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Dica de Segunda: Daytripper – Fábio Moon e Gabriel Bá

Dica

*Por Beatriz Farias

Uma curiosidade engraçada e, não novidade sobre esta que escreve, é que o interesse pelo cotidiano é profundo e desmedido. O tédio impressiona tanto quanto apavora, assim como as pequenas irracionalidades que apenas um olhar minucioso percebe. Como que reparando na vida do mesmo modo que no cantinho inferior da página de uma história em quadrinhos, um detalhe que a maioria deixa passar, foi por este gosto que fui envolvida no assunto de hoje. Meiri Farias ao comentar dos irmãos Moon e Bá solta: “eles tem uma HQ que fala do dia-a-dia” – espero não ser demitida após deixar vazar esta resenha pouco aprofundada da chefe – somando o fato à capa que momentos mais tarde desfrutei impiedosamente o aquarelado em algum site, e se entende porque hoje “Daytripper” me traz aqui.

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Tirei mais uma vez de minhas costas a responsabilidade de contar do que fala o livro propriamente dito não apenas porque seria incapaz de dizer melhor do que a quarta capa, mas acredito também que o meu trabalho é mais de impressão do que descrição. “Daytripper” é uma expressão diretamente ligada a turista, viajante, algo que está imóvel, em constante deslocamento – esta tradução tem descompromisso com a literalidade. Descaracterizando a beleza idealizada, o quadrinho nos remete ao cansaço provocado pelo tempo fora de casa, a sensação de sujeira, o peso do mundo nas costas e por mais curioso que seja, Brás não precisa estar geograficamente fora para que todo o contexto citado o persiga, o personagem é a personificação de quando algo em nós nunca chega a lugar nenhum.

Com um roteiro merecedor de estudo profundo para contemplação plena da genialidade e riqueza presente nas palavras, um traço daytripper_capade tirar o fôlego e cores repletas de densidade (esse último tópico ficou por conta de Dave Stewart), somos arrancados de nós para a mágica da realidade, a identificação incomoda. A minissérie que teve sua versão em português publicada em 2011, ganhou os prêmios Eisner e Eagle, indicações ao Harvey, ao Shel Dorf Awards e duas semanas na lista de coletâneas em quadrinhos mais vendidas do The New York Times, deixou claro que Fábio Moon e Gabriel Bá estão fazendo o coerente com o tamanho de seus talentos. Gerard Way (da banda My Chemical Romance e escritor da HQ “Umbrella Academy“, que tem desenho de Gabriel Bá) arriscou dizer que os irmãos finalmente realizaram a obra de suas vidas e é preciso ler com essa sensibilidade de quem não esperava, por isso foi totalmente devastado pela profundeza do material para saber que o moço está coberto de razão.

“Quais são os dias mais importantes da sua vida?” Essa pergunta que lemos na primeira imagem tem o dom de nos fazer dar voltas e voltas ao redor da lembrança para uma passado remoto ou um futuro distante. O dia mais importante da nossa vida nunca é hoje. Talvez amanhã refletindo sobre aquele instante de pura tranquilidade venha a mente que o ontem (no caso o que estamos vivendo agora) foi tudo o que precisava sem alarde, e por isso importante tanto quanto o hoje. Reflexão que só alcança quem sabe a diferença que escolhas grandes ou não fazem no caminho do que somos, sem que uma anule o sabor da outra. É sobre essa mania de querer estar, ser sempre mais. O lugar onde estamos não é o suficiente – e com isso longe de mim tirar a necessidade e graça de sonhar ou fazer planos, processos essenciais para o desenvolvimento de qualquer ser humano – e por isso o melhor dia é sempre aquele que não vivenciamos no agora. Porque a gente não tem máquina do tempo e então só resta nosso cérebro indelicado que não nos deixa esquecer o que ainda não foi alcançado – ou que já foi e não percebeu, e aí a tortura é dobrada.

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Com minha dificuldade de entendimento ao chegar no fim do primeiro capítulo e perto de uma conclusão, levo brutal susto ao perceber o caminho que aquilo tomava. A indignação e rasa aceitação que gera perder um personagem que nem nos afeiçoamos ainda diz muito sobre o que damos à frase “tão jovem!”. Curioso perceber como é maior e mais importante do que se perguntar se aquele pedaço de vida valeu a pena (um confronto impiedoso – ainda bem) com nossa consciência e a mediocridade que esperamos dela. Esse livro não pode ser lido como mero passatempo, é preciso estar atento ao luto para chegar ao fim com algo novo em si. Alguns chamam de ressurreição, mas hoje é segunda-feira ainda amigos, podemos nomear apenas como mais um capítulo, lembrando sempre que já não é o primeiro.

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