angelo Mundy durante a música “O Zé e a Cidade” no lançamento do seu primeiro trabalho solo, Abrigação, que aconteceu no último sábado (1º) na Galeria Olido. Para quem não é de São Paulo ou não conhece muito bem a cidade, a Galeria Olido fica na Avenida São João, pertinho do cruzamento com a Ipiranga (sim sim, “Alguma coisa acontece no meu coração…”). A área central de Sampa é onde suas belezas e misérias aparecem de forma mais gritante e assistir ao show de um trabalho onde o tema “cidade” aparece de forma tão constante é  mais significativo do que parece. A mesma cidade que nos sufoca, alimenta. Que dói e dá prazer. É a cidade que precisei atravessar para chegar ao show, mas que me atravessa diariamente com seu caos, sua contradição. Mas também suas belezas.

Como contamos na entrevista que fizemos com o Angelo em julho (confira no link), Abrigação é um projeto multiartístico que une diversas linguagens em um conceito de coletividade. O CD é formado por onze canções que são acompanhadas por onze obras visuais. Paralelamente, onze video-canções estão sendo divulgados, um para cada música.

O show Abrigação também é movido pela coletividade. Além da (excelente) banda formada por Flora Poppovic, Fabio Barros, PH Mazzilli e Sergio Reze que acompanha Angelo no palco, o show contou com participações de Nicolas Brandão na flauta, Rebeca Friedmann no violoncelo, Mauricio Badé na percussão e da cantora Lenna Bahule. O público também é envolvido por esse espírito de coletividade e acompanhou a apresentação com entusiasmo, culminando no momento em que várias pessoas se levantaram e dançaram ao som de “Bob fala, ouvido ouve”, canção que encerra o show.

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Destaco por gosto pessoal o prazer em ouvir algumas das minhas favoritas como “O Zé e a Cidade”, “Dois, um” e “Talvez seja mesmo tristeza”. “Amor Nômade”, “Atadura, Oração” e “Engasgado” são ainda mais vivas e divertidas ao vivo. Além da ótima versão de “Tô”, música de Tom Zé.

Como não poderia deixar de ser em um projeto que integra vários impulsos artísticos, todas as linguagens utilizadas estavam presentes no show. No lado externo da Sala Olido, as obras visuais em exposição e durante o show propriamente, as músicas foram aliadas a projeções dos video-canções. Observar todas essas manifestações artísticas quase que paralelamente é enxergar um universo onde a beleza das melodias e a reflexão proporcionada pelas letras criam um fio narrativo ainda mais envolvente e imersivo que apenas ouvindo o CD.

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