Abre Aspas

Agridulce: Compreensão e representatividade em um ambiente hostil

Abre Aspas

*Por Meiri Farias

2015 é o ano da desconstrução. Esse processo já vem acontecendo há alguns anos, mas durante esse ano a necessidade de me desconstruir diariamente tornou-se urgente. Creio que de uma forma ou de outra, estamos sujeitos a situações de afastamento e privilégio, das mais diversas natureza. O problema é quando uma determinada condição caracteriza sua opressão. Em 2015 parei de rir de piada contra minorias: não limite o nordestino a “baiano”, não banalize o gay, não invalide a conquista do negro. A desconstrução me fez chata, li essa frase durante a última semana e percebi o quão “difícil” é para a maioria, escancarar feridas. De todos os exemplos que citei, ofereço minha compreensão e solidariedade, mas não posso ter uma empatia completa por não fazer parte circulo, por não viver essa realidade. 2015 trouxe a consciência de vários tipos de opressão, principalmente aquela que bate na cara, que sinto na pele. 2015 me fez compreender o risco ocupacional que é ser mulher.

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Pretendo fazer um texto de verdade sobre assunto posteriormente, mas precisava começar o “Abre Aspas” dessa semana com essa pequena explicação. Essa busca pela desconstrução me levou a diversos trabalhos interessantes que temos apresentado por aqui (Carol Rossetti e Let’s celebrate Women só para citar alguns),  e hoje trazemos Agridulce, página da mineira Bárbara Báia que faz da sua arte um espaço de inclusão para várias meninas que precisam encontrar um espaço de representação para sua dor em uma em um contexto social ainda tão hostil a mulher.

Nem sempre é fácil acompanhar o trabalho de Báia. Seus desenhos são intensos e por vezes dolorosos. No projeto “Conta a sua dor” retrata histórias reais de sofrimento e desabafo que atingem, perfuram e abrem o olhar. Porque a dor da outra pode também ser a sua dor. Ou mesmo sem uma identificação direta, abre o olho para importância da sororidade.

Armazém de Cultura: Por que “Agridulce”?

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Bárbara Baia: Ix, por que? Ah… Bom, tem um pouco a ver com o fato de que eu adoro comida (e comer), principalmente pratos com sabores complexos, que são ao mesmo tempo doces, azedos e amargos. Eu sou docinha as vezes, azedinha e amarga outras. E meus desenhos são assim também.

AC: Você desenha sobre várias problemas sociais, em especial os que afetam a mulher. Algum deles em especial motivou a criação da página? como foi o início?

Báia: Na verdade o início se deu pelo incentivo de uma amiga, a Janaine Rambow, que não descansou até eu abrir a página e depois ficou acompanhando a contagem de curtidas comigo e divulgando meu trabalho. Obrigada Jana! Mas o assunto que mais me inspira e pelo qual tenho um carinho especial em desenhar é a depressão.

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AC: Já pensou em levar seu trabalho para o papel, tem planos de publicar um livro?

Báia: Adoraria publicar um livro, penso muito nisso! Quem sabe um dia (logo)?

AC: Temos conversado com várias artistas sobre a importância de discutir o feminismo e os direitos da mulher, e percebemos que muitas pessoas comentam sobre identificação nos posts. Você acha importante essa relação de representatividade que se cria com projetos como o seu?

Báia: Acho importante a gente ter com quem se identificar, se sentir compreendido, se ver no outro. Como eu tenho muita dificuldade em me ver “representada”, quis criar um espaço para outras “Báias” por aí que também se sentem meio solitárias às vezes.

AC: Poderia falar um pouco sobre o projeto “Conta a sua dor”? como surgiu a ideia e como é receber relatos de experiências tão difíceis?

Báia: Bom, o projeto começou porque uma amiga minha me pediu para ilustrar uma história difícil pela qual ela havia passado. A partir daí, amigas e amigos dela me procuraram pedindo o mesmo.  Depois de alguns desenhos, percebi o impacto positivo que eles causavam na vida dessas pessoas e resolvi abrir para os seguidores da página participarem também.

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É extremamente difícil para mim ler os relatos, passo muito tempo pensando neles e em como representá-los de uma maneira que ajude o autor a expurgar sua dor. No momento dei uma pausa nesse projeto porque estava me afetando psicologicamente de uma maneira muito negativa, mas tenho trabalhado o meu emocional para logo voltar a produzir as ilustrações. Desejo toda força e carinho para essas mulheres maravilhosas que superaram e estão superando seus traumas.

AC: Que trabalhos (que tenham afinidade ou não com o seu) que você se identifica e indica para quem gostou do seu?

Báia: Nossa… Olha eu AMO os desenhos do artista Rafael Fernandes. Ele só tem Instagram por enquanto, mas espero que logo abra uma página. O trabalho dele me emociona e inspira.

Também adoro o Ricardo Siri Liniers, minha alegria é achar um Macanudo pra vender na livraria. Gosto das tirinhas nonsense do  Toothpaste for Dinner e tenho muito carinho pela Emm, Not Emma e da Sarah Andersen.

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