Música / Questão de Opinião / resenha

Parelelos & infinitos: César Lacerda celebra o amor em segundo disco

“Oito canções sobre o amor, para o amor, com o amor”

*Por Beatriz Farias

Em 2013 no álbum “Porquê da Voz”, faixa 8: “Parece que o amor não vai chegar, parece.” Deitemos esse oito já citado em posição horizontal, confortável. Deixemos o tempo passar e sem anular a promessa e os contextos, estamos em 2015 com “Paralelos e Infinitos”. Lançado em 21 de agosto (olha o 8 novamente), sexta-feira friorenta em que o dia mudou os tons do céu paulista para receber “a nova filha” de César Lacerda. Com produção de Pedro Carneiro, masterização de Bruno Giorgi e outras importantes colaborações, a absurdidade do mundo contempla a eternidade do amor corajoso.

Foto: Clayton Leite. Arte: Igor Anjos

A capa do disco traz a atriz Victoria Vasconcelos. Com foto de Clayton Leite e arte: Igor Anjos

A primeira audição de um disco é carregada de expectativas e “pré-conceitos”, mas seu profundo mistério de penetrar o silêncio só adentra quando a entrega do ouvinte se alinha à de quem  necessitou dizer. E eu que de mala e cuia me preparava para embarcar, senti no som o convite para que despisse de tudo que já esperava, porque viagens em que se encontram o sagrado devem ser feitas de alma lavada e pés descalços. “Sim, todo amor é sagrado” cantou Milton Nascimento em meados de 1986, momento em que a liberdade necessitava florecer. Relembrando a importância desse desnudar de sentimento, César clareou a afirmação em oito canções com base em seu relacionamento com  sua namorada Victoria Vasconcelos. Escolher um tema frequentemente abordado apresenta o desafio de fugir do clichê, que só alcança o objetivo quando compreendido que essa fuga se dá no ser fiel ao sentimento. A síntese que Milton defendeu em época tão oportuna, porque falar do amor é a celebração dessa divindade, “levar o coração como bandeira”, como César respondeu em uma de nossas perguntas.

O ar da estrada, os instrumentos que se fundem com a voz, derretem  no caminho do ouvido e a maciez com que chega ao coração são algumas das sensações presentes na atmosfera do disco, uma busca rica em densidade e desejo de encontro. A apreciação do amor, caminho que só se faz pela certeza de sua existência, mas que também é angústia, medo e saudade. Pressa do estar e plenitude do encontro.

O mundo vive um momento muito duro, de muitas (1)

Fala César: Depois de morar no Rio de Janeiro, o artista mineiro chega a terra da garoa. Perguntamos a César se existe amor em SP e a resposta você confere aqui.

Superando a vontade de comentar cada minucioso detalhe para que não se perca a magia da audição individual e apropriação, é importante mencionar algumas canções. “21” além de preferida deste instante, carrega um misto de melancolia e beleza bem bordado a simplicidade das descobertas, César dialoga com que Caetano Veloso contou em sua composição “Tudo dói”. O encanto tem essa vertente: “tudo dói, no entanto tudo vibra”. Amarrando as pontas, “Guarajuba” tem a voz de Victoria Vasconcelos e o Jardim Botânico ao fundo, o ponto em que a solidão soa aguda e a saudade derrama da pequena letra e independe de palavras. Já a faixa seguinte – que dá nome ao disco – é encontro. A explosão minuciosa da chegada, dúvida e essa dança de observar o segundo. A vivência desse momento ínfimo que reverbera em tudo o que vem depois e justifica seus sentidos.

Carregando uma intimidade que vai além de letra, César tocou a maioria dos instrumentos num desejo carinhoso de solidão “Eu cria que só seria possível alcançar a minha meta de ampliação do discurso através desse primeiro momento de solidão no estúdio.” Artistas como Cícero, Mahmundi, Lucas Vasconcellos, Uirá Bueno entre outros, acrescentaram com a beleza indescritível. “As participações vieram na esteira desse desejo e caminharam para dentro do processo com ‘pés de lã’. Todos compreenderam, sem ser necessário falar muito sobre isso, que este disco buscava a delicadeza, a sensibilidade. Sou muitíssimo grato às contribuições de todos que colaboraram com o processo”, conta.

Na entrevista que fizemos em março, César contava do plano de lançar dois discos este ano, um para cada semestre. O “La jornada” já tem algumas canções gravadas mas no momento o artista só consegue pensar em sua nova “filha”. E o sentimento é compartilhado porque ainda tem muito o que perceber por aqui, ainda tem muita beleza em processo de abrigação e deleite. “Paralelos e Infinitos” carrega a palavra que ainda não foi inventada, a quentura de chegar em um lar que transcende o físico e a construção desse ambiente em constante movimento. Descobrir dentro do amor a estrutura sem esquecer que ele é a sustentação em si.

César comentou duas músicas que escolhemos, confira:

Touro Indomável

“No ano passado, quando fui ao Uruguai tocar, recebi esse presente especial do Francisco Vervloet. À época, ele tinha essa música ainda sem letra e eu fiquei apaixonado por essa mistura de canção regionalista e praieira – esses dois universos aparentemente distintos convivendo em harmonia e perfeição. Assim que cheguei ao Brasil fiz toda a letra. A inspiração vem da astrologia e dessas características mais centrais do meu signo solar. Pensei numa dramaturgia pra essa letra com esse personagem que vive tantos contratempos para encontrar o seu amor, e então, amá-lo. Pensei na minha própria história e criei essas imagens de batalhas e guerras, mas todas perfumadas por esse véu onírico, muito sedutor. Em suma, é uma canção inspirada por essa energia da paixão, por essa força que toma a todos quando imersos nessa força imensa que é a busca pelo amor.”

Quiseste expor teu corpo a nu

“Esta é a canção mais pessoal do disco. Foi inspirada no trabalho de performance que a minha namorada, Victoria Vasconcelos, tem, e sobre as dificuldades de interpretar isso dentro de uma relação.

Essa canção toca em questões como a exposição, a posse, o desejo e o ciúmes. E mais profundamente, com expressivo caráter geracional, no que diz respeito às novas formas de encarar a sexualidade, o vínculo e os relacionamentos diante de uma perspectiva onde o feminismo ganha força. Ou seja, como essa nova configuração social, onde as mulheres, com uma interlocução muito central e ativa no processo histórico-cultural, tem gerado desafios para a compreensão e a vivência nas relações. Essa canção é um pedido de desculpas público à liberdade que foi ferozmente tomada de todas as mulheres: corpo, alma, pensamento. E sobre o desejo, de que num novo capítulo de nossa história, possamos progredir em todas essas questões.”  

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Download: site

Escutar online: SoundCloud | Youtube

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