Abre Aspas / Música

Thiago K: Em meio a tantas possibilidades de morte, me peguei pensando na vida

Abre Aspas

*Por Meiri Farias

No início da semana a Beatriz fez da sua habitual Dica de Segunda uma resenha da HQ Daytripper, dos premiados quadrinistas Fábio Moon e Gabriel Bá. Além de ser um dos meus livros favoritos, Daytripper tem uma narrativa envolvente e inusitada que (SPOILER) ao final de cada capítulo nos leva ao confronto daquilo para qual todos os nossos passos irremediavelmente caminham: a morte. Ou será a vida?

Parece estranho começar um texto falando sobre o outro, mas o trabalho do artista que entrevistamos me conduziu por esse caminho, e por acaso (ou não), a reflexão sobre a vida bateu a porta novamente. Thiago K lançou recentemente “Em meio a tantas possibilidades de morte, me peguei pensando na vida”, seu primeiro CD que foi viabilizado via crowdfunding. O disco traz dez canções que percorre temas do cotidiano e questionamentos, além de celebrar a beleza da casualidades que se manifestam de forma grandiosa como se apaixonar em “O amor pode chegar” (Preso no décimo andar/Numa contramão em Madagascar/Numa coletânea, virá), uma das minhas favoritas.

A vida é urgente, “o tempo é o raio natimorto“. Tanto em Daytripper quanto no disco do Thiago, a possibilidade de morte nos atira de cara no abismo que é viver. Que a música nos faça flutuar.

Foto: André Nakahara

Foto: André Nakahara

Armazém de Cultura: Como você começou a tocar e como foi a preparação do primeiro disco?

Thiago K: Comecei a tocar ainda criança, lá pelos meus 9 ou 10 anos de idade. Meu pai também é músico/compositor, por isso tive contato com o universo da música ainda muito cedo, sempre escutando os sons que meu ouvia, compunha etc.

A preparação do primeiro disco se fez necessária após alguns anos compondo bastante. O Vínicius Castro, produtor do disco, foi a peça que faltava para tirar a coisa do papel. Ele não só foi o produtor, como tocou guitarra em praticamente todas as faixas, fez arranjos e, principalmente, foi o cara que comprou a ideia do projeto e falou pra mim “Vamos fazer!”. A partir disso começamos a trabalhar intensamente em tudo do disco, desde escolha de repertório, arranjos, referências, mixagem, etc etc. Foi um processo maravilhoso e o resultado final me deixou muito feliz.

AC: Como foi a escolha do nome do disco “Em meio a tantas possibilidades de morte, me peguei pensando na vida”?

Thiago: Essa frase “Em meio a tantas possibilidades de morte, me peguei pensando na vida” é de um momento de muita tensão na vida e questionamentos artísticos, e assim ela surge de uma postagem no Facebook que o Sandro Dornelles, meu parceiro de composições, fez depois de alguma madrugada bêbada que passamos. Estávamos na noite, deixei Sandro em casa, fui pra minha. Quando cheguei em casa, abri o Face e ele tinha acabado de postar essa frase. Comentei embaixo: “Esse será o nome do meu disco”. No outro dia, quando acordei, compus o refrão da música, que viria a se chamar “Balanço”, com a frase. Depois fizemos o restante da música. Assim nasceu o rumo e a temática que, posteriormente, o disco seguiria.

Ouça “Balanço”:

AC: O CD foi financiado via crowdfunding, certo? como foi a experiência e o que acha dessas novas ferramentas que possibilitam uma participação mais ativa do público no trabalho do artista?

Thiago: Sim, o disco foi financiado através de crowdfunding pelo site Benfeitoria.com e foi sensacional. O período de campanha é um período de autoconhecimento extremo e de muitos questionamentos, pois muitas vezes você se pensa que não vai dar certo, você se sente um chato por ter de ficar lembrando diariamente as pessoas sobre a campanha. Enfim, é um trabalho intenso, diário e que requer muita confiança e certeza naquilo em que você está fazendo. Por outro lado, é muito legal quando pessoas que você não conhece, ou pessoas que você nunca imaginaria que participaria da campanha, participam e torcem para que o projeto seja bem sucedido. E o mais legal é depois que a campanha dá certo, e as pessoas ficam esperando pelos CDs e recompensas. O disco já sai com destino certo, e vai para um público que acreditou e quer ouvir pois investiu nele. Por isso, acho que essa ferramenta (do crowdfunding) é fundamental para que vários ótimos trabalhos artísticos possam sair do papel sem depender de editais ou leis, que na maioria das vezes, não podem contemplar a todos.

AC: Das 10 músicas que formam o álbum, 8 são parcerias e as demais de outros artistas, certo? como foi a escolha do repertório?

Thiago: Sim, 8 músicas são minhas em parceria e as outras duas são de amigos. “Sobre anjos e arraias” é do Bruno Batista, que também assina a letra de uma das minhas oito, e outra é “Basta um toque”, de dois grandes e queridos compositores baianos, Álisson Menezes e Paulo Gabiru.

O repertório se formou a partir do título do disco, que trouxe essa temática da vida, do cotidiano, da vida na cidade. Assim, conseguimos deixar de lado várias outras canções que tinham outra vertente e, no final, ficamos (eu e Vinícius) com umas 15 ou 16. A partir daí fomos vendo quais tinha ligação entre si, quais trariam equilíbrio ao disco, e chegamos nessas dez.

Foto: Mayara Soares

Foto: Mayara Soares

AC: Como é o seu processo de composição? prioriza a letra ou melodia?

Thiago: Os processos de composições são variados. Para cada parceiro e música existe um processo. No disco, por exemplo, existem canções que foram feitas a melodia primeiro e depois o parceiro fez a letra. (Caso de “Motor”, “Pra quebrar”, “Agosto”. O processo contrário também, o parceiro mandou a letra e eu musiquei ela (Caso de “O amor pode chegar” e “Beije!”). Existem algumas que foram feitas juntos, com o parceiro do lado (ou ao vivo via facebook) escrevendo e eu fazendo a melodia na hora (Caso de “Empoeirado”, “Balanço” e “No limite da espera”).

Para esse disco, acabou que todas as minhas músicas são melodias minhas e letras dos parceiros. Porém, também tenho algumas músicas com letras minhas, tanto em parceria como sozinho. Acredito que no próximo CD deve aparecer algumas delas.

AC: Em 2014 você se apresentou na Europa, como foi a recepção do público? já cantava o repertório que deu origem ao CD?

Thiago: Na Europa, o fato de você ser um músico brasileiro já te faz ter as portas pelo menos “meio-abertas” em todo canto. Viajei por vários países, e fiz shows tocando MPB em geral e em alguns lugares com as músicas do meu trabalho, já com canções desse disco. Sempre fui muito respeitado, eles gostam muito da nossa música. Costumo dizer aos meus amigos músicos que o fato de sermos brasileiros é um grande privilégio no ponto de vista musical. O mundo todo para pra assistir a música brasileira. Fico imaginando que se eu fosse de algum outro país talvez eu não tivesse sido tão bem aceito musicalmente.

AC: Quais são as suas principais referências na música? e o que tem escutado atualmente e indicaria para quem se identificou com o seu trabalho?

Thiago: É claro que existem as referências dos grandes mestres da MPB, Caetano, Gil, Chico, Tom, etc etc … Sem esses não faríamos as músicas que fazemos hoje, esses vieram abrindo caminho pra gente fazer as coisas que podemos fazer hoje. Mas, vou chutar aqui alguns nomes que acredito que formaram a minha base musical: Vitor Ramil, Lenine, Jorge Drexler, Eudes Fraga, Sergio K Augusto (meu pai), Chico César, Moska, Los Hermanos, Radiohead … são alguns.

Agora, é bom que você tenha perguntado o que eu costumo ouvir e me influenciar. Acho que, sem dúvida, os sons que mais me influenciam são os trabalhos dos meus amigos, dos músicos que estão por perto. Demetrius Lulo, Dandara, Paulo Monarco, Daniel Conti, Ítalo Lencker, Bruno Batista, Kléber Albuquerque, Raul Misturada, Filarmônica de Pasárgada, Tarumã, Anna Tréa … todos esses são nomes que ouço muito e indico para que todos conheçam. E voltando ao o que tenho escutado atualmente, abri agora meu DVD e encontrei o fantástico CD “Zulusa” da Patrícia Bastos, que é uma cantora incrível que tive o prazerzão de ter participando do meu CD e show de lançamento.

Ouça “O amor pode chegar”:

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Em meio a tantas possibilidades de morte, me peguei pensando na vida| 2015 – Download

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